Meninos Perdidos

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Imagem: reprodução Carta Potiguar

 

Era só um menino. Na cintura havia um canivete. As roupas, sujas e rasgadas. Os pés estavam descalços e ele não tinha uma aparência saudável ou bonita. Mas era só um menino.

O garoto tomava banho no chafariz de uma praça. Ao lado de vários da mesma idade que ele. A pele estava quase cinza de tão encardida. Mas eles brincavam como crianças que eram. Crianças que riam de coisas simples. Crianças que tiveram a infância ferida pela desigualdade da vida.

Ao ver aqueles meninos jogando água uns nos outros e gargalhando, meu primeiro pensamento foi em meu irmão. Tem a mesma idade e a mesma alegria, porém teve a sorte de nascer numa família bem estruturada. Não precisou ser jogado nas ruas para pedir um trocado no semáforo.

Sei que esse é um dos maiores problemas do país, e sei também que a violência vinda dessas crianças é cada vez mais intimidadora. Mas, talvez por consequência de algumas leituras, como “Capitães da Areia” de Jorge Amado, eu tenha mudado minha maneira de perceber meninos de rua.  Hoje, antes de pensar “pivetes”, cenas como a descrita acima me deixam comovida e indignada.

É da natureza do adolescente ter a certeza de que pode mudar o mundo, mas acho simplesmente revoltante este ser tão injusto. Meu conto de fadas favorito sempre foi Peter Pan, e hoje, um pouco mais velha, me pego tendo alguns sentimentos característicos de Peter.

A vontade que tenho ao ver esses “meninos perdidos” é de levá-los para algum tipo de Terra do Nunca. Não para impedi-los de crescer. Mas para tentar fazê-los crescer decentemente. Mostrá-los que, se estudarem, com toda certeza conseguirão muito mais do que vagando pelas ruas. Levá-los para longe desses crimes que têm cometido, consertar o caráter deformado pela violência.

Tenho vontade de acolhê-los e dar um carinho de mãe, proporcioná-los pelo menos um pouco de tudo o que meus pais sempre me deram. Uma casa digna, uma comida gostosa, professores, bons valores, educação, conselhos, abraços nas horas certas… Deixar no passado o canivete, a fome e os trapos rasgados. Mostrá-los um mundo diferente. Levá-los ao cinema, ao teatro. Tirá-los desse universo triste e sujo no qual vivem. E principalmente dar-lhes amor.

Sempre tive vontade de parar para conversar com algum desses meninos. Mas confesso que, apesar da minha revolta e vontade de ajudar, tenho medo. Medo do que uma criança abandonada pela sociedade pode fazer quando alguém tenta se aproximar. Medo por causa dos crescentes casos de violência vindos desses mesmos meninos. Não queria sentir todo esse medo, são apenas meninos, mas, nos tempos que vivemos, é difícil não ficar com o pé atrás.

Por hora, aos meus 17 anos, ainda não tenho meios financeiros, psicológicos ou estruturais de fazer nada por eles. Mas as lágrimas se acumulam em meus olhos cada vez que um cruza meu caminho.

Bruna Paiva

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