O preço de um vacilo

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Uma vez eu perdi um amigo. Amigo de verdade, que estava sempre lá para mim, que dava os conselhos certos nos momentos em que eu mais precisava. Que me conhecia e sabia dizer se eu estava bem ou não pela forma com que eu dizia “oi”, e conversava comigo por horas. Era um amigo daqueles que a gente deve valorizar, dos que queremos ao nosso lado para sempre.

Mas eu vacilei. Feio. Agi feito criança e minha infantilidade me fez acreditar que estava certa. Fui boba, vi coisa onde não tinha e ignorei o que realmente estava ali. Fiz besteira e só percebi quase um ano depois. Precisei de onze meses para reconhecer o meu erro e perceber o quão imatura havia sido.

Chorei sozinha e me puni mentalmente por cada segredo revelado, por cada birra sem sentido. E foi a namorada dele, que tinha tudo para me virar as costas, quem me incentivou a chamá-lo para conversar. Eu pensei, mil vezes, ponderei e juntei cada pedacinho de coragem dentro de mim até deixar a vergonha de lado e ligar para o número que eu ainda sabia de cabeça.

Pedi desculpas por cada burrada, expus minhas mágoas e meus arrependimentos. Falei o quanto sentia sua falta e como reconhecia que havia sido infantil.  Para a minha surpresa, ele foi incrível comigo, mesmo depois das coisas que falei e inventei sobre ele. Conversamos e ele me contou tudo o que o havia machucado. Falou que se arrependia por não ter me chamado para conversar antes, afinal, ele era mais velho, mais maduro. Ainda disse que, pela primeira vez em meses, conseguia reconhecer a pessoa que eu sempre fui. E o mais importante, me perdoou.

No dia seguinte nos encontramos. Dei-lhe um abraço apertado e demorado. Chorei com a cabeça em seu ombro e pedi desculpas mais umas quinhentas vezes. O que ouvi em resposta foi um “que saudade do seu abraço”.  Conversamos mais um pouco naquele dia e seguimos nossas vidas.

Eu podia ter evitado tudo o que aconteceu sendo mais madura, sendo mais eu mesma. Mas, aos 14 anos a gente quer provar para o mundo que somos donos da verdade, apesar de, no fundo, sermos extremamente inseguros. Podia ter demorado menos para reconhecer que errei. Mas aqueles onze meses foram o tempo que eu precisei para crescer um pouco. Naquele tempo, aconteceram tantas coisas que a maturidade chegou mostrando tudo que estava errado.

Eu recuperei a simpatia e o afeto daquele amigo, o carinho por tudo o que vivemos. Mas a nossa amizade nunca mais foi a mesma. Nem perto disso. E eu não julgo. Seria estranho começar do zero e mais ainda voltar a ser como éramos, simplesmente ignorando o hiato que causei. Gostaria que tivéssemos conseguido, mas não deu. A gente ainda se encontra por acaso, vez ou outra, nos abraçamos e perguntamos como vai a vida. Mas é só. As conversas extensas sobre qualquer assunto, as mensagens de texto quase diárias e as confissões nunca voltaram.

Sinto falta dessa amizade até hoje. Pra caramba mesmo. E, se eu pudesse voltar no tempo, talvez fizesse tudo diferente. Sei que foi um dos preços que eu tive que pagar para crescer, amadurecer e aprender algumas das lições mais importantes da minha vida. Infelizmente, das mais caras também.

Bruna Paiva

 

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