À moda brasileira

Você já se submeteu a tortura, digo, depilação íntima? Não me refiro a qualquer um dos métodos existentes para este fim, mas especificamente aquele que, inclusive, ao redor do mundo, é conhecido como “à moda brasileira” e utiliza a famosa cera quente como meio para se chegar ao fim desejado. 

Comecei a me depilar com cera quente aos 16 anos depois de muito minha mãe perguntar se eu tinha certeza daquela decisão. Ela nunca havia se submetido a tal procedimento, mas me acompanhou na primeira vez. Você pode dizer que eu era muito nova e que só estava cedendo aos padrões machistas da sociedade. E, provavelmente, era exatamente isso que eu estava fazendo, mas acabei me adaptando a essa rotina e sigo com ela até hoje.  

 Se você tem o costume de se depilar assim, sabe que existem dois tipos de estabelecimentos mais convencionais para o feito, os salões com esteticistas de bairro e as grandes franquias de empresas especializadas. Geralmente, a primeira opção é um pouco mais barata que a segunda, mas a faixa de preço varia muito de acordo com a profissional. A questão é que, de fato, são experiências bem distintas (que nem sempre justificam as diferenças de preço). 

Nas grandes franquias, o atendimento é muito mais frio e impessoal, o que pode ser extremamente constrangedor e desconfortável se levarmos em conta que, bom, a profissional não te olha nos olhos, mas tem livre acesso a uma parte de seu corpo cuja visitação é bastante restrita. Você chega, diz o que quer (de acordo com a tabela do lugar que nem sempre corresponde à forma como você conhece a parte do corpo que quer depilar), e recebe o kit de produtos descartáveis que talvez seja a melhor coisa dessas franquias, já que a esteticista abre o pacote com os instrumentos na sua frente e joga tudo no lixo assim que acaba o atendimento, você tem certeza da higiene do que é usado em você. Mas a parte boa para por aí.

 A sessão de tortura nesses lugares é muito mais desesperadora. As esteticistas provavelmente ganham pelo número de clientes que atendem e, seguindo a lógica capitalista, precisam te atender rápido para passarem para a próxima cliente e, assim, garantir uma média diária que compense no salário. Entretanto, essa lógica que já não é boa em outros contextos se torna ainda mais maquiavélica numa sala de depilação. Você é deixada na salinha para tirar a roupa e se preparar (psicologicamente) para a sessão. O tempo que a depiladora demora a voltar se justifica porque ela precisa descer uma escadinha até o inferno, onde fica a panela com a cera derretida. 

Quando ela finalmente chega, raramente se apresenta, apenas confirma o serviço a ser realizado e então começa. Ela liga um pequeno ventilador, virado para você, e, sem o menor aviso prévio, começa a te melar com a cera advinda das profundezas da casa de Satã. Quando a pele começa a se acostumar com a temperatura, graças ao bendito ventilador, ela, mais uma vez, com todo o ódio de seu coração, puxa aquela cera endurecida arrancando, junto com os pelos, uma parte de sua alma. 

 Não satisfeita, ela volta com a espátula cheia de cera para o mesmo lugar que acabou de ser maltratado. A cera, que já parecia baba do demônio, agora parece veneno escorrido das presas de um capiroto faminto. A sua pele reclama, você tenta respirar, mas antes que o ar seja completamente expulso dos pulmões, mais um pedaço de sua alma é arrancado, sem piedade. 

Nos salões de bairro, o atendimento é um pouco mais personalizado. Você marca horário pelo Whatsapp, a depiladora te conhece, nem que seja de vista. A cera, normalmente, é menos quente, apesar de o sofrimento ser bem parecido. Mas não se engane, a experiência pode ser tão bizarra quanto a das franquias, ou mais. Uma vez me depilei com a neta, de quatro anos, da esteticista assistindo galinha pintadinha e correndo dentro da saleta minúscula. Enquanto eu sofria, Mariana contava três, Mariana contava três, é um, é dois, é três! Desesperador.

A parte de se vestir, ao final da sessão de tortura, é a mais triste, pois qualquer que seja o estabelecimento, tenha você tirado a calcinha antes do procedimento ou amarrado a dita cuja com fita, é terrível lidar com o tecido tocando a pele recém torturada, digo, depilada. Tirar essa calcinha, ao chegar em casa, traz uma espécie de desespero, já que sempre vai haver alguma sobra de cera que grudou sua pele no tecido. O banho quente e repouso são a merecida recompensa. Mostrar o feito para o boy (ou girl) no mesmo dia, só se for que nem a Kelly Key “só olhar, baba, baby”.  

 

A realidade é que, a cada vez que me deito naquela maca, passo pelo mesmo processo de autorreflexão: me pergunto por que é que sigo me submetendo a tamanho sofrimento depois de tanto tempo e, em meio à vontade de chorar, me prometo que nunca mais passarei por isso. Mas sabe aquela coisa de que a mulher esquece das dores do parto antes de ter o segundo filho? Nunca pari, mas tenho certeza de que algo parecido acontece em relação à depilação. A verdade é que eu odeio pelos, o sonho da minha vida é a tal da depilação à laser que custa um rim inteiro. Seja lá onde estiverem, os pelos me incomodam e me estressam tanto que, ao início de cada mês mês, volto eu para aquela sala de tortura, descumprindo a promessa do mês anterior para logo sair linda e bela, refazendo a mesma promessa falsa de sempre.    

 

Bruna Paiva

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