Pequena eternidade

Coloco minhas pernas por cima das suas enquanto fazemos o caminho de volta, na poltrona falsamente aconchegante daquele ônibus abafado. Dividimos um fone de ouvido, o braço roçando no meu. Conversamos de muito perto e eu rio de tudo que ele fala. Não é possível que não perceba; mas finge que não.

Chegamos. Duas horas para matar. “Vamos à praia?”. Sol quente, vento frio e o cheiro do perfume que me invade os pulmões sem consentimento. Sentamos na areia e discutimos amenidades. Estudo cada ação e ele não parece disposto a tomar qualquer atitude. “O que você queria me dizer naquele dia?”. Xeque Matte. Agora ou nunca mais. Mas me demoro ponderando as consequências.

Bonita aquela criança, mal segurada pela mãe. Pego a areia nas mãos e deixo escorrer pelos dedos. Me arrependo no segundo seguinte por não ter onde limpar. Respiro fundo e digo. É melhor se arrepender de um ato feito do que da tortura de um “e se”.

“Eu nunca tinha percebido”, sonso. Nós dois sabemos que ele está mentindo, mas não falamos nada. “Minha vida é complicada, não quero magoar você”. O mesmo escape de sempre. Nunca boa o suficiente para mudar o discurso de ninguém.

Me sinto frustrada. Constrangida talvez seja a melhor palavra. Mas mantenho a leveza. Sorrindo, fazendo piada, apesar do estranho vazio queimando no peito. Take a sad song and make it better. Deito e encaro o céu. Não vai cair. Controlo a respiração enquanto voltamos a falar nada com nada.

Ele passa a mão no meu cabelo e brinca olhando para o mar. Nem um pouco abalado pelo que acabou de acontecer. Um casal tira fotos com balões no outro lado da praia. Fico enjoada. Apaixonados demais. Estáveis demais.

Enquanto os encaro ele me beija de surpresa. Me assusto mas não me afasto. Talvez devesse. Mas beijo de volta. Tonta, perdida. “O mundo gira devagar”. Chego mais perto e gravo cada detalhe. Sinto tudo o que posso e não devia.

No final do beijo, sorrio. Ele passa os braços em volta de mim e, apesar de saber que é um erro, me permito sentir a segurança. Relaxo em seu abraço obrigando a cabeça a entender que aquilo não quer dizer nada. Para ele. Não entendo bem por que me beijou, mas sei que não foi pelo mesmo motivo que beijei de volta.

Não posso me envolver, mas aperto os braços em volta dele. Sinto que aquele momento nunca mais vai se repetir. E é por isso que eu registro. Cada segundo.

 

Bruna Paiva

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As certezas da minha vida

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Quando eu tinha 12 anos, tive certeza de que não poderia viver sem meus ídolos. Aos 14, acreditei com todas as forças que jamais me apaixonaria novamente. Aos 15, achei que nunca mais fosse fazer amigos. Aos 17, não botei fé em passar no vestibular. Com 19 anos, a ideia de não achar um amor para dividir a vida me aterrorizou.

Aos 25, me sentia nova demais para casar. Aos 31, velha demais para não ter um filho. Aos 34 tive certeza de que a maternidade arruinaria minha carreira. Aos 39, que minha carreira arruinaria a infância de meus filhos.

Aos 47, não pensei que fosse sobreviver à morte de meu pai. Aos 52, tive certeza de que morria junto com minha mãe. Com 55 anos, achei que fosse enlouquecer com os preparativos do casamento de minha filha. Dois anos depois, acreditei que ser avó faria de mim uma velha à beira da morte. Aos 58, pensei que seria triste para sempre com a saída do meu caçula de casa.

Aos 60, tive a certeza de que me aposentar me aproximaria da cova. Aos 63, julguei loucura viajar para lugares insanos com meu marido. Três anos depois, não acreditei que voltaria a ser feliz numa vida onde eu não o tivesse ao meu lado. Aos 67, a depressão me fez ter certeza de que não viveria até os 75.

Mas eu sobrevivi. Passei pelo fim da minha banda preferida com poucas lágrimas, aos 13. E me apaixonei incontáveis vezes depois dos 14. Superei as amizades perdidas aos 15 e fiz outras muitas ao longo da vida. Passei no vestibular na primeira tentativa. Encontrei o amor da minha vida aos 21, e antes disso curti muito a liberdade de ser solteira. Casei aos 25 e percebi que a idade foi perfeita para mim. Minha primeira filha veio aos 32, o segundo aos 34, e me percebi finalmente madura para cuidar de duas crianças.

A maternidade não arruinou minha carreira. E mesmo em meio aos plantões e loucuras de ter uma mãe médica, meus filhos tiveram uma infância incrível. Sobrevivi à perda de meus pais, embora ainda doa lá no fundo a falta que eles me fazem.

O casamento da minha filha foi emocionante e guardo com carinho as lembranças da loucura que foram os preparativos. O brilho no olhar de minha neta acabou me fazendo sentir mais jovem. Meu caçula saiu de casa para ganhar o mundo e hoje morro de orgulho do músico bem-sucedido que ele se tornou. A aposentadoria foi um alívio. Me afastou de obrigações chatas, me deu mais tempo para curtir a vida, estar com as pessoas que amo.

As viagens excêntricas com meu marido são algumas das melhores lembranças da minha vida. Depois que ele se foi, apesar da dor, resolvi seguir em frente. Me mudei para a casa de minha filha e meus dois netos são minha maior alegria. E aqui estou agora, rodeada de pessoas felizes, celebrando meu aniversário de 80 anos.

 Eu tive várias certezas ao longo da vida. E ainda bem que estava errada na maioria delas…

Bruna Paiva

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Verdade ou consequêcia

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Sabe, ainda lembro do que passou na minha cabeça quando te conheci.   “Bonitinho, mas muito bobo e, meu Deus, como é metido.” Tinha um rolo com uma menina mais velha e parecia nem perceber minha existência. Mas um dia você se aproximou. Conversamos por horas e, confesso, comecei a te olhar de um jeito diferente.

No fundo, você não era metido e eu não era a garota estranha que você pensou. Tinha histórias para contar e também gostava do meu escritor favorito. Zoou meu gosto musical e me fez gargalhar quando imitou o meu ídolo cantando.

Eu era de humanas, você de exatas. Continuei odiando os números. Mas passei a ver a física com outros olhos. Sua paixão pelo que fazia era comovente.

Fui apresentada a seus amigos e as minhas amigas amaram te conhecer. No meu aniversário, eu juro que não esperava o que armaram para mim. Um fim de semana na minha praia preferida. Foi incrível, foi perfeito. Uma das melhores lembranças daquela época.

Não lembro como aconteceu. Um dia olhei para o lado enquanto conversávamos e me percebi completamente apaixonada por aquele menino bonito, bobo, mas nem um pouco metido.  Resolvi sentir calada. Não queria estragar nossa amizade. Se o sentimento não fosse recíproco, eu não suportaria que você se afastasse.

Passei meses louca por você. Mas continuei agindo apenas como uma boa amiga. Aquilo me matava por dentro. Te tinha sempre por perto, porém nunca da forma que eu queria.

Você me conhecia. Percebeu que havia algo estranho. Quando perguntou se estava tudo bem, pedindo que eu confiasse em você, não consegui mais segurar. Te disse tudo o que sentia, com lágrimas descendo no rosto e soluços subindo no peito. Você escutou tudo com seriedade e esperou que eu terminasse de falar. E então me beijou, para depois dizer que esperava por esse momento desde nossa primeira conversa.

Como casal, conseguimos nos entender ainda melhor do que como amigos. Éramos um só. Ninguém pensava na Júlia sem o Daniel ou vice-versa. Nos amávamos tanto que mal podíamos conter nossos planos. Viagens, festas, família, negócios…

Depois de tantos anos juntos, eu (e todo mundo que nos conhecia) achava que íamos nos casar. Sei que também era a sua vontade. Mas então você ganhou aquela oportunidade. Físico reconhecido no Brasil convidado a estudar na Europa.

Você ainda era novo, não podia perder aquela chance. Quis me levar junto, mas minha profissão não permitia. Atriz em cartaz no teatro e com filmagens de cinema me prendendo no país. Confesso que não queria que você fosse, pensamento egoísta. Mas não disse nada porque sabia que era importante para sua carreira.

O dia chegou e nossa despedida foi estranha. Me lembrei de tudo o que passamos e como eu nem imaginava que me tornaria tão dependente de te ter comigo. Você entrou naquele avião prometendo que nada mudaria entre nós. Afirmei aquilo para mim mesma, mas no fundo eu sabia que seria difícil com um oceano nos separando.

No primeiro ano funcionou. Nos falávamos todos os dias, da maneira que o fuso-horário permitisse. Você voltou para o Natal e a saudade era tanta que só aquela semana não foi suficiente. Ainda assim, você precisou voltar para sua física. E eu para meu filme que, àquela altura, já estava próximo de estrear.

Nas primeiras semanas depois daquele Natal, a distância começou a balançar nossa relação. Era desgastante, e não tínhamos muito tempo um para o outro. Começamos a nos afastar gradualmente. O tempo curto passou a ser um grande vilão.

E foi então que eu fiz a maior burrada da minha vida. Para promover o filme, aceitei assumir um romance com meu colega de trabalho. Ideia do diretor que logo fez meu nome ir parar nos maiores sites de fofoca. Ainda mais com a notícia de uma gravidez.

Não imagino o tamanho da sua dor quando soube. Mas ainda me lembro de cada palavra que usou contra mim. Todas se cravaram no meu peito como estacas. O pior de tudo foi não poder discordar de você. Estava com raiva de mim, com razão.

Eu só não te contei que era tudo mentira. Nem que a criança em meu ventre era fruto do nosso amor. Afinal, meu novo romance era pura fachada. Não te contei porque quis te poupar. Não era justo que desistisse do seu sonho por mim. Hoje percebo que também fui injusta. Você tinha o direito de saber.

Meu namorado de fachada assumiu nossa criança quando lhe contei parte da história, dizendo que o pai era um ex-namorado. Ainda que achasse aquilo uma grande loucura. Ele era um cara legal. Acabamos nos entendendo e formando uma família, embora eu nunca o tenha amado. Ficamos juntos e educamos nossa filha. Ele se tornou um pai incrível. Mas não chega perto do que eu sei que você seria.

Sei que provavelmente me odeia. Mas logo hoje, na data de nosso primeiro beijo, nossa menina completa 15 anos. E eu não aguento mais mentir sobre a paternidade dela.

Moramos só nós duas num apartamento maior que o necessário. O “pai” dela e eu nos separamos há 10 anos. Não se mantém uma relação formada por mentira durante tanto tempo. Mas ele ama nossa Maria Clara. É linda a relação dos dois.

A única que sabia de tudo era minha mãe, que morreu há cinco meses. No funeral dela, eu só queria o seu abraço, o seu apoio. Mas quem cuidou de mim foi nossa filha. Ela é o único atenuante de minha infelicidade.

Soube que está na cidade. Visitando sua mãe junto à família que formou na França. Seus filhos são lindos, sua mulher ainda mais. E eu só queria que eles não existissem. Queria poder fazer tudo diferente. Voltar no tempo e ir com você para a Europa. Queria nossos sonhos, nossos planos, tudo realizado.

A verdade é que eu te amo. Depois de todo esse tempo, não deixei de te amar um segundo sequer. Quinze anos se passaram e eu não aprendi a viver sem você. Ainda te escrevo uma carta por dia e não suporto ver que você seguiu a sua vida porque eu fui burra demais para te manter na minha.

Bruna Paiva

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Quando a dor nos inspira na ficção – VIDEO NOVO NO AR!

Oi gente, o video desta semana é sobre um texto forte, inspirado em um momento triste da minha vida, mas que ao mesmo tempo me rendeu uma grande alegria, que foi minha primeira publicação física em um livro. “O velório do amor da minha vida” é uma ficção carregada de sentimentos reais. Para entender mais sobre o que me levou a escrevê-lo é só assistir ao vídeo acima. E se gostar, não se esqueça de se inscrever no nosso  canal do YouTube para dar uma força ao projeto do livro ADOLESCENTE DEMAIS.

Aproveito para convidar também todos para a minha a página do Wattpad (onde cada vídeo é postado com os textos que me servem de inspiração). É  no Wattpad que o ADOLESCENTE DEMAIS está se desenhando como livro. E você pode participar ativamente desse processo, deixando likes, comentários, folheando as páginas já escritas e trocando comentários com outros leitores.

Obrigada pela leitura e audiência cada vex maior!

Beijos da Bru!

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O ônibus do meu amor

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Não dava mais para mim. Havia cansado de tantas decepções, uma ferida atrás da outra, amores não correspondidos e tantas cicatrizes no coração. Depois do terceiro noivado arruinado, não via mais sentido nessa vida. Qual era a razão de viver num mundo onde tudo dá errado para você?

O que eu não sabia era que bem naquele ônibus estava o amor da minha vida. Sentada ao lado da única cadeira vazia, encontrava-se a mulher que Ele destinou para mim. Não sabia que ela só queria voltar para casa depois de um dia estressante, e nem que ela lia meu livro preferido. Muito menos que ela também gostava de comida japonesa.

Não sabia que começaríamos a sair naquela semana e que três meses depois estaríamos apaixonados. Não fazia ideia de que, dois anos depois daquele encontro casual, ela entraria na igreja vestida de branco enquanto todos os nossos amigos aplaudiam nosso amor.

Não tinha noção de que nossa filha teria seus olhos e a minha boca, e nem que ela cresceria e se tornaria uma grande bailarina. Não sabia que ficaríamos velhinhos juntos e nem que seria ela a primeira a partir. Não sabia que essa seria a grande história de amor que há tanto tempo buscava.

Se eu soubesse disso tudo, teria subido no ônibus. Mas não subi. Preferi dar fim à minha vida por pensar que o destino não havia me reservado ninguém. Eu me joguei na frente daquele ônibus.

É terrível descobrir só agora que ela estava lá dentro. Até tentei negociar aqui em cima, afinal, eu não sabia que ainda existia alguém para mim. Mas não colou. Continuei sendo torturado com as imagens de um futuro que eu mesmo escolhi não viver. Enquanto isso, minha alma gêmea também, por minha culpa, foi privada de viver seu grande amor.

Bruna Paiva

 

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Meia dúzia de conquistas

thinking-272677_1280Sou inabalável, organizado, forte e dentro dessa sala tenho todo o poder do mundo. Grito e os amedronto porque, que minha chefe não me ouça, sou eu quem dito as regras no recinto. Mas a verdade é que, aqui dentro mesmo, está tudo uma bagunça, frágil e instável.

Me faço de durão e ditador para todo o mundo ver o quanto sou respeitável. Queria ser exemplo, já que estudei pra caramba até chegar aqui. O que preciso, lá no fundo, não é desse exército que criei. Eles têm medo de mim e eu só queria ser admirado.

Meu maior desejo era que eles me achassem tão foda quanto aquele meu colega que nunca precisou dar um grito para obter atenção. Queria carinho e reconhecimento. Afinal, sei que sou muito competente e bom no que faço. E, convenhamos, tenho algumas grandes conquistas nas costas.

Quero que vejam como sou melhor que muita gente. Preciso jogar na cara do mundo cada uma de minhas vitórias. Menosprezar quem tem menos experiência, ou mesmo quem lutou menos que eu para se dar bem. Sou incompreendido por quem eu só queria que me amasse.

Saio dessa minha cúpula de incompreensão e passo a não compreender tampouco aqueles com quem lido. Às vezes, esqueço me de que há pouco era um deles.

Eu só queria ter sido respeitado, motivo de orgulho e inspiração para cada um dos que hoje são meus soldados. Por eles queria ser considerado herói, ídolo diante de tudo o que alcancei nessa vida. Lutei muito, mas me impus como se fosse o rei do mundo. Hoje, meu maior medo é um dia olhar para trás e perceber que só o que consegui foi me tornar um babaca com meia dúzia de conquistas.

Bruna Paiva

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O Astro que nunca vai se apagar

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Eu tinha 15 anos quando o conheci. Sempre fora um garoto tímido e não era dos mais populares na escola. Nele, enxerguei o melhor amigo que nunca tivera. Minha mãe quase me matou quando cheguei em casa com um vira-lata sujo, desnutrido e ainda por cima com uma patinha quebrada.

Tamanha foi a minha insistência que ela acabou permitindo que eu ficasse com o bichinho. A única regra era: “o cachorro é seu, quem cuida é você”. E eu acatei. Levei ao veterinário, cuidei da pata quebrada, dei banhos, remédios, comida e muito carinho. Amei-o acima de tudo.

Ele ainda era filhote. Tinha menos de um ano de vida e não lhe faltava energia. Fazia de tudo para chamar a atenção de quem quer que fosse. Sempre gostou de brilhar. Daí veio o nome. Astro era meu filho e único amigo na época da escola.

Foi motivo de incontáveis brigas entre minha mãe e eu. Roia todos os móveis e adorava subir no sofá. Era seu canto preferido do lar. Mas também um lugar terminantemente proibido pela dona da casa. A fruteira da cozinha também era seu alvo certo. Astro não podia ver um mamão por lá que em pouco tempo devorava as frutas de minha mãe. Ela brigava com ele e eu brigava com ela.

Meu tempo livre sempre foi gasto com Astro. Passeava com ele pelo bairro, saía para brincar e confidenciava a ele coisas que nunca contei para ninguém.

Por causa de Astro, descobri meu amor pela veterinária e não tive dúvidas sobre o que optar quando prestei vestibular aos 17. E passei para a universidade federal que tanto almejei. A comemoração não poderia ter sido melhor: fomos os dois, eu e Astro, para uma praia e passamos a noite por lá. Ele adorava o contato com a areia, mas sua maior diversão era correr na beira do mar.

Quando tirei minha habilitação, ele foi meu primeiro passageiro. Implicou com a minha primeira namorada. Era a garota chegar lá em casa e ele não parava de latir. Era ciumento do focinho às patas. A segunda namorada tinha uma cachorra vira-lata. E, bom, Astro não implicou tanto assim com ela.

Meu melhor amigo foi quem passou junto comigo pela barra da doença da minha mãe. Câncer aos 57 anos. Eu tinha 19, e um ano depois precisei aprender a viver sem ela. Não fosse pela companhia de Astro, talvez eu não tivesse aguentado.

Nos últimos tempos da vida de minha mãe, ela e Astro tornaram-se grandes amigos. Ele me ajudava a cuidar dela. E, quando eu não estava em casa, Astro sempre ficava por perto, como se quisesse fazê-la sentir-se segura. A beira da cama de minha mãe nunca esteve vazia.

Uma vez, eu estava na faculdade e minha mãe, debilitada, teve uma crise de tosse. Astro prontamente correu até seu cantinho da casa e arrastou com o focinho o próprio pote de água até a beira da cama. Molhou a casa inteira, mas minha mãe ficou tão emocionada que nem brigou com ele.

Passamos sérias dificuldades quando fiquei desempregado no meio da faculdade, sem ninguém para pedir ajuda. Mas Astro sempre pareceu me entender. E, quando passamos a viver só os dois, a relação conseguiu se estreitar ainda mais.

Toda vez que eu chegava em casa, ele fazia de meu retorno um acontecimento. Todos os dias, o vira-lata que já estava gigante tinha algo para me mostrar, nem que fosse apenas seus brinquedos de sempre. Queria a máxima atenção possível. Pois é, cresceu, mas continuava gostando de brilhar.

Assistíamos aos jogos de nosso querido Fluminense juntos no sofá da sala. Bom, eu no sofá e ele no chão. Foi um hábito do qual não conseguimos nos livrar. Aprendeu a respeitar as regras de mamãe em vida e mantinha o costume mesmo que ela não se fizesse mais presente.

Me formei na faculdade e trabalhei em algumas clínicas e ONGs. Mas foi quando abri minha própria clínica, em sociedade com um colega, que comecei a ganhar melhor. Astro foi nosso primeiro paciente. Comeu minhas meias e precisou de uma ajuda para se livrar delas.

A recuperação foi rápida e em poucos dias o danado já estava correndo com minhas roupas na boca novamente. Meses depois, descobri que o tal colega não era tão colega assim. Meu sócio estava roubando a clínica e precisei acabar com tudo. Desempregado, mais uma vez. Meu único estímulo de seguir em frente era o olhar compreensivo e amoroso de Astro.

Tantas vezes chorei agarrado a ele. E todos os dias quando me levantava para procurar um emprego, ele me incentivava. Íamos sobrevivendo com o pouco dinheiro que eu conseguira guardar apesar das dívidas que me sufocavam.

Houve um mês em que cortaram nossa luz pelo atraso de pagamento. Enchi a casa de velas e a cara de cerveja. Posso jurar que Astro ria junto comigo. E depois choramos abraçados. Só acordamos no dia seguinte com a casa cheia de velas derretidas e um sol invasivo que entrava pela janela.

Encontrei um emprego num abrigo de animais abandonados. E lá conheci a mulher da minha vida: Christinne. Uma colega de profissão que era incrivelmente doce e amava os animais. Quando a levei para conhecer Astro, para minha maior felicidade, eles se deram muito bem. Meu amigo aprovou minha amada.

Christinne aprendeu a amar meu amigo e Astro nutria afeto por ela também. Ao contrário da primeira garota que conheceu, para Christinne, Astro era todo e somente amores.

Eu não fiquei muito tempo no abrigo. Depois de um ano, consegui juntar dinheiro para abrir minha própria clínica. E dessa vez, sem sociedade. O nome da clínica não podia ser outro: Clínica Veterinária Astro. E meu garoto propaganda era ele, claro.

Mas já havia algum tempo  que meu amigo se mostrava bem cansado. Nos últimos meses, nem se esforçava tanto pela atenção alheia. As festas nas minhas voltas para casa não tinham mais a mesma intensidade. Seu andar, antes tão empolgado, agora estava a cada dia mais lento e arrastado. A cegueira atacara um olho e ele já não escutava tão bem.

Hoje, quando cheguei da clínica, Astro não estava nada bem. Nem andou até a porta para me receber. Deitado aos pés do sofá, só levantou o olhar. Parecia estar esperando minha chegada. E, pela exaustão em seus olhos, eu entendi perfeitamente o que ele queria dizer.

Quinze anos de amizade. Para mim, apenas uma primeira fase da vida. Mas, para ele, uma vida inteira. E por mais que eu não quisesse acreditar, sabia que chegava ao fim. Fechei a porta sem me preocupar em trancá-la. Larguei a bolsa no chão e corri ao seu encontro.

Dessa vez, me sentei no chão, junto dele. Acomodei sua cabeça em meu colo e deixei minhas lágrimas rolarem enquanto abraçava-o e acariciava-lhe o pêlo curto. Não sei ao certo quanto tempo ficamos ali, relembrando nossa amizade enquanto eu o agradecia por cada segundo que passamos juntos. E então, lentamente, as batidas de seu coração foram ficando cada vez mais fracas até deixarem de existir.

Meu Astro agora só brilha no céu.

Bruna Paiva

 

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Adeus, amor, pra mim já deu

escrevendo-cartaNa calçada em frente ao prédio, o corpo era analisado pela polícia. O jovem homem não sobrevivera ao impacto. À sua volta, uma poça de sangue contrastava com a pele clara sobre o asfalto. Em uma das mãos, o punho semicerrado ainda guardava uma foto. Uma foto de si mesmo abraçado a uma bonita jovem que, segundo curiosos que se aglomeravam no local, seria sua namorada.

Chocados, os vizinhos não conseguiam entender o que acontecera. Às três horas da madrugada ouviram um barulho muito forte e logo depois os gritos do porteiro. Ao descerem, se depararam com a cena. Especulavam sobre qual seria o motivo de um possível suicídio para aquele homem que sempre pareceu tão feliz ao lado de sua companheira.

E a mulher, onde estaria àquela hora da madrugada? Se o jovem casal nunca se desgrudava, por que ela não se encontrava no meio da aglomeração? Estaria bem? No apartamento? Teria o homem de fato se jogado do oitavo andar? As dúvidas eram muitas entre as testemunhas daquela tragédia.

A perícia chegou e então subiram até o 802, apartamento do casal. Ao entrar no pequeno quarto e sala, encontraram uma espécie de ritual de despedida. Velas acesas por toda parte, alguns móveis fora do lugar e gavetas reviradas. Nas paredes, muitas fotos. Imagens de um casal de adolescentes que parecia ter crescido junto. Centenas de fotos exibindo a felicidade dos dois, ou apenas exaltando a beleza da jovem, cobriam toda a extensão das paredes da sala e corredores.

No painel principal da sala, as fotos unidas formavam uma mensagem:

Adeus para sempre.
Do seu eterno amor.

Ao lado daquela despedida, na outra parede, a janela escancarada e um banco em sua base  compunham o ambiente. Não havia mais ninguém no apartamento. Porém, os policiais continuavam
procurando pistas e verificando cada pequeno canto em cada cômodo.

Sobre a mesa da cozinha, mais velas e duas taças. Apenas uma delas parecia ter sido usada, com vinho tinto pela metade. Como se ali tivesse ocorrido um brinde solitário.

— Venham ver isso aqui — chamou o policial Eduardo.

Quando os outros chegaram ao quarto do casal, encontraram porta-retratos quebrados, porém sem fotos. Os armários estavam revirados, roupas masculinas e álbuns fotográficos haviam sido espalhados
por toda parte. As paredes brancas traziam mensagens e juras de amor eterno, escritas em tinta vermelha.

Em cima da cama desarrumada via-se um envelope. Ao lado dele, a seguinte carta:

“Oi, sei que deveria fazer isso pessoalmente, mas você sabe que eu sempre me expressei melhor escrevendo. Falar não é muito a minha praia. Você me conhece bem.

Quando estiver lendo esta carta eu pretendo já estar bem longe de casa. De preferência onde você não possa me encontrar. Creio que a nossa relação foi tão transtornada para você quanto foi para mim. Nos últimos tempos eu te temia mais do que amava.

Ok, não dá para ser tão hipócrita e alegar que foi tudo completamente ruim. Você foi meu primeiro amor. O primeiro cara que eu amei de verdade. Minhas primeiras experiências foram com você. Eu te amei tão intensamente…

Um amor que começou precocemente. Com quatorze anos eu já tinha certeza de que você era o homem da minha vida. E sabe, poderia ter dado certo. Poderia ter sido para sempre, como juramos
desde o início. Porque o nosso amor era lindo, uma relação bonita de dois jovens que se amavam incondicionalmente.

Só que o seu amor, em algum momento, se transformou num sentimento diferente. Uma necessidade doentia de me controlar, de me prender somente para si. Você dizia que era ciúme normal de qualquer namorado, mas o seu ciúme era diferente. Aquilo não podia ser normal. Mas eu acatava.

Eu cedia e fazia do jeito que você queria, porque sempre te amei demais. Foi então que, sem me dar conta, comecei a abrir mão da minha liberdade. Troquei tudo e todos de quem eu gostava por você. Meus amigos foram banidos de vez da minha vida…

Ainda revivo a dor que senti em seu primeiro grande escândalo. O primeiro de outros incontáveis. O fatídico dia em que você se descontrolou porque eu dançava com meu primo na festa de casamento da minha irmã. Todos os convidados pararam para assistir ao circo que você armou. E ali, comecei a romper com a minha família também. Briguei com todo mundo te defendendo. O meu primo, eu nunca mais vi. E a minha irmã não fala comigo até hoje. Diz que eu acabei com a festa do casamento dela. E quer saber? Ela não tá errada.

Mas mesmo assim, mesmo com todos os escândalos e vergonhas que você me fazia passar, eu te amava. E te amava demais. A gente vivia tanta coisa boa… Eu morria de medo de perder aquilo que tínhamos. E hoje percebo que você sabia disso. Sabia e se aproveitava do meu medo, do meu amor, para me manipular. Meu Deus, como fui idiota.

Quantas vezes eu te pedi para confiar em mim? Quantas vezes eu pedi para que tratasse sua doença? Só que você nunca me ouviu. Nunca sequer tentou mudar por mim. Enquanto eu sempre mudava tudo por você. Só que chegou uma hora em que as coisas ruins se sobrepuseram às boas.

O que você fez ontem foi pior do que qualquer outra coisa que você já tenha feito antes. Ser trancada em um quarto, mantida em cárcere privado e impedida de atender a um chamado do meu próprio pai é realmente demais para mim.

Eu só queria me encontrar com o meu pai e você me tratou como uma prisioneira. Agrediu-me física, moral e verbalmente por um motivo tão estúpido. Não foi por esse cara violento e imprevisível que eu me apaixonei. E que amor é esse que você diz que sente? Que amor doentio é esse que constituiu nossa relação?

Deve ter percebido que uso o passado para falar da nossa relação. E também deve ter percebido que foi proposital. Não somos mais tão novos, e eu não quero mais me permitir entender e aturar o que aturava antes.Quero ter direito a ter os meus amigos de volta. Falar com eles e abraçá-los na hora em que eu bem entender. Quero voltar a ter uma relação saudável com a minha irmã, voltar a falar com o meu primo… Quero sair na rua sem me preocupar com o que você vai pensar. Gastar meu dinheiro com o que eu quiser.

Cansei dos seus ataques de histeria a cada oi masculino que eu recebo. Cansei de seus escândalos. Cansei de passar vergonha na rua por sua causa. Cansei de abaixar a cabeça para todas as suas babaquices. E se te interessa, já tirei meus shorts e saias curtas do fundo da gaveta. Não quero mais ter você para controlar o que visto, o que falo, o que faço e o que penso.

Já voltei a usar o batom vermelho e chamativo que você me proibia. E meus olhos estão bem marcados do jeito que você não me deixava usar. Meu piercing está de volta ao nariz. E meu cabelo? Vou fazer aquele corte lindo que você, careta, sempre achou ridículo.

Não dá mais pra mim. Eu não quero e não consigo mais abdicar de tudo do que gosto e sou por você. E acho que nem te amo mais tanto assim. De agora em diante você não vai mais fuxicar minhas mensagens e cada passo que eu dou nas redes sociais. Nem mexer na minha bolsa ou no meu armário às escondidas.

Minhas chaves de casa estão na mesa de cabeceira. Estou indo embora e levando comigo os meus pertences, minhas lembranças, meus arrependimentos e principalmente a minha vida. Se me permitir uma primeira e última exigência, não me procure mais. Não procure saber onde estou. Deixe-me viver minha vida em paz.

E quer saber? Viva a sua também. Vá se tratar, arranje outra pessoa, alguém que não se incomode com seus defeitos. Alguém que, quem sabe, até goste deles. Que não se importe com você controlando cada segundo da vida dela. Porque, como você mesmo dizia, pra mim já deu.

Adeus para sempre.
Do seu ex-amor.”

 

Bruna Paiva

*Texto originalmente publicado no livro “Amor nas Entrelinhas”, da Editora Andross, em Agosto de 2014.

 

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Reencontro

te-perdi-agora-vivo-de-SONHOSVocê. Mais uma vez você. E quando eu quase já nem me lembrava de sua existência. Apareceu no lugar mais improvável para te encontrar. Te vi ali e incrivelmente, mesmo depois de três anos, meu coração bateu mais forte.

Foi meio estranho não conseguir me controlar. Afinal, já faz tanto tempo, né? Achei que já não sentia mais nada por você. Aliás, já tinha certeza disso. Mas comigo as coisas nunca são tão fáceis assim.

Fiquei tão chocada em te ver que nem percebi quando você se aproximou.

— Fabiana! Quanto tempo! Você está bem?

Sim, era comigo que você estava falando. Com três anos a mais o seu sorriso conseguia estar ainda mais sedutor. E o brilho de seus olhos castanhos ainda me causava tontura.

—Oi… – foi apenas o que consegui dizer com uma voz que custou a sair. Será que você ainda se lembrava de tudo o que aconteceu?

—O que faz por aqui?

Cheguei a pensar numa resposta verdadeira, mas reparei que você mudou o corte de cabelo. O vento também me fez perceber que seu perfume ainda era aquele que eu adorava.

—Estou só de passagem – menti. Mas não era assim que eu queria um diálogo com você. Mesmo depois de tanto tempo, percebi que ainda havia uma esperança em meu coração. Bolei uma pergunta legal para engatar uma conversa interessante. Mas me detive quando bati os olhos em suas mãos.

No dedo anelar da mão direita, uma aliança dourada refletia o sol do meio dia. Me peguei pensando em que outra mão estaria o seu par. Não pude conter o desejo de que fosse a minha. Continuei ali com aquela cara de idiota olhando para o seu sorriso e seus olhos estonteantes.

—Tenho que ir, Tchau. Foi bom te rever, Fabi!

—Thc.. Tchau… Foi ótimo te ver também!

Você passou por mim, deixando-me ali, de olhos fechados ao sentir seu perfume novamente. E eu te deixei escapar. Sem nem um “espera!” ou qualquer coisa parecida com cenas de filmes. Mais uma vez você se foi e eu não fiz absolutamente nada para te impedir.

Bruna Paiva

 

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Sem olhar para trás

capa_44280_1301446313A casa já estava em silêncio àquela altura da madrugada.Todos dormiam e já era a hora. Levantei da cama e, debaixo dela, apanhei minha mochila com o pouco que havia separado para a partida.

Do outro lado do quarto minha irmã mais nova dormia como um anjo. Andei até ela e beijei-lhe a testa pela última vez. Sentiria sua falta. Mas era preciso ir.

Saí do meu quarto e dei uma última volta pela casa inteira. Lembranças e fotografias espalhadas me fizeram refletir novamente se era mesmo aquilo o que eu queria fazer.

Parecia loucura. Ir embora, jogar tudo para o alto. Deixar minha família, minha vida em troca de uma aventura. Poderia soar como mais um capricho adolescente de uma menina de dezessete anos bancando a revoltada.

E talvez realmente fosse a maior loucura que cometeria em toda a minha vida. Só mais um sonho que desapareceria dentro de alguns meses. Mas eu precisava tentar, porque podia também ser a chance da minha vida.

É claro que meus pais provavelmente ficarão enlouquecidos quando descobrirem que eu fugi. De início vão armar o maior escândalo, colocar Deus e o mundo atrás de mim. E quando não me encontrarem e desistirem das buscas vão ficar desolados. Mas conseguirão viver sem minha presença. Ainda terão minha irmã, vão superar a perda.

Os documentos falsos já estão em mãos. Idade e nome adulterados para que nunca mais encontrem a Ana Paula que viveu até aqui. O circo parte em duas horas, e eu vou com eles. Viver nas lonas, rodeada pela arte, colocar o meu sonho em prática…

Dando uma última olhada na sala de estar,e reprimindo uma lágrima que teimava em cair, girei a maçaneta e saí para sempre, sem olhar para trás.

Bruna Paiva