Resenha: Tudo é Rio, uma correnteza que me levou com tudo

Eu amo quando um livro me prende do início ao fim. Quando já na primeira página eu sou completamente capturada por aquela narrativa. Dá vontade de sentar que nem criança ansiosa e ficar ouvindo tudo o que aqueles personagens têm para me oferecer.

Foi exatamente isso que aconteceu quando eu li “Tudo é Rio” da Carla Madeira, esse livro que é um dos queridinhos nacionais de 2022. Uma pessoa me indicou quando eu abri caixinha de perguntas no Instagram e depois eu vi a Pam Gonçalves falando sobre o quanto ela tinha amado o livro. Resolvi comprar e QUE LIVRÃO! Já é um dos meus favoritos do ano com toda a certeza. E já na primeira página ele me conquistou com essa citação:

“Quer vida mais fácil que a minha, uma puta que gosta de dar? Para toda a cidade isso era uma provocação sem tamanho, qualquer pessoa de bem tolera as putas, com a condição de sentir pena delas. Lucy, dona demais de si mesma, privava as mulheres de família do exercício da compaixão”

“Tudo é Rio” é uma narrativa que se passa numa cidade pequena, em algum lugar de um passado não muito distante, mas que não é definido no livro. Me lembrou a aura de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, que passa lá pelos anos 40, 50…

O livro traz 3 personagens principais. A Lucy, a puta mais famosa e mais disputada da cidade, é a primeira que a gente conhece. E é ela também que nos apresenta os outros dois protagonistas: o Venâncio e a Dalva, um casal que teve a vida perfeita arruinada por uma tragédia causada pelo ciúme de Venâncio.

Esse casal vive uma vida medíocre, de muito sofrimento e de um amor esquisito, que nem eles nem a sociedade consegue explicar. O sossego daquela vida conformada é rompido quando Lucy decide que quer Venâncio para si. A partir desse triângulo amoroso, a gente passa a se aprofundar no passado de todos os personagens e entender o que levou cada um até aquele ponto da narrativa.

A leitura de “Tudo é rio” realmente flui como as águas de um rio caudaloso. É uma narrativa que dá vontade de ler de novo e de novo e de novo. A maneira como a Carla Madeiro conduz a gente pela história é muito bonita. É surreal o tanto que essa mulher escreve bem. É sem dúvidas uma obra-prima. É gostoso de ler, de apreciar a construção da língua e da história ao mesmo tempo. É um primor narrativo que eu vi poucas vezes. Um dos livros mais bonitos que eu já li, sem exagero. Meu kindle está cheio de destaques e anotações.

A única coisa que me incomodou é que, no meio da minha pressa por engolir aquele livro, em alguns momentos, as entradas excessivas no passado de alguns personagens, que não eram centrais, quebravam um pouco o ritmo da história. É claro que tudo no livro tinha um propósito, inclusive as quebras e os momentos em que a história ficava um pouco mais arrastada. Mas eu sentia vontade de que a narrativa voltasse logo para a problemática central da trama…

Outra coisa que pode incomodar porque é bem controversa é o final, que eu não vou contar por razões óbvias. Mas eu sei que vai ter gente que vai problematizar e dizer que a autora está romantizando relações abusivas… Não acho que seja uma romantização porque em momento nenhum no livro acredita-se que aquela situação é aceitável. A questão problemática é um incômodo durante todo o livro, tanto para o leitor quanto para os personagens. E, pra mim, isso não é romantização. Acredito que o ponto do livro vai muito além disso, é muito mais complexo do que esse preto no branco e eu sei que muitas vezes a gente ignora essa zona cinza que é muito mais presente no mundo e nas relações das pessoas.

Nenhum desses pontos atrapalhou tanto minha experiência de leitura, que foi sensacional. É um livro que eu já estou indicando para todo mundo que eu posso. Para maiores de 18 anos, é claro, porque sim é um livro pesado, explícito e que não cabe para um público adolescente, por exemplo.

Então, se você é maior de idade e gosta de um bom drama cheio de reviravoltas e, por que não, fofocas de cidade pequena, “Tudo é Rio” é um prato cheio para você se deliciar!

Bruna Paiva

Um pensamento sobre “Resenha: Tudo é Rio, uma correnteza que me levou com tudo

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