A fonte dos desejos

 

Liana segurou a moedinha entre os dedos, pressionando com força a pele contra o metal. Talvez dessa forma sua energia fosse telepaticamente depositada nos cinquenta centavos recém tirados da carteira. A mulher apertava os olhos e franzia a testa na mesma intensidade com que estrangulava a moeda nos dedos.

 

Há duas décadas e meia era assim. Ao fim da primeira semana de janeiro, Liana ia até o centro da cidade, na Praça das Garças fazer um pedido para o ano que começava.  Um hábito que herdou da avó Jurema que a levava até aquela fonte desde a infância. Dizia a avó que o imponente chafariz localizado no meio da praça era uma fonte dos desejos. Tudo o que se pedia para a fonte era realizado ao longo do ano, desde que se deixasse uma moeda como pagamento.

 

A pequena Liana sempre apertou os olhinhos, e os dedos em volta da moedinha cedida pela avó materna antes de jogar o dinheiro na fonte e fazer um pedido. Vó Jurema já se fora há cinco anos, mas Liana seguia mantendo a superstição que lhe fora ensinada. É verdade que os desejos não se realizavam tanto quanto na infância. Mas Liana voltava, todos os anos, adaptando os pedidos, na esperança de que dessa vez funcionaria. E lá estava, em mais uma tentativa.

 

Virou de costas para a fonte no centro da praça, prendeu a respiração, beijou a moeda e antes de jogá-la para trás disse baixinho para que só ela mesma, a moedinha e a fonte pudessem ouvir: “eu quero ser feliz”.

 

Mal Liana abriu os olhos, antes que pudesse se virar de volta para a fonte, foi surpreendida com algo duro que lhe atingira na cabeça e um barulho de metal batendo no chão. Olhou para baixo e deparou-se com uma gorda moeda de cinquenta centavos, tal qual a que acabara de jogar no chafariz.

 

Liana olhou em volta procurando quem poderia ser o autor daquela gracinha. Entretanto, estava sozinha na praça. A mulher abaixou e apanhou a moeda, que estava úmida e gelada. Olhou em volta mais uma vez e  para a moedinha em sua mão. Questionando a própria sanidade, Liana repetiu o processo. Apertou a moeda entre os dedos, fechou os olhos com força, sussurrou seu desejo e jogou o dinheiro na fonte.

 

Dessa vez o reflexo foi ainda mais rápido e além da moeda, Liana recebeu um jato d’água na cabeça.

 

– Quem está aí? – Liana perguntou apanhando o dinheiro e olhando em volta apreensiva.

 

– Não há ninguém além de nós, Liana.  – A voz grave veio da direção da fonte. Liana deu um pulo ao ouvir a resposta.

 

– N-Nós quem?

 

– Você e eu.

 

– E quem é você ?- Liana lançou a pergunta no ar ainda sem entender o que se passava.

 

– Mas você vem aqui há tantos anos e não sabe quem sou? Eu sou a fonte dos desejos, ora!

 

–  A fonte? A fonte está falando comigo? Como isso é possível?

 

– E você não fala comigo todo ano? Vem aqui, feito uma pateta, quase entorta as moedas de tanta força que faz nas coitadas e me dá de presente depois de pedir alguma coisa…

 

– Mas eu achei que… Os desejos nem se realizam, então eu pensei que…

 

– É você pensou, você achou… Eu sei. Pois é por isso mesmo que seus desejos não se realizam. 

 

– Como assim?

 

– Se não acredita em mim, por que todo ano insiste em vir aqui me pedir as coisas mais absurdas?

 

– Ei! Eu te pago por cada pedido!

 

– E daí? Você me pede coisas estapafúrdias, volta pra casa e senta no sofá esperando que eu faça suas vontades caírem do céu.

 

– Você é uma fonte dos desejos, ora!

 

– Uma fonte dos desejos, muito bem. Não uma fonte dos milagres! Eu não dou nada de mão beijada a ninguém. A ninguém, minha filha! Tudo o que eu faço é dar uma forcinha  aos acasos para que as coisas se realizem. Mas sem força de vontade? Pois, me economize!

 

– A senhora está me ofendendo!

 

– Minha querida, não adianta você vir aqui, me jogar um dinheirinho, dizer que quer casar e não procurar nem um namorado. Você achou o quê? Que eu mandaria o homem dos sonhos bater na sua porta num dia de chuva?!

 

  Esse foi meu desejo de dois anos atrás! E eu não consegui nem um namorado!

 

– Claro que não! Você nem mesmo se esforçou para dar uma chance a nenhum dos homens que se interessaram por você. Ou para procurar alguém que te interessasse.

 

– Mas a minha avó sempre disse que os desejos dela eram atendidos…

 

– Sua avó foi uma das minhas clientes mais fiéis. Mas ela nunca deixou de correr atrás do que queria esperando que eu resolvesse seus problemas. Qual foi mesmo seu pedido do ano passado? “Eu quero ser rica”. O que você fez de diferente para que isso acontecesse? Nenhuma fonte de renda extra, nenhum corte de gastos…. Desse jeito, realmente, fica difícil te ajudar…

 

– Mas esse ano  eu não pedi nada material e você me devolveu a moeda. De uma forma bem mal educada, diga-se de passagem.

 

– Ser feliz… Nós duas sabemos que isso eu não posso te dar… Você não sabe ser grata por aquilo que possui. Não se esforça nem um pouco para mudar o que te incomoda na sua vida. Em vez de aproveitar os momentos e pensar em soluções, vive reclamando e criando obstáculos para tudo. Eu te conheço o suficiente para saber que não quero perder meu tempo contigo este ano! Pode levar sua moeda. Tenho muitos clientes que merecem minha intervenção no destino, mas você, Liana, enquanto não mudar esse seu jeito acomodado, não faz mais parte dessa lista…

 

Bruna Paiva

 

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