O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

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Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

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Era isso, então?

 

A mente anestesiada 

não se ocupa além da tormenta. 

Dor demais não dá poema.

Era isso então?

Trago fundo toda a passividade 

do que não virou palavra

porque não se tem tempo pra isso.

Sou mulher e

Talvez adolescências já não caibam.

Cabeça atormentada

O rosto indiferente

Vivendo por inércia sem espaço para ser. 

 

Bruna Paiva

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Cinematógrafo

As letras no livro em minhas mãos desfocam até virarem um borrão dentro das margens. É a terceira vez que tento ler esse parágrafo e, novamente, as palavras perfiladas não me dizem nada. Minha mente vagueia por outros assuntos. A imagem que eu nunca vi se instala no meu cinematógrafo interno.

Crio, recrio, rememoro, regurgito e a ânsia de vômito me sobe até a garganta enquanto seu corpo é tocado por ela. As cenas mais diversas vêm e vão, e ao mesmo tempo em que alimento cada uma delas, eu só queria esfregar meu cérebro com água sanitária, como um assassino faz com o chão sujo de sangue.

Imagino sua boca, escorregando pelas curvas dela como faz com as minhas. As mãos quentes sendo usadas para arrepiar a pele que não me pertence. A intimidade, o carinho, o desejo. Te imagino deitado puxando o corpo dela para perto. Enfiando sua mão pelos cabelos dela e brincando distraído. Será que olharia para ela do mesmo jeito que olha pra mim?

Que sentido faz esse tipo de questionamento? É certo que nenhum. Da mesma forma que criar essa realidade na cabeça só serve para me desestabilizar. Ainda assim, é inevitável imaginar que no passado você foi dela.Porque de fato o foi.

Tento retornar para a história que alguém escreveu e agora se encontra em minhas mãos. Mas a que eu crio sobre vocês, na cabeça, é daquelas que aprisiona o espectador. É como me sinto, obcecada por uma versão sua que desconheço, mas invento. Uma versão sobre a qual não tenho o menor controle, apesar de minha criação.

Aperto os olhos com força e, apesar de saber exatamente por que esses devaneios apareceram, percebo, enquanto uma lágrima escorre, que não será tão fácil me livrar deles.

 

Bruna Paiva

 

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Sol

Esbarro nos teus olhos, sem querer.
Esse reduto de hipnose que me arranca do tempo presente.
Viajo para a sua dimensão, onde você faz de mim o Sol.
Da sua e da minha vida.
Não é injusto?
Doar-se para alguém que te ilumina somente sob a condição de que lhe gire ao entorno?
Caso se esgotem as rotações,
você desmonta.
Mas eu…
Eu continuo brilhando.

Bruna Paiva

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Escritores Anônimos em bloqueio criativo

O salão é maior do que o necessário, mas o ambiente é agradável. Sentamos numa roda de
cadeiras plásticas e todos se olham nos olhos. Alguns trazem bloquinhos e caneta, outros se
renderam à tecnologia. Uma parte parece animada. A outra, abatida pelos truques da própria
mente.
— Eu sou D. M. Ramalho e há 27 dias eu não consigo passar nada para o papel.
— Meu nome é Beatriz Coelho e eu estou há 301 dias sem conseguir escrever sobre o amor.
— Meu nome é Mauro Toledo e faz 94 dias que eu deixei de ser poeta.
— Por vontade própria? — Pergunta o mediador.
—Por bloqueio. —Mauro responde. — Não sai nada.— O círculo se encara, tenso. Uma gota
de suor escorre pelo rosto de Maria.
— Isso não quer dizer que você deixou de ser poeta. Todo bom escritor passa por isso. — A
tensão se afrouxa levemente até que alguém diga:
— Eu li sobre uma escritora que teve um bloqueio de 50 anos.
— Eu conheço um que ficou 10. — o autor ao lado se manifesta.
— Imagina, 50 anos sem escrever? — um desesperado se se altera, no extremo oposto do
círculo.
—Eu vou morrer de fome… — Maria choraminga na cadeira, entortando a coluna.
O burburinho começa. 50 anos sem escrever. É possível passar 50 anos sem que a mente faça
aquilo que ela decidiu que queria fazer para o resto da vida? 50 anos falhando em algo antes
tão simples.
—Vocês já tentaram escrever sobre isso? — Alguém levanta a voz em meio às conversas
paralelas.
— Sobre não conseguir escrever? — Mauro se interessa. Como não pensara nisso antes? O
bloqueio era tão forte que nem mesmo a solução mais fácil lhe passava pela cabeça.
— O último dos recursos. — Um impressionado profetiza.
—Eu tenho 7 textos sobre isso. Todos uma merda. — Lopes cruza as pernas.
— Sabe o meu maior problema? — Valéria toma a palavra. — Não é a questão do não
conseguir escrever. Eu escrevo — Ela folheia o caderno, cheio de anotações. — Mas eu não
acho nada bom. Já achei um dia. Mas, hoje, tudo que eu passo para o papel me parece
imaturo, pobre, indigno da leitura de qualquer um.

—Por que não traz aqui para lermos?
Valéria os encara, muda. Tem vergonha. De uma hora para outra, passou a se sentir exposta
pelo que escreve. A dar importância maior ao que é possível que o outro fosse pensar sobre
ela, caso lesse seus escritos. E, por isso, aprisionou cada um deles naquele pequeno caderno
em que não era capaz de terminar nenhuma linha iniciada.
— Melhor não. — Ela olha para chão.
— Vocês sabem que ao fim de cada reunião eu trago um prompt. — O mediador volta a falar.
—Eu nunca entendi essa palavra. — Alguém murmura.
—Eu também não. — Um sussurro responde.
O mediador faz uma careta. É complicado lidar com um coletivo de egos frustrados.
— Uma sugestão, dears. Um tema para instigar vocês a voltarem a escrever. É esse o objetivo
maior de nossa troca. Que um incentive o outro a partir de sua própria experiência.
— Eu não me sinto incentivado por um monte de gente que não consegue mais escrever. —
Fabrício debocha e logo recebe olhares revoltados.
— O que faz aqui então? — Alguém grita.
—Se é tão superior porque não senta e escreve? —Outro revoltado se altera e então começa o
burburinho.
— O prompt de hoje é Desejo e Dilema! — O mediador sobe o tom, mas dessa vez a discussão
não cessa.
E voltamos ao caos que encerra cada reunião. Afinal, é ele o que de fato motiva cada um que
volta, a cada quinta-feira, na vã esperança de que esse encontro magicamente o faça voltar a
saber escrever.

Bruna Paiva

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P.S. no escuro

Seus olhos no escuro

vidrados em mim.

O momento em que tive certeza

(E volto a ter)

A pupila dilatada

Sorriso ensaiado

encostando no meu.

 

Seus olhos castanhos no escuro

Me encarando com encanto

Num tempo que nem existe.

Toque quente que arrepia

Boca feita pro encaixe perfeito

Dizendo tudo

que eu sempre quis ouvir.

 

Seus olhos castanhos

No escuro

Das primeiras imagens

que eu gravei pra sempre

Com o encantamento

de conhecer o novo

E querer novamente

Cada apagar de luzes

 

Bruna Paiva

 

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MINHA PRIMEIRA FLIPOÇOS!

Olá, pessoal!

Andei sumida daqui por uns tempos mas foi por uma boa causa! Na última semana estive participando da Feira Internacional do Livro de Poços De Caldas, a FLIPOÇOS. Quem me acompanha nas redes sociais ficou sabendo de tudo que aconteceu por lá. Mas é claro que eu não ia deixar vocês de fora por aqui.

 

Eu e meu pai, o escritor JM Costa, fomos numa peregrinação de 9 horas de viagem de carro para Poços de Caldas. Foi cansativo mas chegamos bem para deixar tudo pronto no estande que dividimos com o Coletivo Ler. Éramos 6 autores independentes do Rio de Janeiro levando nossas histórias para os leitores Poços-Caldenses.

 

Os nove dias de feira foram ótimos, apesar do cansaço que até agora não sumiu completamente do corpo (kkk). Conheci muita gente linda, tive leitoras vindas do Wattpad procurando por mim, apresentei meu livro para o pessoal mineiro e me diverti demais. Que experiência incrível! Até entrevista eu dei! Clique aqui para conferir a matéria que o G1 fez comigo sobre literatura infanto-juvenil.

 

As fotos com todos os leitores e colegas de feira que conheci lá em Poços já estão disponíveis no Facebook do Blog e você pode ver clicando aqui! Obrigada a todos que fizeram parte dessa minha primeira experiência numa grande feira. Espero encontrá-los novamente ❤

 

Beijos,

Bruna Paiva

 

Cinco minutos

— Vai logo, Michele!

— Calma. Pega meu celular aqui.

— Gente, qual a dificuldade de mijar num palitinho?

 

Michele respirou fundo e não respondeu a irmã mais velha da forma como gostaria. Não bastava o estresse emocional de precisar passar por aquela situação num banheiro público. Agora, graças a Rayane, também precisaria lidar com o fato de todas as mulheres no banheiro mais frequentado do maior shopping da cidade saberem de sua incerteza. E se alguma conhecida de sua mãe aparecesse?

 

Pediu que a irmã pegasse o celular porque o aparelho não parava de apitar com as mensagens de Jean. É claro que o menino devia estar tão nervoso quanto ela, mas não ajudava nem um pouco perguntando sobre o teste a cada quinze segundos. Querendo ou não, aquele era um momento só dela, por mais assustador que fosse.

 

— Rayane, cala a boca. Por favor! — Pediu com a voz embargada e a irmã se aquietou.

 

Respirou três vezes, encarando a caixinha que comprara na farmácia do shopping, mesmo. Abriu a embalagem e leu as instruções. Um tracinho, negativo. Dois tracinhos, positivo. Se der positivo, pode ser falso, precisa fazer outra na semana que vem. E se o negativo for falso? A probabilidade de acerto do teste é de 99,99%. E se ela fosse o 0,01%? Dezessete anos atrás, sua mãe fez um teste que teve resultado negativo e, ainda assim, Michele nasceu.

 

Pegou o instrumento. Parecia um termômetro. A diferença era que o resultado no mostrador não podia ser resolvido com dipirona. Michele abaixou a calcinha, segurou a saia e posicionou o palitinho no lugar estratégico. A mão tremia e a respiração faltava. Fechou os olhos embaçados e fez o que devia ser feito. Fechou a tampa e esperou.

 

Pensou em sair da cabine e esperar o resultado com a irmã. Mas a cabeça rodava demais para isso. Era preciso estar consigo mesma. Sentou-se no vaso, com a tábua abaixada e pôs a cabeça no joelho. Seriam os cinco minutos mais longos de toda sua vida.

 

Pensou em Jean, no início do namoro no oitavo ano, duas crianças que se apaixonaram com a convivência diária. Lembrou de quando iam ao cinema, levados pelos pais, e quando matavam aula escondidos para ficarem juntos. Lembrou de cada virada de ano que faziam questão de passar juntos, desde o início do namoro. Lembrou de quando contou que a menstruação tinha atrasado uma semana, de como, mesmo com o olhar apavorado, ele disse que apoiaria qualquer decisão que ela tomasse.

 

Mas Michele não queria ter que decidir nada. Era uma decisão grande demais. E as duas opções existentes eram tenebrosas. Ter um filho aos dezessete anos, sem o Ensino Médio completo e nenhuma perspectiva de futuro nem condição de criar a criança era tudo o que ela não queria. Submeter-se a uma clínica clandestina, pagando um dinheiro que nem sua família, nem a de Jean tinham, e ainda correr o risco de morrer no processo, também parecia um filme de terror.

 

Conseguia imaginar os piores cenários possíveis para ilustrar a reação de sua mãe ao descobrir. Em todos, a cara de decepção era a mesma. Como levar essa notícia para a família? Tanto a dela quanto a de Jean ficariam desesperadas…

 

E as mudanças em seu próprio corpo? Absolutamente tudo que conhecia em si mesma mudaria. Aquela transformação é tão radical e bruta para o corpo da mulher que ela ainda nem era… Já suava frio de pensar na hora do parto e de toda a dor que com certeza sentiria. Michele não queria passar por nada daquilo.

 

Era aterrorizante a perspectiva de ter que lidar com as consequências de algo que ela sabia que era culpa sua. Sua e de Jean. Os dois foram irresponsáveis, priorizaram um momento em vez de pensar racionalmente. E, agora, os dois seriam obrigados a encarar tudo o que aquela decisão acarretava.  

 

Como terminariam os estudos? Como ela faria a faculdade de odontologia com que sonhava? Como conseguiria realizar os sonhos de fazer um intercâmbio, um mochilão e conhecer o mundo? De que forma seguiria com os planos traçados para a própria vida, sendo atropelada por uma responsabilidade tão grande?

 

— Irmã, tudo bem aí? — Rayane bateu à porta.

 

Michele tinha uma lágrima escorrendo pela face quando olhou o relógio no pulso. 5 minutos cravados. Virou o mostrador, e apertou os olhos e a boca quando viu o resultado.  Apoiou a cabeça nos joelhos novamente e se permitiu chorar. Do lado de fora, Rayane ouviu a irmã e levou a mão ao rosto, sabia o motivo do pranto de Michele.

 

Dois tracinhos. Grávida. Nada estava bem.

 

Bruna Paiva

 

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A fonte dos desejos

 

Liana segurou a moedinha entre os dedos, pressionando com força a pele contra o metal. Talvez dessa forma sua energia fosse telepaticamente depositada nos cinquenta centavos recém tirados da carteira. A mulher apertava os olhos e franzia a testa na mesma intensidade com que estrangulava a moeda nos dedos.

 

Há duas décadas e meia era assim. Ao fim da primeira semana de janeiro, Liana ia até o centro da cidade, na Praça das Garças fazer um pedido para o ano que começava.  Um hábito que herdou da avó Jurema que a levava até aquela fonte desde a infância. Dizia a avó que o imponente chafariz localizado no meio da praça era uma fonte dos desejos. Tudo o que se pedia para a fonte era realizado ao longo do ano, desde que se deixasse uma moeda como pagamento.

 

A pequena Liana sempre apertou os olhinhos, e os dedos em volta da moedinha cedida pela avó materna antes de jogar o dinheiro na fonte e fazer um pedido. Vó Jurema já se fora há cinco anos, mas Liana seguia mantendo a superstição que lhe fora ensinada. É verdade que os desejos não se realizavam tanto quanto na infância. Mas Liana voltava, todos os anos, adaptando os pedidos, na esperança de que dessa vez funcionaria. E lá estava, em mais uma tentativa.

 

Virou de costas para a fonte no centro da praça, prendeu a respiração, beijou a moeda e antes de jogá-la para trás disse baixinho para que só ela mesma, a moedinha e a fonte pudessem ouvir: “eu quero ser feliz”.

 

Mal Liana abriu os olhos, antes que pudesse se virar de volta para a fonte, foi surpreendida com algo duro que lhe atingira na cabeça e um barulho de metal batendo no chão. Olhou para baixo e deparou-se com uma gorda moeda de cinquenta centavos, tal qual a que acabara de jogar no chafariz.

 

Liana olhou em volta procurando quem poderia ser o autor daquela gracinha. Entretanto, estava sozinha na praça. A mulher abaixou e apanhou a moeda, que estava úmida e gelada. Olhou em volta mais uma vez e  para a moedinha em sua mão. Questionando a própria sanidade, Liana repetiu o processo. Apertou a moeda entre os dedos, fechou os olhos com força, sussurrou seu desejo e jogou o dinheiro na fonte.

 

Dessa vez o reflexo foi ainda mais rápido e além da moeda, Liana recebeu um jato d’água na cabeça.

 

– Quem está aí? – Liana perguntou apanhando o dinheiro e olhando em volta apreensiva.

 

– Não há ninguém além de nós, Liana.  – A voz grave veio da direção da fonte. Liana deu um pulo ao ouvir a resposta.

 

– N-Nós quem?

 

– Você e eu.

 

– E quem é você ?- Liana lançou a pergunta no ar ainda sem entender o que se passava.

 

– Mas você vem aqui há tantos anos e não sabe quem sou? Eu sou a fonte dos desejos, ora!

 

–  A fonte? A fonte está falando comigo? Como isso é possível?

 

– E você não fala comigo todo ano? Vem aqui, feito uma pateta, quase entorta as moedas de tanta força que faz nas coitadas e me dá de presente depois de pedir alguma coisa…

 

– Mas eu achei que… Os desejos nem se realizam, então eu pensei que…

 

– É você pensou, você achou… Eu sei. Pois é por isso mesmo que seus desejos não se realizam. 

 

– Como assim?

 

– Se não acredita em mim, por que todo ano insiste em vir aqui me pedir as coisas mais absurdas?

 

– Ei! Eu te pago por cada pedido!

 

– E daí? Você me pede coisas estapafúrdias, volta pra casa e senta no sofá esperando que eu faça suas vontades caírem do céu.

 

– Você é uma fonte dos desejos, ora!

 

– Uma fonte dos desejos, muito bem. Não uma fonte dos milagres! Eu não dou nada de mão beijada a ninguém. A ninguém, minha filha! Tudo o que eu faço é dar uma forcinha  aos acasos para que as coisas se realizem. Mas sem força de vontade? Pois, me economize!

 

– A senhora está me ofendendo!

 

– Minha querida, não adianta você vir aqui, me jogar um dinheirinho, dizer que quer casar e não procurar nem um namorado. Você achou o quê? Que eu mandaria o homem dos sonhos bater na sua porta num dia de chuva?!

 

  Esse foi meu desejo de dois anos atrás! E eu não consegui nem um namorado!

 

– Claro que não! Você nem mesmo se esforçou para dar uma chance a nenhum dos homens que se interessaram por você. Ou para procurar alguém que te interessasse.

 

– Mas a minha avó sempre disse que os desejos dela eram atendidos…

 

– Sua avó foi uma das minhas clientes mais fiéis. Mas ela nunca deixou de correr atrás do que queria esperando que eu resolvesse seus problemas. Qual foi mesmo seu pedido do ano passado? “Eu quero ser rica”. O que você fez de diferente para que isso acontecesse? Nenhuma fonte de renda extra, nenhum corte de gastos…. Desse jeito, realmente, fica difícil te ajudar…

 

– Mas esse ano  eu não pedi nada material e você me devolveu a moeda. De uma forma bem mal educada, diga-se de passagem.

 

– Ser feliz… Nós duas sabemos que isso eu não posso te dar… Você não sabe ser grata por aquilo que possui. Não se esforça nem um pouco para mudar o que te incomoda na sua vida. Em vez de aproveitar os momentos e pensar em soluções, vive reclamando e criando obstáculos para tudo. Eu te conheço o suficiente para saber que não quero perder meu tempo contigo este ano! Pode levar sua moeda. Tenho muitos clientes que merecem minha intervenção no destino, mas você, Liana, enquanto não mudar esse seu jeito acomodado, não faz mais parte dessa lista…

 

Bruna Paiva

 

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