O Astro que nunca vai se apagar

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Eu tinha 15 anos quando o conheci. Sempre fora um garoto tímido e não era dos mais populares na escola. Nele, enxerguei o melhor amigo que nunca tivera. Minha mãe quase me matou quando cheguei em casa com um vira-lata sujo, desnutrido e ainda por cima com uma patinha quebrada.

Tamanha foi a minha insistência que ela acabou permitindo que eu ficasse com o bichinho. A única regra era: “o cachorro é seu, quem cuida é você”. E eu acatei. Levei ao veterinário, cuidei da pata quebrada, dei banhos, remédios, comida e muito carinho. Amei-o acima de tudo.

Ele ainda era filhote. Tinha menos de um ano de vida e não lhe faltava energia. Fazia de tudo para chamar a atenção de quem quer que fosse. Sempre gostou de brilhar. Daí veio o nome. Astro era meu filho e único amigo na época da escola.

Foi motivo de incontáveis brigas entre minha mãe e eu. Roia todos os móveis e adorava subir no sofá. Era seu canto preferido do lar. Mas também um lugar terminantemente proibido pela dona da casa. A fruteira da cozinha também era seu alvo certo. Astro não podia ver um mamão por lá que em pouco tempo devorava as frutas de minha mãe. Ela brigava com ele e eu brigava com ela.

Meu tempo livre sempre foi gasto com Astro. Passeava com ele pelo bairro, saía para brincar e confidenciava a ele coisas que nunca contei para ninguém.

Por causa de Astro, descobri meu amor pela veterinária e não tive dúvidas sobre o que optar quando prestei vestibular aos 17. E passei para a universidade federal que tanto almejei. A comemoração não poderia ter sido melhor: fomos os dois, eu e Astro, para uma praia e passamos a noite por lá. Ele adorava o contato com a areia, mas sua maior diversão era correr na beira do mar.

Quando tirei minha habilitação, ele foi meu primeiro passageiro. Implicou com a minha primeira namorada. Era a garota chegar lá em casa e ele não parava de latir. Era ciumento do focinho às patas. A segunda namorada tinha uma cachorra vira-lata. E, bom, Astro não implicou tanto assim com ela.

Meu melhor amigo foi quem passou junto comigo pela barra da doença da minha mãe. Câncer aos 57 anos. Eu tinha 19, e um ano depois precisei aprender a viver sem ela. Não fosse pela companhia de Astro, talvez eu não tivesse aguentado.

Nos últimos tempos da vida de minha mãe, ela e Astro tornaram-se grandes amigos. Ele me ajudava a cuidar dela. E, quando eu não estava em casa, Astro sempre ficava por perto, como se quisesse fazê-la sentir-se segura. A beira da cama de minha mãe nunca esteve vazia.

Uma vez, eu estava na faculdade e minha mãe, debilitada, teve uma crise de tosse. Astro prontamente correu até seu cantinho da casa e arrastou com o focinho o próprio pote de água até a beira da cama. Molhou a casa inteira, mas minha mãe ficou tão emocionada que nem brigou com ele.

Passamos sérias dificuldades quando fiquei desempregado no meio da faculdade, sem ninguém para pedir ajuda. Mas Astro sempre pareceu me entender. E, quando passamos a viver só os dois, a relação conseguiu se estreitar ainda mais.

Toda vez que eu chegava em casa, ele fazia de meu retorno um acontecimento. Todos os dias, o vira-lata que já estava gigante tinha algo para me mostrar, nem que fosse apenas seus brinquedos de sempre. Queria a máxima atenção possível. Pois é, cresceu, mas continuava gostando de brilhar.

Assistíamos aos jogos de nosso querido Fluminense juntos no sofá da sala. Bom, eu no sofá e ele no chão. Foi um hábito do qual não conseguimos nos livrar. Aprendeu a respeitar as regras de mamãe em vida e mantinha o costume mesmo que ela não se fizesse mais presente.

Me formei na faculdade e trabalhei em algumas clínicas e ONGs. Mas foi quando abri minha própria clínica, em sociedade com um colega, que comecei a ganhar melhor. Astro foi nosso primeiro paciente. Comeu minhas meias e precisou de uma ajuda para se livrar delas.

A recuperação foi rápida e em poucos dias o danado já estava correndo com minhas roupas na boca novamente. Meses depois, descobri que o tal colega não era tão colega assim. Meu sócio estava roubando a clínica e precisei acabar com tudo. Desempregado, mais uma vez. Meu único estímulo de seguir em frente era o olhar compreensivo e amoroso de Astro.

Tantas vezes chorei agarrado a ele. E todos os dias quando me levantava para procurar um emprego, ele me incentivava. Íamos sobrevivendo com o pouco dinheiro que eu conseguira guardar apesar das dívidas que me sufocavam.

Houve um mês em que cortaram nossa luz pelo atraso de pagamento. Enchi a casa de velas e a cara de cerveja. Posso jurar que Astro ria junto comigo. E depois choramos abraçados. Só acordamos no dia seguinte com a casa cheia de velas derretidas e um sol invasivo que entrava pela janela.

Encontrei um emprego num abrigo de animais abandonados. E lá conheci a mulher da minha vida: Christinne. Uma colega de profissão que era incrivelmente doce e amava os animais. Quando a levei para conhecer Astro, para minha maior felicidade, eles se deram muito bem. Meu amigo aprovou minha amada.

Christinne aprendeu a amar meu amigo e Astro nutria afeto por ela também. Ao contrário da primeira garota que conheceu, para Christinne, Astro era todo e somente amores.

Eu não fiquei muito tempo no abrigo. Depois de um ano, consegui juntar dinheiro para abrir minha própria clínica. E dessa vez, sem sociedade. O nome da clínica não podia ser outro: Clínica Veterinária Astro. E meu garoto propaganda era ele, claro.

Mas já havia algum tempo  que meu amigo se mostrava bem cansado. Nos últimos meses, nem se esforçava tanto pela atenção alheia. As festas nas minhas voltas para casa não tinham mais a mesma intensidade. Seu andar, antes tão empolgado, agora estava a cada dia mais lento e arrastado. A cegueira atacara um olho e ele já não escutava tão bem.

Hoje, quando cheguei da clínica, Astro não estava nada bem. Nem andou até a porta para me receber. Deitado aos pés do sofá, só levantou o olhar. Parecia estar esperando minha chegada. E, pela exaustão em seus olhos, eu entendi perfeitamente o que ele queria dizer.

Quinze anos de amizade. Para mim, apenas uma primeira fase da vida. Mas, para ele, uma vida inteira. E por mais que eu não quisesse acreditar, sabia que chegava ao fim. Fechei a porta sem me preocupar em trancá-la. Larguei a bolsa no chão e corri ao seu encontro.

Dessa vez, me sentei no chão, junto dele. Acomodei sua cabeça em meu colo e deixei minhas lágrimas rolarem enquanto abraçava-o e acariciava-lhe o pêlo curto. Não sei ao certo quanto tempo ficamos ali, relembrando nossa amizade enquanto eu o agradecia por cada segundo que passamos juntos. E então, lentamente, as batidas de seu coração foram ficando cada vez mais fracas até deixarem de existir.

Meu Astro agora só brilha no céu.

Bruna Paiva

 

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