O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

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