Sozinha na Guatemala: um relato

Em 2017 li um livro chamado “O país das mulheres” e ele marcou o que seria uma grande mudança na minha vida. Era o início do meu interesse pelo feminismo, talvez do meu próprio entendimento como mulher na sociedade. O livro, que é ótimo e foi resenhado aqui no blog, citava brevemente uma poeta da Guatemala a quem eu resolvi procurar e transformei numa pequena obsessão que, mais tarde, virou objeto de pesquisa quando decidi fazer mestrado.

Foi assim que, em julho de 2022, eu fui parar sozinha na Guatemala. Desde o início da pesquisa eu sabia que, se quisesse encontrar boa parte do que precisava para o trabalho, seria necessário viajar para aquele pequeno país da América Central. Isso porque, além de não existirem traduções da obra de Ana María Rodas no Brasil, eu sou a primeira brasileira pesquisando a autora. Por isso, é muito difícil encontrar material crítico e jornalístico por aqui.

No fim do ano passado, conversando com a minha orientadora e tentando entender como se daria essa viagem, surgiu a oportunidade de um congresso internacional de literatura latina bem na Cidade da Guatemala. Juntamos o útil ao agradável.

Planejar a viagem foi gostoso, mas também tenso. Eu viajaria sozinha para fora do país pela primeira vez na vida. Um milhão de medos passaram na minha cabeça. A maioria deles envolviam o fato de ser uma mulher viajando sozinha. A gente precisa de coragem para se enfiar numa dessas…

Fui com medo (vários deles), mas fui. Na semana anterior à viagem, tive a notícia de que muito provavelmente não conseguiria contato com a autora que pesquiso. Aquilo me desanimou de cara. Querendo ou não, era o meu maior objetivo pessoal com a viagem. Eu podia seguir a pesquisa sem aquela entrevista, mas eu sei que pessoalmente voltaria frustrada.

Foram horas de avião e aeroportos para chegar lá já passando perrengue com a imigração e mal-entendidos no hotel. No primeiro dia fui dormir chorando e morrendo de fome e saudade de casa.  Mas passou. Fiz o que precisava fazer e segui para a semana mais intensa do meu ano.

Conheci uma cidade colonial que foi destruída por um terremoto no século XVIII, vi um vulcão, visitei bibliotecas, livrarias, arquivos de jornais, museus… Em alguns momentos, me sentia muito sozinha, tinha pena de estar vivendo tudo aquilo sem compartilhar com meu namorado, minha mãe, uma amiga, ou seja lá quem fosse. Mas no fim do dia eu sempre ligava para casa, contava tudo o que estava vivendo e isso amenizava a saudade.

Não consegui entrar no fuso e acabava indo dormir junto com o Brasil, o que fazia com que eu acordasse com o céu ainda escuro e dormisse muito mal. Também tive problemas com a comida que, além de diferente, era muito cara. O custo de vida na Guatemala não é barato e muitas vezes a estudante aqui precisava se contentar com um big mac (sem batata e refri) que por si só já era um absurdo. É claro que em algum momento da semana a conta da má alimentação chegou pesada, fazendo eu passar muito mal.

Viajar sozinha tem suas dificuldades, mas também faz a gente se sentir o máximo. Faz a gente perceber que se basta e que consegue tomar conta de si mesma por mais que os obstáculos apareçam de vez em quando. Também faz a gente dar mais valor para as companhias que temos sempre do nosso lado, para os momentos bobos com as pessoas que a gente ama.

O congresso em si não foi lá essas coisas. É irônico ter sido vítima de machismo enquanto apresentava um trabalho essencialmente feminista. É claro que isso dá uma abalada, mas no fim o sentimento se transformou em gás para mostrar que meu trabalho é necessário, que é preciso que cada vez mais mulheres se coloquem em posições importantes para falar de outras mulheres e levantar as bandeiras de feminismos diversos. Toda mulher passa por isso, e não vai ser a última vez. É aprendizado também.

Entrevistar as críticas especialistas na poeta que estudo foi providencial, me deu certeza de que o trabalho é relevante e de que há muito a ser dito. E quando um colega querido, que já muito me havia ajudado, conseguiu marcar meu encontro com Ana María Rodas, eu senti que voltaria para casa com a missão cumprida. E foi o que aconteceu.

Ana María Rodas e eu

Na quinta-feira (21/07), passei a tarde na casa de Ana María Rodas e fui recebida da melhor maneira possível. Ela me contou sobre sua infância com o incentivo à leitura da mãe, que lia diversos livros para ela e os irmãos. E também das peripécias de uma menina que já pequena se deu conta da diferença com que os meninos e meninas eram tratados e guardou aquele sentimento esquisito até que transbordasse em um livro de “Poemas de la Izquierda Erótica”.

Quando cheguei ao hotel naquele dia, com o sentimento de que havia conseguido fazer tudo a que me propus quando saí do meu país, estava extremamente feliz, apesar do cansaço que, depois de tudo, chegava com violência.

A sexta-feira, último dia de viagem, foi o meu dia compensatório. Fui a um bairro chiquérrimo (e caríssimo) e me permiti apenas passear, sentar em um restaurante, aproveitar uma refeição gostosa e fazer fotos belíssimas. Passei também em um mercado de artesanatos e trouxe presentes para a família. Terminei aquele dia arrumando minha mala e assistindo a Turma da Mônica no hotel.  

A volta foi muito cansativa, com uma maratona de aviões e 8 horas intermináveis no aeroporto da Colômbia. Mas no fim valeu à pena.

Essa viagem foi a maior aventura da minha vida antes mesmo da decolagem. Mas eu faria tudo de novo, apesar de cada percalço. Foi uma semana completamente transformadora e eu acredito que é uma experiência pela qual todas nós deveríamos passar um dia. Se você é mulher e tem medo de viajar por si só, acredite, é algo que muda sua visão sobre você mesma. Junte os caquinhos do seu medo, agarre-os e vá com eles mesmo…

Guatemala, muito obrigada por essa semana.

Bruna Paiva

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Um Diário Para Alice esgotado na Bienal

Quando eu decidi ir para a Bienal de São Paulo, não tinha muita esperança de vender na feira. Estaria num estado que não é o meu, numa cidade em que ninguém me conhece, no meio de uma feira enorme, cheia dos livros mais famosos possíveis. Estar em um estande da feira com o meu livro já era uma conquista enorme, que me possibilitaria conhecer gente nova e fazer contatos importantes. E para mim já valia o investimento.

Arrumei as malas, arrastei meu namorado e fomos com toda a coragem do mundo para a aventura que seria essa viagem. E que aventura… Já no primeiro dia de feira o evento estava caótico, lotado, cheio de leitores ávidos. Entrei no estande com meus marcadores e fiquei na prateleira do fundo, esperando a oportunidade de apresentar meu livro para leitores em potencial.

A primeira menina que abordei levou o livro. Em menos de 40 minutos, vendi mais 3. Ali eu comecei a perceber que talvez aquele investimento todo realmente fosse valer à pena. Eu ia conseguir vender. E consegui. Terminei o primeiro dia de feira extasiada, morta de cansaço, mas muito feliz e fazendo questão de comemorar. E como eu não tinha mais perna para curtir a Augusta, como tinha planejado, comemos numa lanchonete diferentona que ficava na frente do nosso hotel, a Hot Pork.

No domingo cheguei muito mais confiante, louca para conhecer novos leitores e empolgada com a minha sessão de autógrafos programada para aquela noite. Foi o dia em que fiquei por mais tempo na feira. E também o dia em que mais vendi exemplares de “Um Diário Para Alice”, o dia em que a perspectiva de voltar para casa com meus livros esgotados se apresentou para mim.

A segunda-feira era meu último dia em São Paulo. E quando cheguei ao evento, só sobravam 5 livros para serem vendidos. Antes do meio-dia, os dois últimos exemplares foram vendidos para uma dupla de amigas. Os únicos dois que eu autografei de caneta verde, sabe-se lá por quê. O nervosismo tomou conta na hora e eu só aguentei até as meninas saírem do estande para começar a chorar.

Eu não tenho palavras para descrever o que senti no último fim de semana. Ainda olho para as fotos e tudo soa meio mágico, meio inacreditável. Mas aconteceu. Meus livros esgotaram na Bienal de São Paulo. O tal do evento gigante, num outro estado, numa cidade que ninguém conhece, foi o evento em que eu tive meu melhor desempenho de vendas diárias. Muito obrigada, São Paulo! Vocês não sabem o quanto esses três dias fizeram a diferença na minha vida.

Eu acredito que às vezes a vida dá o jeito dela de sacudir a gente. Talvez esse tenha sido o jeito da vida de gritar no meu ouvido: Vai lá! Segue em frente nesse sonho porque vai dar certo!

E foi assim que eu voltei de São Paulo. Mais confiante do que nunca e com muito mais gás para correr atrás do meu sonho e fazer ele acontecer.

Bruna Paiva

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Bienal de São Paulo 2022 – Saiba como me encontrar!

Oi, gente!

Passando para contar para vocês essa novidade que já está me fazendo roer as unhas!!!

No próximo sábado, 02/07, começa a Bienal do Livro de São Paulo e eu estarei por lá com o meu livro. Vai ser minha primeira vez nessa feira e meu primeiro grande evento pós pandemia. Eu adoro São Paulo e tô muito feliz de poder participar da Bienal! Estou doida pra conhecer leitoras paulistas e autografar livrinhos!

COMO ME ENCONTRAR?

Estarei com Um Diário para Alice à venda no estande da Ps.:Edições (Estande G128) durante todos os dias da feira, que vai até o dia 10/07.

Minha sessão de autógrafos vai ser no dia 3 de julho (domingo), às 18h45. Quem quiser passar pra me dar um abraço, tirar uma foto, ganhar brindes e um autógrafo, além de bater um papinho, vai ser recebido com muito amor!!

Também estarei na feira nos dias 2 e 4 de julho. Sempre nos arredores do estande da Ps.:Edições e também passeando pq não sou boba! Pra me encontrar é só dar um alô por qualquer rede social que a gente combina!

Me sigam em todas as redes sociais para não perder nada do que eu mostrar por lá!

UM DIÁRIO PARA ALICE

Um Diário Para Alice é um livro multimídia! Ele conta a história de uma amizade que supera a barreira da morte.

Depois que Alice e Bianca, melhores amigas desde que nasceram, sofrem juntas um acidente que custa a vida de Alice, Bianca perde o chão. A família da menina decide recomeçar a vida em outra cidade, mas Bianca não quer deixar a amiga para trás.

É quando ela decide gravar vídeos em formato de um diário para Alice. Na cidade nova, Alice fica sabendo do novo grupo com quem Bianca tem andado e o menino misterioso com quem ela se envolve. Apesar do medo de voltar a viver, Bianca se apoia no Diário Para Alice para conseguir se permitir ser feliz…

Os vídeos foram gravados por uma atriz e, por meio de QR Vocês, você pode assistir a todos eles durante a leitura!

Assista ao booktrailer:

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PEQUENA COREOGRAFIA DO ADEUS – RESENHA

Fazia muito tempo que eu queria ler alguma coisa da Aline Bei. Ganhei Pequena Coreografia do Adeus de Natal e ele ficou aqui na estante esperando eu dar uma chance. Foi a leitura de Tudo é Rio, da Carla Madeira, que me fez querer seguir na linha de leitura de uma autora nacional que eu sabia que seria arrebatadora. E foi…

Pequena Coreografia do Adeus começou me surpreendendo porque eu não fazia ideia de que seria um romance em versos. A forma inovadora do livro já me deixou interessada logo de cara. E a escolha por contar a história em versos deixa ainda mais visceral a narrativa.

O livro traz uma história de abandono parental, o que nem sempre significa um abandono físico. É possível abandonar um filho ainda que se esteja ali, todos os dias, de corpo presente. E é um pouco essa a questão que mais choca e gera aquele incômodo próprio da literatura.  

Júlia é uma mulher que cresceu num ambiente hostil em que os pais se odiavam e as brigas eram frequentes. A infância de Júlia foi cheia dos traumas que se apequenar para caber na realidade dos outros e não ser um fardo dentro de casa causa numa criança. E ela chega na vida adulta assim, destroçada, tentando juntar seus pedaços e conseguir finalmente entender o que quer da própria vida. Ao mesmo tempo, a família, mesmo que longe e fragmentada, ainda é um drama que vive dentro e fora de Júlia, que não sabe bem como conviver em paz com eles e nem como viver sem…

O livro tem dois momentos: a infância de Júlia e o tempo presente, no início de sua vida adulta. É um desses livros que não tem exatamente uma linha narrativa que te leva a algum lugar, mas definitivamente te carrega a cada página encrustando a vivência da personagem na sua pele até que você se envolva o bastante para não conseguir largar o livro.

Não é um livro leve. É uma história cheia de nuances e dramas familiares que podem te fazer repensar toda a maneira como suas relações são construídas. Exatamente o tipo de livro que tem sido o que mais gosto de ler ultimamente. Um equilíbrio perfeito entre o desgraçamento de cabeça e literatura que me lembra por que eu gosto de ler.

Meu livro está cheio de marcações e deixou meu sarrafo tão alto que a leitura que comecei em seguida perdeu um pouco da graça. É muito gratificante ver autoras brasileiras contemporâneas fazendo uma literatura tão intensa e primorosa. Dá orgulho da literatura nacional e vocês sabem que eu sou uma entusiasta do que a gente produz aqui no mercado editorial brasileiro.

 Pequena Coreografia do Adeus é um livro que com certeza entrou para a lista dos meus favoritos do ano e eu amei conhecer o trabalho da Aline Bei. O outro romance da autora já está no meu radar.

Se você gosta de drama e de livros que vão te deixar em posição fetal encarando o teto por horas, tentando entender pra onde está levando sua própria vida, “Pequena Coreografia do Adeus” é pra você.

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Resenha: Tudo é Rio, uma correnteza que me levou com tudo

Eu amo quando um livro me prende do início ao fim. Quando já na primeira página eu sou completamente capturada por aquela narrativa. Dá vontade de sentar que nem criança ansiosa e ficar ouvindo tudo o que aqueles personagens têm para me oferecer.

Foi exatamente isso que aconteceu quando eu li “Tudo é Rio” da Carla Madeira, esse livro que é um dos queridinhos nacionais de 2022. Uma pessoa me indicou quando eu abri caixinha de perguntas no Instagram e depois eu vi a Pam Gonçalves falando sobre o quanto ela tinha amado o livro. Resolvi comprar e QUE LIVRÃO! Já é um dos meus favoritos do ano com toda a certeza. E já na primeira página ele me conquistou com essa citação:

“Quer vida mais fácil que a minha, uma puta que gosta de dar? Para toda a cidade isso era uma provocação sem tamanho, qualquer pessoa de bem tolera as putas, com a condição de sentir pena delas. Lucy, dona demais de si mesma, privava as mulheres de família do exercício da compaixão”

“Tudo é Rio” é uma narrativa que se passa numa cidade pequena, em algum lugar de um passado não muito distante, mas que não é definido no livro. Me lembrou a aura de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, que passa lá pelos anos 40, 50…

O livro traz 3 personagens principais. A Lucy, a puta mais famosa e mais disputada da cidade, é a primeira que a gente conhece. E é ela também que nos apresenta os outros dois protagonistas: o Venâncio e a Dalva, um casal que teve a vida perfeita arruinada por uma tragédia causada pelo ciúme de Venâncio.

Esse casal vive uma vida medíocre, de muito sofrimento e de um amor esquisito, que nem eles nem a sociedade consegue explicar. O sossego daquela vida conformada é rompido quando Lucy decide que quer Venâncio para si. A partir desse triângulo amoroso, a gente passa a se aprofundar no passado de todos os personagens e entender o que levou cada um até aquele ponto da narrativa.

A leitura de “Tudo é rio” realmente flui como as águas de um rio caudaloso. É uma narrativa que dá vontade de ler de novo e de novo e de novo. A maneira como a Carla Madeiro conduz a gente pela história é muito bonita. É surreal o tanto que essa mulher escreve bem. É sem dúvidas uma obra-prima. É gostoso de ler, de apreciar a construção da língua e da história ao mesmo tempo. É um primor narrativo que eu vi poucas vezes. Um dos livros mais bonitos que eu já li, sem exagero. Meu kindle está cheio de destaques e anotações.

A única coisa que me incomodou é que, no meio da minha pressa por engolir aquele livro, em alguns momentos, as entradas excessivas no passado de alguns personagens, que não eram centrais, quebravam um pouco o ritmo da história. É claro que tudo no livro tinha um propósito, inclusive as quebras e os momentos em que a história ficava um pouco mais arrastada. Mas eu sentia vontade de que a narrativa voltasse logo para a problemática central da trama…

Outra coisa que pode incomodar porque é bem controversa é o final, que eu não vou contar por razões óbvias. Mas eu sei que vai ter gente que vai problematizar e dizer que a autora está romantizando relações abusivas… Não acho que seja uma romantização porque em momento nenhum no livro acredita-se que aquela situação é aceitável. A questão problemática é um incômodo durante todo o livro, tanto para o leitor quanto para os personagens. E, pra mim, isso não é romantização. Acredito que o ponto do livro vai muito além disso, é muito mais complexo do que esse preto no branco e eu sei que muitas vezes a gente ignora essa zona cinza que é muito mais presente no mundo e nas relações das pessoas.

Nenhum desses pontos atrapalhou tanto minha experiência de leitura, que foi sensacional. É um livro que eu já estou indicando para todo mundo que eu posso. Para maiores de 18 anos, é claro, porque sim é um livro pesado, explícito e que não cabe para um público adolescente, por exemplo.

Então, se você é maior de idade e gosta de um bom drama cheio de reviravoltas e, por que não, fofocas de cidade pequena, “Tudo é Rio” é um prato cheio para você se deliciar!

Bruna Paiva

Síndrome de Branca de Neve

 

Dia desses lembrei de um episódio da minha infância que me fez pensar muito sobre a forma como a sociedade cria suas meninas. Mais de uma década atrás eu passava por isso, mas só hoje a lembrança me fez refletir de maneira crítica sobre o significado daquilo.

Eu não tinha mais de dez anos de idade quando fui a uma festa de quinze anos pela primeira vez. O aniversário era da irmã de uma amiguinha minha, nossas famílias eram próximas, então o convite foi natural. Lembro da roupa que estava vestindo, um vestido cinza com a saia super rodada e um bolerinho branco (sim, o bolerinho estava na moda. Estou cada vez mais velha.), uma gracinha de criança, parecia uma princesa.

A festa era no Alto da Boa Vista, um bairro caríssimo no Rio de Janeiro, cheio de mansões que funcionam como casas de festa. Lembro de uma festa extremamente produzida, com várias estações e um roteiro super ensaiado. Na primeira estação da festa, houve uma cerimônia religiosa. E é aqui que começa esse episódio que foi tão marcante na minha infância, mas que até hoje eu nunca compartilhei com ninguém.

Logo atrás de mim e minha família estava um menino que, na minha memória, me parece um homem bem crescido, mas, como os fatos a seguir mostrarão, devia ter entre 14 e 17 anos. O menino vestia um terno simples e tinha ares de príncipe encantado. Tinha um cabelo brilhante, um sorriso bonito e, de acordo com a visão da Bruna de 9 ou 10 anos, um charme incomparável. Ali, naquele momento, me apaixonei perdidamente e, como não o conhecia, na minha cabeça seu nome passou a ser: meu príncipe.

Durante todo o resto da festa, acompanhei cada movimento do meu príncipe pelo salão. Observei-o de longe, sonhando, criando expectativas e alimentando a certeza de que aquele menino era minha suposta alma gêmea. Em momento nenhum externei isso para ninguém que me acompanhava na festa. Aquele foi um episódio silencioso da minha infância. Uma experiência de paixão platônica repentina que pareceu muito clara na minha cabeça durante aquela noite. E talvez nem tivesse me marcado tanto se o desenrolar da história não fosse tão traumático:

Em determinado momento da festa, perdi meu príncipe de vista. Não conseguia encontrá-lo em nenhum canto do salão. E então começou o cerimonial. Homenagem vai, homenagem vem, foi chegada a hora da valsa da debutante. E o que aconteceu a partir daqui acabou com a minha noite. Anunciado pela cerimonialista com toda a pompa e circunstância, desce de uma escada que dava para a pista de dança o príncipe da debutante (não lembro mais o nome, mas chamaremos de Felipe). O príncipe Felipe agora vestia um smoking e trazia um buquê de rosas vermelhas para a aniversariante, que aceitou e dançou uma valsa com o menino que até aquele momento era o MEU príncipe encantado. Meu mundo caiu e a festa deixou de ser tão divertida.

Apesar de hoje achar essa história engraçada, revisitar essa memória me fez querer entender de onde vem isso. De onde vem esse impulso que faz uma criança de dez anos olhar para o primeiro garoto bonito e mais velho que vê pela frente e decidir que ele é seu príncipe encantado? De que forma essa cultura impacta a vida das pessoas e, principalmente, das mulheres em formação? Porque eu pelo menos posso garantir que, na minha vida, esse não foi o último episódio de endeusamento de um homem que eu mal conhecia seguido por uma decepção cortante.

Por mais que eu me esforce, não consigo encontrar, pelo menos em mim, uma fonte específica para essa questão. Me parece algo tão bem formulado que se entranha na gente e nos faz acreditar que é um instinto natural. Mas será? Porque eu sempre assisti aos filmes de princesas, mas também sempre achei o Peter Pan mais legal. Eu sempre vi Sítio do Pica Pau Amarelo e gostava mais da atrevida Emília que da romântica Narizinho, mas também sempre tive uma queda pelo Pedrinho. E de onde veio isso?

Meus pais nunca me negaram um brinquedo “de menino”, mas eu tinha vergonha de pedir o lava-jato da hot wheels. E de onde vem isso? Na minha infância as leis contra publicidade infantil não eram ainda tão rígidas, mas será que é só isso? Será que é possível rastrear verdadeiramente o que faz com que mulheres (crianças, adolescentes e adultas) acabem depositando em homens a esperança de um salvamento? Essa síndrome de Branca de Neve é implantada na gente tão cedo que eu, aos 22 anos, ainda não entendo bem  que me levou ao episódio daquela noite e tantos outros dali em diante.

 

Bruna Paiva

 

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Quantos livros você leu esse ano?

 

Eu comecei 2020 tremendamente decepcionada com a quantidade de livros que li em 2019. Foram 17; muito longe dos 30 que eu tinha traçado como meta e mais ainda dos 50 que eu costumava ler no ensino médio. Decidi que queria voltar a ler mais e tracei uma meta realizável pra esse ano: 22, menos de 2 por mês. Lendo no metrô pro trabalho eu conseguiria fácil.

Aí veio a quarentena, passei a ter mais tempo pra dedicar à leitura, houve uma onda de promoções e ebooks disponibilizados gratuitamente, passei a usar mais meu kindle, que antes era usado só pra faculdade e adivinhem? Bati a meta em julho. Li 30 livros esse ano, e talvez ainda termine um ou dois até o fim de dezembro.

Mas não estou aqui pra me gabar da quantidade de livros lidos no ano. Resolvi falar disso porque percebi que eu me cobrava demais por comparar minha realidade com a de outras pessoas. Todo ano eu me frustrava por determinar uma meta aleatória e absurda, que nunca seria batida. E fazia isso porque me pautava pelos outros, ou por uma versão de mim mesma que tinha outra realidade, estava em outro momento de vida.

Pela primeira vez tracei uma meta viável de leitura, calculando a quantidade de páginas que eu realmente conseguia ler por dia e tcharam(!) deu certo. E basta ver a quantidade de livros que extrapolaram a meta para perceber que, sem a quarentena, eu provavelmente também teria conseguido.

A questão aqui é essa: você não é menos leitor que ninguém porque lê 10 ou 5 livros por ano. Ninguém precisa ler 50, 100 livros em 365 dias para ser considerado um leitor. Não se cobre tanto e, principalmente, NÃO SE COMPARE. Trace metas viáveis para a sua realidade, leia livros que TE interessam e preze mais pela qualidade do que pela quantidade de suas leituras. E, no ano que vem, volta aqui pra me contar se o sentimento de frustração não melhorou! 📚💖

 

Bruna Paiva

Ver dormir quem se ama

 

Gosto da sua vulnerabilidade diante de mim.

Aberto ao meu mundo.

Gosto de te observar enquanto dorme,

feito criança.

Me abraçando e encaixado no meu corpo.

Totalmente entregue.

 

Permissão para que eu te cuide

Que faça parte do seu íntimo.

 

Nunca imaginei que a vulnerabilidade poderia ser tão bonita.

A intimidade do amor é das coisas mais bonitas que já presenciei.

 

Bruna Paiva

 

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27 de setembro

Saí de casa pro trabalho hoje e dei de cara com dezenas de crianças na rua. Grupinhos com mochilas, mães e garrafinhas d’água caminhando meio sem rumo mas com objetivo certo: doces. A saudade da infância bateu tão forte que eu não aguentei.
Cresci e vivo até hoje no subúrbio carioca. Por aqui, 27 de setembro é lei: dia de São Cosme e Damião, dia de ir às ruas. As colegas que se mudavam sempre diziam que, na zona sul e na barra, a magia mal existia.
Cosme e Damião era o único dia em que minha mãe me deixava matar aula. Menos quando a escola marcava prova justamente no dia 27. Maldade pura, eu sempre acreditei.
Passávamos o dia inteirinho caminhando por todas as ruas do meu bairro e dos adjacentes. Todas as crianças da vila iam juntas. Era mais legal com os amigos. A gente levava mochilas e de vez em quando passava em casa pra diminuir o peso e pegar mais água. As mães às vezes revezavam o turno porque, diferente de nós, elas cansavam de andar pra lá e pra cá o dia todo. Tinha até mãe evangélica que fingia que não via e deixava o filho ir correr atrás do doce com os amigos. O bom era a bagunça.
Era o dia em que todas as crianças da região se encontravam nas ruas, independente da escola em que estudavam ou da classe social. Todo mundo lutando pelo mesmo objetivo: o tal do saquinho de doces.
O meu preferido era o de papel. Já na minha época quase extinto. Eu ganhava e já metia o olho lá dentro pra ver se tinha doce de amendoim, o que eu mais gostava e que acabava mais rápido lá em casa.
No fim do dia era hora de ganhar os doces dos vizinhos da vila (sempre os últimos porque já guardavam pras crianças de lá) e contar os saquinhos. A graça era ver; quem conseguiu mais. Eu e meu irmão sempre ganhávamos porque juntávamos os nossos (levemente trapaceiros, mas pelo menos a gente realmente dividia tudo hahah).
Com o tempo a ostentação foi diminuindo. Em parte pelas crises econômicas que dimiuíram a oferta de doces na vizinhança, mas também pela tristeza do fim da infância.
No inicio da adolescência, os dias 27 de setembro eram quando eu me vestia da maneira mais infantil que eu conseguia. Mas uma hora parou de colar (kkkk). A cada ano eu ganhava menos saquinhos. E hoje eu só tenho saudades…
Bruna Paiva
Ps: Texto escrito em 2019 e publicado em meu Facebook antes da pandemia do coronavirus. Não provoquem agolomerações!

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