Intimidade

Falar do dia de ontem

Escovando os dentes à beira da janela

Abraço disponível

a compartilhar um silêncio que não constrange

Mas alenta

Conforta

O olhar que se prende no do outro

Sem fugas ansiosas

E enxerga além do que quer ver

Que conecta

E entende de fato

Silêncio que não constrange

Mas acalenta num abraço quente de dois universos que se compartilham.

 

 

Bruna Paiva

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

Eu estarei na Bienal!

 

Olá, pessoal!

Quem me acompanha nas redes sociais já sabe que, sim (!), eu vou estar na Bienal do Rio como autora esse ano. Essa é uma conquista incrível que vai ser a realização de um sonho e eu quero ver todo mundo lá!

Vamos às datas:

  • “Um Diário Para Alice” estará a venda durante todos os dias da Bienal, no estande da Coesão Independente (N110), no PAVILHÃO VERDE.
  •  Meu horário oficial de autógrafos é no dia 01/09, domingo, das 16h30 às 18h, no estande da Coesão Independente (N110), no PAVILHÃO VERDE.

Porém, estarei pela feira nos dias 31/08, 01/09 e 07/09.

Então, se você quiser me encontrar pra ganhar um abraço e um autógrafo, mas não puder naquele dia e horário, é só me procurar nesses outros dias (pode mandar mensagem nas redes sociais que a gente se encontra!).

E é claro que vai ter cobertura de tudo que eu encontrar por lá no Instagram do blog e no meu pessoal! No fim da feira, eu faço um post sobre tudo o que  aconteceu por lá!

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

À moda brasileira

Você já se submeteu a tortura, digo, depilação íntima? Não me refiro a qualquer um dos métodos existentes para este fim, mas especificamente aquele que, inclusive, ao redor do mundo, é conhecido como “à moda brasileira” e utiliza a famosa cera quente como meio para se chegar ao fim desejado. 

Comecei a me depilar com cera quente aos 16 anos depois de muito minha mãe perguntar se eu tinha certeza daquela decisão. Ela nunca havia se submetido a tal procedimento, mas me acompanhou na primeira vez. Você pode dizer que eu era muito nova e que só estava cedendo aos padrões machistas da sociedade. E, provavelmente, era exatamente isso que eu estava fazendo, mas acabei me adaptando a essa rotina e sigo com ela até hoje.  

 Se você tem o costume de se depilar assim, sabe que existem dois tipos de estabelecimentos mais convencionais para o feito, os salões com esteticistas de bairro e as grandes franquias de empresas especializadas. Geralmente, a primeira opção é um pouco mais barata que a segunda, mas a faixa de preço varia muito de acordo com a profissional. A questão é que, de fato, são experiências bem distintas (que nem sempre justificam as diferenças de preço). 

Nas grandes franquias, o atendimento é muito mais frio e impessoal, o que pode ser extremamente constrangedor e desconfortável se levarmos em conta que, bom, a profissional não te olha nos olhos, mas tem livre acesso a uma parte de seu corpo cuja visitação é bastante restrita. Você chega, diz o que quer (de acordo com a tabela do lugar que nem sempre corresponde à forma como você conhece a parte do corpo que quer depilar), e recebe o kit de produtos descartáveis que talvez seja a melhor coisa dessas franquias, já que a esteticista abre o pacote com os instrumentos na sua frente e joga tudo no lixo assim que acaba o atendimento, você tem certeza da higiene do que é usado em você. Mas a parte boa para por aí.

 A sessão de tortura nesses lugares é muito mais desesperadora. As esteticistas provavelmente ganham pelo número de clientes que atendem e, seguindo a lógica capitalista, precisam te atender rápido para passarem para a próxima cliente e, assim, garantir uma média diária que compense no salário. Entretanto, essa lógica que já não é boa em outros contextos se torna ainda mais maquiavélica numa sala de depilação. Você é deixada na salinha para tirar a roupa e se preparar (psicologicamente) para a sessão. O tempo que a depiladora demora a voltar se justifica porque ela precisa descer uma escadinha até o inferno, onde fica a panela com a cera derretida. 

Quando ela finalmente chega, raramente se apresenta, apenas confirma o serviço a ser realizado e então começa. Ela liga um pequeno ventilador, virado para você, e, sem o menor aviso prévio, começa a te melar com a cera advinda das profundezas da casa de Satã. Quando a pele começa a se acostumar com a temperatura, graças ao bendito ventilador, ela, mais uma vez, com todo o ódio de seu coração, puxa aquela cera endurecida arrancando, junto com os pelos, uma parte de sua alma. 

 Não satisfeita, ela volta com a espátula cheia de cera para o mesmo lugar que acabou de ser maltratado. A cera, que já parecia baba do demônio, agora parece veneno escorrido das presas de um capiroto faminto. A sua pele reclama, você tenta respirar, mas antes que o ar seja completamente expulso dos pulmões, mais um pedaço de sua alma é arrancado, sem piedade. 

Nos salões de bairro, o atendimento é um pouco mais personalizado. Você marca horário pelo Whatsapp, a depiladora te conhece, nem que seja de vista. A cera, normalmente, é menos quente, apesar de o sofrimento ser bem parecido. Mas não se engane, a experiência pode ser tão bizarra quanto a das franquias, ou mais. Uma vez me depilei com a neta, de quatro anos, da esteticista assistindo galinha pintadinha e correndo dentro da saleta minúscula. Enquanto eu sofria, Mariana contava três, Mariana contava três, é um, é dois, é três! Desesperador.

A parte de se vestir, ao final da sessão de tortura, é a mais triste, pois qualquer que seja o estabelecimento, tenha você tirado a calcinha antes do procedimento ou amarrado a dita cuja com fita, é terrível lidar com o tecido tocando a pele recém torturada, digo, depilada. Tirar essa calcinha, ao chegar em casa, traz uma espécie de desespero, já que sempre vai haver alguma sobra de cera que grudou sua pele no tecido. O banho quente e repouso são a merecida recompensa. Mostrar o feito para o boy (ou girl) no mesmo dia, só se for que nem a Kelly Key “só olhar, baba, baby”.  

 

A realidade é que, a cada vez que me deito naquela maca, passo pelo mesmo processo de autorreflexão: me pergunto por que é que sigo me submetendo a tamanho sofrimento depois de tanto tempo e, em meio à vontade de chorar, me prometo que nunca mais passarei por isso. Mas sabe aquela coisa de que a mulher esquece das dores do parto antes de ter o segundo filho? Nunca pari, mas tenho certeza de que algo parecido acontece em relação à depilação. A verdade é que eu odeio pelos, o sonho da minha vida é a tal da depilação à laser que custa um rim inteiro. Seja lá onde estiverem, os pelos me incomodam e me estressam tanto que, ao início de cada mês mês, volto eu para aquela sala de tortura, descumprindo a promessa do mês anterior para logo sair linda e bela, refazendo a mesma promessa falsa de sempre.    

 

Bruna Paiva

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

Era isso, então?

 

A mente anestesiada 

não se ocupa além da tormenta. 

Dor demais não dá poema.

Era isso então?

Trago fundo toda a passividade 

do que não virou palavra

porque não se tem tempo pra isso.

Sou mulher e

Talvez adolescências já não caibam.

Cabeça atormentada

O rosto indiferente

Vivendo por inércia sem espaço para ser. 

 

Bruna Paiva

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

 

Cinematógrafo

As letras no livro em minhas mãos desfocam até virarem um borrão dentro das margens. É a terceira vez que tento ler esse parágrafo e, novamente, as palavras perfiladas não me dizem nada. Minha mente vagueia por outros assuntos. A imagem que eu nunca vi se instala no meu cinematógrafo interno.

Crio, recrio, rememoro, regurgito e a ânsia de vômito me sobe até a garganta enquanto seu corpo é tocado por ela. As cenas mais diversas vêm e vão, e ao mesmo tempo em que alimento cada uma delas, eu só queria esfregar meu cérebro com água sanitária, como um assassino faz com o chão sujo de sangue.

Imagino sua boca, escorregando pelas curvas dela como faz com as minhas. As mãos quentes sendo usadas para arrepiar a pele que não me pertence. A intimidade, o carinho, o desejo. Te imagino deitado puxando o corpo dela para perto. Enfiando sua mão pelos cabelos dela e brincando distraído. Será que olharia para ela do mesmo jeito que olha pra mim?

Que sentido faz esse tipo de questionamento? É certo que nenhum. Da mesma forma que criar essa realidade na cabeça só serve para me desestabilizar. Ainda assim, é inevitável imaginar que no passado você foi dela.Porque de fato o foi.

Tento retornar para a história que alguém escreveu e agora se encontra em minhas mãos. Mas a que eu crio sobre vocês, na cabeça, é daquelas que aprisiona o espectador. É como me sinto, obcecada por uma versão sua que desconheço, mas invento. Uma versão sobre a qual não tenho o menor controle, apesar de minha criação.

Aperto os olhos com força e, apesar de saber exatamente por que esses devaneios apareceram, percebo, enquanto uma lágrima escorre, que não será tão fácil me livrar deles.

 

Bruna Paiva

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

Sol

Esbarro nos teus olhos, sem querer.
Esse reduto de hipnose que me arranca do tempo presente.
Viajo para a sua dimensão, onde você faz de mim o Sol.
Da sua e da minha vida.
Não é injusto?
Doar-se para alguém que te ilumina somente sob a condição de que lhe gire ao entorno?
Caso se esgotem as rotações,
você desmonta.
Mas eu…
Eu continuo brilhando.

Bruna Paiva

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

Escritores Anônimos em bloqueio criativo

O salão é maior do que o necessário, mas o ambiente é agradável. Sentamos numa roda de
cadeiras plásticas e todos se olham nos olhos. Alguns trazem bloquinhos e caneta, outros se
renderam à tecnologia. Uma parte parece animada. A outra, abatida pelos truques da própria
mente.
— Eu sou D. M. Ramalho e há 27 dias eu não consigo passar nada para o papel.
— Meu nome é Beatriz Coelho e eu estou há 301 dias sem conseguir escrever sobre o amor.
— Meu nome é Mauro Toledo e faz 94 dias que eu deixei de ser poeta.
— Por vontade própria? — Pergunta o mediador.
—Por bloqueio. —Mauro responde. — Não sai nada.— O círculo se encara, tenso. Uma gota
de suor escorre pelo rosto de Maria.
— Isso não quer dizer que você deixou de ser poeta. Todo bom escritor passa por isso. — A
tensão se afrouxa levemente até que alguém diga:
— Eu li sobre uma escritora que teve um bloqueio de 50 anos.
— Eu conheço um que ficou 10. — o autor ao lado se manifesta.
— Imagina, 50 anos sem escrever? — um desesperado se se altera, no extremo oposto do
círculo.
—Eu vou morrer de fome… — Maria choraminga na cadeira, entortando a coluna.
O burburinho começa. 50 anos sem escrever. É possível passar 50 anos sem que a mente faça
aquilo que ela decidiu que queria fazer para o resto da vida? 50 anos falhando em algo antes
tão simples.
—Vocês já tentaram escrever sobre isso? — Alguém levanta a voz em meio às conversas
paralelas.
— Sobre não conseguir escrever? — Mauro se interessa. Como não pensara nisso antes? O
bloqueio era tão forte que nem mesmo a solução mais fácil lhe passava pela cabeça.
— O último dos recursos. — Um impressionado profetiza.
—Eu tenho 7 textos sobre isso. Todos uma merda. — Lopes cruza as pernas.
— Sabe o meu maior problema? — Valéria toma a palavra. — Não é a questão do não
conseguir escrever. Eu escrevo — Ela folheia o caderno, cheio de anotações. — Mas eu não
acho nada bom. Já achei um dia. Mas, hoje, tudo que eu passo para o papel me parece
imaturo, pobre, indigno da leitura de qualquer um.

—Por que não traz aqui para lermos?
Valéria os encara, muda. Tem vergonha. De uma hora para outra, passou a se sentir exposta
pelo que escreve. A dar importância maior ao que é possível que o outro fosse pensar sobre
ela, caso lesse seus escritos. E, por isso, aprisionou cada um deles naquele pequeno caderno
em que não era capaz de terminar nenhuma linha iniciada.
— Melhor não. — Ela olha para chão.
— Vocês sabem que ao fim de cada reunião eu trago um prompt. — O mediador volta a falar.
—Eu nunca entendi essa palavra. — Alguém murmura.
—Eu também não. — Um sussurro responde.
O mediador faz uma careta. É complicado lidar com um coletivo de egos frustrados.
— Uma sugestão, dears. Um tema para instigar vocês a voltarem a escrever. É esse o objetivo
maior de nossa troca. Que um incentive o outro a partir de sua própria experiência.
— Eu não me sinto incentivado por um monte de gente que não consegue mais escrever. —
Fabrício debocha e logo recebe olhares revoltados.
— O que faz aqui então? — Alguém grita.
—Se é tão superior porque não senta e escreve? —Outro revoltado se altera e então começa o
burburinho.
— O prompt de hoje é Desejo e Dilema! — O mediador sobe o tom, mas dessa vez a discussão
não cessa.
E voltamos ao caos que encerra cada reunião. Afinal, é ele o que de fato motiva cada um que
volta, a cada quinta-feira, na vã esperança de que esse encontro magicamente o faça voltar a
saber escrever.

Bruna Paiva

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram

P.S. no escuro

Seus olhos no escuro

vidrados em mim.

O momento em que tive certeza

(E volto a ter)

A pupila dilatada

Sorriso ensaiado

encostando no meu.

 

Seus olhos castanhos no escuro

Me encarando com encanto

Num tempo que nem existe.

Toque quente que arrepia

Boca feita pro encaixe perfeito

Dizendo tudo

que eu sempre quis ouvir.

 

Seus olhos castanhos

No escuro

Das primeiras imagens

que eu gravei pra sempre

Com o encantamento

de conhecer o novo

E querer novamente

Cada apagar de luzes

 

Bruna Paiva

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram