Como você imagina uma cadeia?

Na primeira vez que eu entrei numa cadeia, como voluntária num projeto da faculdade, eu estava com medo. Na realidade, eu estava apavorada. Não tinha a menor noção do que encontraria por lá. O mais próximo que eu havia tido de um contato com o mundo carcerário era o livro do Dráusio Varella. De resto, só o que se vê na televisão. Minha mãe, em casa, me mandava uma mensagem a cada cinco minutos perguntando se estava tudo bem, e quase enlouqueceu quando entrei na área sem serviço de celular.

Lembro de ter rezado antes de entrar. E também lembro de ter me prometido não julgar ninguém. Vesti minha melhor pose de mulher marrenta e segura de si, que foi quebrada logo na triagem da entrada quando o agente me perguntou se eu portava alguma arma. Eu estava verdadeiramente aterrorizada quando entrei naquele lugar. E, talvez por isso, o que me foi mais estranho no primeiro momento foi o cheiro de alvejante vindo do chão. O lugar era limpo. O segundo choque veio quando as presas chegaram à sala. Era gente. Gente normal, igual a mim, igual a você.

Mulheres com a idade da minha mãe, outras com a idade da minha avó e outras, as que mais me chocaram, pareciam mais novas que eu. Em determinado momento, comecei a olhar para o chão porque não conseguia evitar que meus olhos se fixassem no rosto de cada uma, imaginando a história por trás daquele uniforme.

Comecei a escrever esse texto porque tive um sonho estranho essa noite. Eu matava uma pessoa, por uma série de motivos, mas me arrependia no segundo seguinte. E então eu ia presa. Mas nossa cabeça é tão louca que a parte mais perturbadora era ver todos os meus sonhos indo para o ralo. Eu ligava para trancar a faculdade, morta de vergonha. Via todos os meus planos se desfazerem e chorava desesperada.

É engraçado como se tem a visão de que a cadeia é a escória da sociedade. A gente joga o problema lá e tenta esquecer que ele existe. Mas quando você entra num lugar como esse, a realidade se joga bem na sua cara. Ninguém está livre de acabar ali. Não tem nada a ver com cor, sexualidade ou classe social. Inclusive, na mesma semana da minha primeira visita à penitenciária, na unidade vizinha, o queridíssimo ex-governador da minha cidade havia acabado de chegar. Qualquer um pode cometer um ou mais erros e acabar ali dentro.

E sentir esse desprezo, aliado à falta de perspectiva, na pele, ainda que só por m truque do subconsciente, foi desesperador.

O que eu quero dizer é que a cadeia não devia ser o tapete para onde varremos tudo o que não queremos mais. Cadeia é lugar de gente. Gente que se desviou do que é certo, gente que perdeu a cabeça, gente mau caráter e gente boa também. Gente que foi bem educada, gente que não teve oportunidade, gente que matou a mãe, o filho, gente que roubou por que tinha fome, gente que roubou porque quis mesmo. Tem gente de todo tipo, mas, ainda assim, são seres humanos, tão humanos quanto a gente aqui fora. E deviam ser tratados como tal…

 

Bruna Paiva

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