Quando a dor nos inspira na ficção – VIDEO NOVO NO AR!

Oi gente, o video desta semana é sobre um texto forte, inspirado em um momento triste da minha vida, mas que ao mesmo tempo me rendeu uma grande alegria, que foi minha primeira publicação física em um livro. “O velório do amor da minha vida” é uma ficção carregada de sentimentos reais. Para entender mais sobre o que me levou a escrevê-lo é só assistir ao vídeo acima. E se gostar, não se esqueça de se inscrever no nosso  canal do YouTube para dar uma força ao projeto do livro ADOLESCENTE DEMAIS.

Aproveito para convidar também todos para a minha a página do Wattpad (onde cada vídeo é postado com os textos que me servem de inspiração). É  no Wattpad que o ADOLESCENTE DEMAIS está se desenhando como livro. E você pode participar ativamente desse processo, deixando likes, comentários, folheando as páginas já escritas e trocando comentários com outros leitores.

Obrigada pela leitura e audiência cada vex maior!

Beijos da Bru!

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Meia dúzia de conquistas

thinking-272677_1280Sou inabalável, organizado, forte e dentro dessa sala tenho todo o poder do mundo. Grito e os amedronto porque, que minha chefe não me ouça, sou eu quem dito as regras no recinto. Mas a verdade é que, aqui dentro mesmo, está tudo uma bagunça, frágil e instável.

Me faço de durão e ditador para todo o mundo ver o quanto sou respeitável. Queria ser exemplo, já que estudei pra caramba até chegar aqui. O que preciso, lá no fundo, não é desse exército que criei. Eles têm medo de mim e eu só queria ser admirado.

Meu maior desejo era que eles me achassem tão foda quanto aquele meu colega que nunca precisou dar um grito para obter atenção. Queria carinho e reconhecimento. Afinal, sei que sou muito competente e bom no que faço. E, convenhamos, tenho algumas grandes conquistas nas costas.

Quero que vejam como sou melhor que muita gente. Preciso jogar na cara do mundo cada uma de minhas vitórias. Menosprezar quem tem menos experiência, ou mesmo quem lutou menos que eu para se dar bem. Sou incompreendido por quem eu só queria que me amasse.

Saio dessa minha cúpula de incompreensão e passo a não compreender tampouco aqueles com quem lido. Às vezes, esqueço me de que há pouco era um deles.

Eu só queria ter sido respeitado, motivo de orgulho e inspiração para cada um dos que hoje são meus soldados. Por eles queria ser considerado herói, ídolo diante de tudo o que alcancei nessa vida. Lutei muito, mas me impus como se fosse o rei do mundo. Hoje, meu maior medo é um dia olhar para trás e perceber que só o que consegui foi me tornar um babaca com meia dúzia de conquistas.

Bruna Paiva

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O Astro que nunca vai se apagar

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Eu tinha 15 anos quando o conheci. Sempre fora um garoto tímido e não era dos mais populares na escola. Nele, enxerguei o melhor amigo que nunca tivera. Minha mãe quase me matou quando cheguei em casa com um vira-lata sujo, desnutrido e ainda por cima com uma patinha quebrada.

Tamanha foi a minha insistência que ela acabou permitindo que eu ficasse com o bichinho. A única regra era: “o cachorro é seu, quem cuida é você”. E eu acatei. Levei ao veterinário, cuidei da pata quebrada, dei banhos, remédios, comida e muito carinho. Amei-o acima de tudo.

Ele ainda era filhote. Tinha menos de um ano de vida e não lhe faltava energia. Fazia de tudo para chamar a atenção de quem quer que fosse. Sempre gostou de brilhar. Daí veio o nome. Astro era meu filho e único amigo na época da escola.

Foi motivo de incontáveis brigas entre minha mãe e eu. Roia todos os móveis e adorava subir no sofá. Era seu canto preferido do lar. Mas também um lugar terminantemente proibido pela dona da casa. A fruteira da cozinha também era seu alvo certo. Astro não podia ver um mamão por lá que em pouco tempo devorava as frutas de minha mãe. Ela brigava com ele e eu brigava com ela.

Meu tempo livre sempre foi gasto com Astro. Passeava com ele pelo bairro, saía para brincar e confidenciava a ele coisas que nunca contei para ninguém.

Por causa de Astro, descobri meu amor pela veterinária e não tive dúvidas sobre o que optar quando prestei vestibular aos 17. E passei para a universidade federal que tanto almejei. A comemoração não poderia ter sido melhor: fomos os dois, eu e Astro, para uma praia e passamos a noite por lá. Ele adorava o contato com a areia, mas sua maior diversão era correr na beira do mar.

Quando tirei minha habilitação, ele foi meu primeiro passageiro. Implicou com a minha primeira namorada. Era a garota chegar lá em casa e ele não parava de latir. Era ciumento do focinho às patas. A segunda namorada tinha uma cachorra vira-lata. E, bom, Astro não implicou tanto assim com ela.

Meu melhor amigo foi quem passou junto comigo pela barra da doença da minha mãe. Câncer aos 57 anos. Eu tinha 19, e um ano depois precisei aprender a viver sem ela. Não fosse pela companhia de Astro, talvez eu não tivesse aguentado.

Nos últimos tempos da vida de minha mãe, ela e Astro tornaram-se grandes amigos. Ele me ajudava a cuidar dela. E, quando eu não estava em casa, Astro sempre ficava por perto, como se quisesse fazê-la sentir-se segura. A beira da cama de minha mãe nunca esteve vazia.

Uma vez, eu estava na faculdade e minha mãe, debilitada, teve uma crise de tosse. Astro prontamente correu até seu cantinho da casa e arrastou com o focinho o próprio pote de água até a beira da cama. Molhou a casa inteira, mas minha mãe ficou tão emocionada que nem brigou com ele.

Passamos sérias dificuldades quando fiquei desempregado no meio da faculdade, sem ninguém para pedir ajuda. Mas Astro sempre pareceu me entender. E, quando passamos a viver só os dois, a relação conseguiu se estreitar ainda mais.

Toda vez que eu chegava em casa, ele fazia de meu retorno um acontecimento. Todos os dias, o vira-lata que já estava gigante tinha algo para me mostrar, nem que fosse apenas seus brinquedos de sempre. Queria a máxima atenção possível. Pois é, cresceu, mas continuava gostando de brilhar.

Assistíamos aos jogos de nosso querido Fluminense juntos no sofá da sala. Bom, eu no sofá e ele no chão. Foi um hábito do qual não conseguimos nos livrar. Aprendeu a respeitar as regras de mamãe em vida e mantinha o costume mesmo que ela não se fizesse mais presente.

Me formei na faculdade e trabalhei em algumas clínicas e ONGs. Mas foi quando abri minha própria clínica, em sociedade com um colega, que comecei a ganhar melhor. Astro foi nosso primeiro paciente. Comeu minhas meias e precisou de uma ajuda para se livrar delas.

A recuperação foi rápida e em poucos dias o danado já estava correndo com minhas roupas na boca novamente. Meses depois, descobri que o tal colega não era tão colega assim. Meu sócio estava roubando a clínica e precisei acabar com tudo. Desempregado, mais uma vez. Meu único estímulo de seguir em frente era o olhar compreensivo e amoroso de Astro.

Tantas vezes chorei agarrado a ele. E todos os dias quando me levantava para procurar um emprego, ele me incentivava. Íamos sobrevivendo com o pouco dinheiro que eu conseguira guardar apesar das dívidas que me sufocavam.

Houve um mês em que cortaram nossa luz pelo atraso de pagamento. Enchi a casa de velas e a cara de cerveja. Posso jurar que Astro ria junto comigo. E depois choramos abraçados. Só acordamos no dia seguinte com a casa cheia de velas derretidas e um sol invasivo que entrava pela janela.

Encontrei um emprego num abrigo de animais abandonados. E lá conheci a mulher da minha vida: Christinne. Uma colega de profissão que era incrivelmente doce e amava os animais. Quando a levei para conhecer Astro, para minha maior felicidade, eles se deram muito bem. Meu amigo aprovou minha amada.

Christinne aprendeu a amar meu amigo e Astro nutria afeto por ela também. Ao contrário da primeira garota que conheceu, para Christinne, Astro era todo e somente amores.

Eu não fiquei muito tempo no abrigo. Depois de um ano, consegui juntar dinheiro para abrir minha própria clínica. E dessa vez, sem sociedade. O nome da clínica não podia ser outro: Clínica Veterinária Astro. E meu garoto propaganda era ele, claro.

Mas já havia algum tempo  que meu amigo se mostrava bem cansado. Nos últimos meses, nem se esforçava tanto pela atenção alheia. As festas nas minhas voltas para casa não tinham mais a mesma intensidade. Seu andar, antes tão empolgado, agora estava a cada dia mais lento e arrastado. A cegueira atacara um olho e ele já não escutava tão bem.

Hoje, quando cheguei da clínica, Astro não estava nada bem. Nem andou até a porta para me receber. Deitado aos pés do sofá, só levantou o olhar. Parecia estar esperando minha chegada. E, pela exaustão em seus olhos, eu entendi perfeitamente o que ele queria dizer.

Quinze anos de amizade. Para mim, apenas uma primeira fase da vida. Mas, para ele, uma vida inteira. E por mais que eu não quisesse acreditar, sabia que chegava ao fim. Fechei a porta sem me preocupar em trancá-la. Larguei a bolsa no chão e corri ao seu encontro.

Dessa vez, me sentei no chão, junto dele. Acomodei sua cabeça em meu colo e deixei minhas lágrimas rolarem enquanto abraçava-o e acariciava-lhe o pêlo curto. Não sei ao certo quanto tempo ficamos ali, relembrando nossa amizade enquanto eu o agradecia por cada segundo que passamos juntos. E então, lentamente, as batidas de seu coração foram ficando cada vez mais fracas até deixarem de existir.

Meu Astro agora só brilha no céu.

Bruna Paiva

 

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Adeus, amor, pra mim já deu

escrevendo-cartaNa calçada em frente ao prédio, o corpo era analisado pela polícia. O jovem homem não sobrevivera ao impacto. À sua volta, uma poça de sangue contrastava com a pele clara sobre o asfalto. Em uma das mãos, o punho semicerrado ainda guardava uma foto. Uma foto de si mesmo abraçado a uma bonita jovem que, segundo curiosos que se aglomeravam no local, seria sua namorada.

Chocados, os vizinhos não conseguiam entender o que acontecera. Às três horas da madrugada ouviram um barulho muito forte e logo depois os gritos do porteiro. Ao descerem, se depararam com a cena. Especulavam sobre qual seria o motivo de um possível suicídio para aquele homem que sempre pareceu tão feliz ao lado de sua companheira.

E a mulher, onde estaria àquela hora da madrugada? Se o jovem casal nunca se desgrudava, por que ela não se encontrava no meio da aglomeração? Estaria bem? No apartamento? Teria o homem de fato se jogado do oitavo andar? As dúvidas eram muitas entre as testemunhas daquela tragédia.

A perícia chegou e então subiram até o 802, apartamento do casal. Ao entrar no pequeno quarto e sala, encontraram uma espécie de ritual de despedida. Velas acesas por toda parte, alguns móveis fora do lugar e gavetas reviradas. Nas paredes, muitas fotos. Imagens de um casal de adolescentes que parecia ter crescido junto. Centenas de fotos exibindo a felicidade dos dois, ou apenas exaltando a beleza da jovem, cobriam toda a extensão das paredes da sala e corredores.

No painel principal da sala, as fotos unidas formavam uma mensagem:

Adeus para sempre.
Do seu eterno amor.

Ao lado daquela despedida, na outra parede, a janela escancarada e um banco em sua base  compunham o ambiente. Não havia mais ninguém no apartamento. Porém, os policiais continuavam
procurando pistas e verificando cada pequeno canto em cada cômodo.

Sobre a mesa da cozinha, mais velas e duas taças. Apenas uma delas parecia ter sido usada, com vinho tinto pela metade. Como se ali tivesse ocorrido um brinde solitário.

— Venham ver isso aqui — chamou o policial Eduardo.

Quando os outros chegaram ao quarto do casal, encontraram porta-retratos quebrados, porém sem fotos. Os armários estavam revirados, roupas masculinas e álbuns fotográficos haviam sido espalhados
por toda parte. As paredes brancas traziam mensagens e juras de amor eterno, escritas em tinta vermelha.

Em cima da cama desarrumada via-se um envelope. Ao lado dele, a seguinte carta:

“Oi, sei que deveria fazer isso pessoalmente, mas você sabe que eu sempre me expressei melhor escrevendo. Falar não é muito a minha praia. Você me conhece bem.

Quando estiver lendo esta carta eu pretendo já estar bem longe de casa. De preferência onde você não possa me encontrar. Creio que a nossa relação foi tão transtornada para você quanto foi para mim. Nos últimos tempos eu te temia mais do que amava.

Ok, não dá para ser tão hipócrita e alegar que foi tudo completamente ruim. Você foi meu primeiro amor. O primeiro cara que eu amei de verdade. Minhas primeiras experiências foram com você. Eu te amei tão intensamente…

Um amor que começou precocemente. Com quatorze anos eu já tinha certeza de que você era o homem da minha vida. E sabe, poderia ter dado certo. Poderia ter sido para sempre, como juramos
desde o início. Porque o nosso amor era lindo, uma relação bonita de dois jovens que se amavam incondicionalmente.

Só que o seu amor, em algum momento, se transformou num sentimento diferente. Uma necessidade doentia de me controlar, de me prender somente para si. Você dizia que era ciúme normal de qualquer namorado, mas o seu ciúme era diferente. Aquilo não podia ser normal. Mas eu acatava.

Eu cedia e fazia do jeito que você queria, porque sempre te amei demais. Foi então que, sem me dar conta, comecei a abrir mão da minha liberdade. Troquei tudo e todos de quem eu gostava por você. Meus amigos foram banidos de vez da minha vida…

Ainda revivo a dor que senti em seu primeiro grande escândalo. O primeiro de outros incontáveis. O fatídico dia em que você se descontrolou porque eu dançava com meu primo na festa de casamento da minha irmã. Todos os convidados pararam para assistir ao circo que você armou. E ali, comecei a romper com a minha família também. Briguei com todo mundo te defendendo. O meu primo, eu nunca mais vi. E a minha irmã não fala comigo até hoje. Diz que eu acabei com a festa do casamento dela. E quer saber? Ela não tá errada.

Mas mesmo assim, mesmo com todos os escândalos e vergonhas que você me fazia passar, eu te amava. E te amava demais. A gente vivia tanta coisa boa… Eu morria de medo de perder aquilo que tínhamos. E hoje percebo que você sabia disso. Sabia e se aproveitava do meu medo, do meu amor, para me manipular. Meu Deus, como fui idiota.

Quantas vezes eu te pedi para confiar em mim? Quantas vezes eu pedi para que tratasse sua doença? Só que você nunca me ouviu. Nunca sequer tentou mudar por mim. Enquanto eu sempre mudava tudo por você. Só que chegou uma hora em que as coisas ruins se sobrepuseram às boas.

O que você fez ontem foi pior do que qualquer outra coisa que você já tenha feito antes. Ser trancada em um quarto, mantida em cárcere privado e impedida de atender a um chamado do meu próprio pai é realmente demais para mim.

Eu só queria me encontrar com o meu pai e você me tratou como uma prisioneira. Agrediu-me física, moral e verbalmente por um motivo tão estúpido. Não foi por esse cara violento e imprevisível que eu me apaixonei. E que amor é esse que você diz que sente? Que amor doentio é esse que constituiu nossa relação?

Deve ter percebido que uso o passado para falar da nossa relação. E também deve ter percebido que foi proposital. Não somos mais tão novos, e eu não quero mais me permitir entender e aturar o que aturava antes.Quero ter direito a ter os meus amigos de volta. Falar com eles e abraçá-los na hora em que eu bem entender. Quero voltar a ter uma relação saudável com a minha irmã, voltar a falar com o meu primo… Quero sair na rua sem me preocupar com o que você vai pensar. Gastar meu dinheiro com o que eu quiser.

Cansei dos seus ataques de histeria a cada oi masculino que eu recebo. Cansei de seus escândalos. Cansei de passar vergonha na rua por sua causa. Cansei de abaixar a cabeça para todas as suas babaquices. E se te interessa, já tirei meus shorts e saias curtas do fundo da gaveta. Não quero mais ter você para controlar o que visto, o que falo, o que faço e o que penso.

Já voltei a usar o batom vermelho e chamativo que você me proibia. E meus olhos estão bem marcados do jeito que você não me deixava usar. Meu piercing está de volta ao nariz. E meu cabelo? Vou fazer aquele corte lindo que você, careta, sempre achou ridículo.

Não dá mais pra mim. Eu não quero e não consigo mais abdicar de tudo do que gosto e sou por você. E acho que nem te amo mais tanto assim. De agora em diante você não vai mais fuxicar minhas mensagens e cada passo que eu dou nas redes sociais. Nem mexer na minha bolsa ou no meu armário às escondidas.

Minhas chaves de casa estão na mesa de cabeceira. Estou indo embora e levando comigo os meus pertences, minhas lembranças, meus arrependimentos e principalmente a minha vida. Se me permitir uma primeira e última exigência, não me procure mais. Não procure saber onde estou. Deixe-me viver minha vida em paz.

E quer saber? Viva a sua também. Vá se tratar, arranje outra pessoa, alguém que não se incomode com seus defeitos. Alguém que, quem sabe, até goste deles. Que não se importe com você controlando cada segundo da vida dela. Porque, como você mesmo dizia, pra mim já deu.

Adeus para sempre.
Do seu ex-amor.”

 

Bruna Paiva

*Texto originalmente publicado no livro “Amor nas Entrelinhas”, da Editora Andross, em Agosto de 2014.

 

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Reencontro

te-perdi-agora-vivo-de-SONHOSVocê. Mais uma vez você. E quando eu quase já nem me lembrava de sua existência. Apareceu no lugar mais improvável para te encontrar. Te vi ali e incrivelmente, mesmo depois de três anos, meu coração bateu mais forte.

Foi meio estranho não conseguir me controlar. Afinal, já faz tanto tempo, né? Achei que já não sentia mais nada por você. Aliás, já tinha certeza disso. Mas comigo as coisas nunca são tão fáceis assim.

Fiquei tão chocada em te ver que nem percebi quando você se aproximou.

— Fabiana! Quanto tempo! Você está bem?

Sim, era comigo que você estava falando. Com três anos a mais o seu sorriso conseguia estar ainda mais sedutor. E o brilho de seus olhos castanhos ainda me causava tontura.

—Oi… – foi apenas o que consegui dizer com uma voz que custou a sair. Será que você ainda se lembrava de tudo o que aconteceu?

—O que faz por aqui?

Cheguei a pensar numa resposta verdadeira, mas reparei que você mudou o corte de cabelo. O vento também me fez perceber que seu perfume ainda era aquele que eu adorava.

—Estou só de passagem – menti. Mas não era assim que eu queria um diálogo com você. Mesmo depois de tanto tempo, percebi que ainda havia uma esperança em meu coração. Bolei uma pergunta legal para engatar uma conversa interessante. Mas me detive quando bati os olhos em suas mãos.

No dedo anelar da mão direita, uma aliança dourada refletia o sol do meio dia. Me peguei pensando em que outra mão estaria o seu par. Não pude conter o desejo de que fosse a minha. Continuei ali com aquela cara de idiota olhando para o seu sorriso e seus olhos estonteantes.

—Tenho que ir, Tchau. Foi bom te rever, Fabi!

—Thc.. Tchau… Foi ótimo te ver também!

Você passou por mim, deixando-me ali, de olhos fechados ao sentir seu perfume novamente. E eu te deixei escapar. Sem nem um “espera!” ou qualquer coisa parecida com cenas de filmes. Mais uma vez você se foi e eu não fiz absolutamente nada para te impedir.

Bruna Paiva

 

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Sem olhar para trás

capa_44280_1301446313A casa já estava em silêncio àquela altura da madrugada.Todos dormiam e já era a hora. Levantei da cama e, debaixo dela, apanhei minha mochila com o pouco que havia separado para a partida.

Do outro lado do quarto minha irmã mais nova dormia como um anjo. Andei até ela e beijei-lhe a testa pela última vez. Sentiria sua falta. Mas era preciso ir.

Saí do meu quarto e dei uma última volta pela casa inteira. Lembranças e fotografias espalhadas me fizeram refletir novamente se era mesmo aquilo o que eu queria fazer.

Parecia loucura. Ir embora, jogar tudo para o alto. Deixar minha família, minha vida em troca de uma aventura. Poderia soar como mais um capricho adolescente de uma menina de dezessete anos bancando a revoltada.

E talvez realmente fosse a maior loucura que cometeria em toda a minha vida. Só mais um sonho que desapareceria dentro de alguns meses. Mas eu precisava tentar, porque podia também ser a chance da minha vida.

É claro que meus pais provavelmente ficarão enlouquecidos quando descobrirem que eu fugi. De início vão armar o maior escândalo, colocar Deus e o mundo atrás de mim. E quando não me encontrarem e desistirem das buscas vão ficar desolados. Mas conseguirão viver sem minha presença. Ainda terão minha irmã, vão superar a perda.

Os documentos falsos já estão em mãos. Idade e nome adulterados para que nunca mais encontrem a Ana Paula que viveu até aqui. O circo parte em duas horas, e eu vou com eles. Viver nas lonas, rodeada pela arte, colocar o meu sonho em prática…

Dando uma última olhada na sala de estar,e reprimindo uma lágrima que teimava em cair, girei a maçaneta e saí para sempre, sem olhar para trás.

Bruna Paiva

Brincadeira do destino

tumblr_lh0wj3cBli1qcis5ro1_400Era mais um dia comum. Verônica só precisava comprar uma camisa para um amigo. Era aniversário dele e ela tinha se esquecido do presente.

Já passavam das três da tarde quando ela correu para o shopping mais próximo. Passeou por aqueles corredores que viviam cheios de gente e parou por cinco minutos no Starbucks para tomar um café gelado com bastante chantilly. Continuou procurando uma loja que a agradasse.

Achou uma, bastante conhecida, bem grande e de boa qualidade. Resolveu entrar e procurar alguma camisa que servisse para seu amigo. Enquanto passava os olhos pelos modelos, uma voz grossa, porém suave, disse:

— Posso ajudar?

Verônica se virou. O dono da voz era um vendedor. Ele devia, assim como Verônica, ter seus vinte e pouquinhos anos. Seus olhos azuis eram completamente hipnotizantes. Ele era alto, loiro, lindo.

—Quanto… Quanto custa essa daqui? —perguntou gaguejando e escolhendo uma camisa da qual tinha gostado.

— Deixa eu da uma olhada pra você. —Ele pegou a blusa esbarrando nas mãos dela que, para a surpresa de Verônica, já estavam suadas. E, meu Deus, tinha uma escola de samba inteira dentro de seu peito.

—Ela tá R$ 32,90 — respondeu o vendedor olhando bem nos olhos de Verônica.

Ele devia estar achando que ela era maluca. Olhando-o daquele jeito sem dizer uma mísera palavra.

—É… Eu vou levar.

—Ok. —disse já direcionando a menina ao caixa. —É para o namorado? — perguntou enquanto dobrava a camisa, tentando puxar assunto.

—Não. Eu não tenho. É aniversário de um amigo mesmo.

—Ah, sim.

Ela pegou o presente e saiu da loja se despedindo daquele vendedor que, sabe-se lá por que, fez seu coração sambar e suas mãos suarem. Pegou o carro e dirigiu, ainda meio atordoada, de volta para casa.

Chegou e começou a se arrumar. Já eram cinco horas da tarde, a festa seria às oito. Depois de um banho quente e demorado, vestiu aquele vestido azul que amava, uma sapatilha prateada e uma bolsa combinando. Não era lá muita coisa mas estava bom. Saiu de casa sentindo-se bonita.

Na festa, pessoas conversavam e bebiam. Verônica estava jogando conversa fora com uma colega da faculdade quando seu amigo aniversariante a chamou.

—Vê, vem cá. Quero te apresentar para um amigo meu. O Lucas fez o Ensino Médio comigo.

Verônica sorriu e foi com o amigo.

—Verônica esse é o Lucas, Lucas essa é a Verônica.

—Você?! —Lucas e Verônica disseram em uníssono.

—Ué, mas vocês já se conhecem?

—Eu comprei seu presente com ele hoje. —disse Verônica achando graça da situação.

—Lucas, é ela aquela cliente gata que você me falou?

Tanto Verônica como Lucas olharam para ele. Ela surpresa, ele, quase matando o amigo, que foi embora deixando os dois a sós.

—Então era só um presente para um amigo mesmo? Achei que fosse alguém mais especial. — disse tentando brincar com ela. Verônica riu e os dois conversaram e ficaram juntos o resto da noite. Acabaram descobrindo que tinham a mesma banda favorita e que compartilhavam do mesmo sonho de viajar o mundo.

E dali em diante, a paixão à primeira vista numa lojinha do shopping acabou virando relacionamento sério.Creio que a vida de vez em quando gosta de brincar com a gente…

Bruna Paiva

O velório do amor da minha vida

3944988O silêncio era adequado à situação. O clima daquele lugar estava pesado, eu não conseguia me decidir se estava abafado só por causa do calor ou se era aquela cena que me deixava sem ar.

Algumas lágrimas caem lá e cá. Algumas pessoas que não deveriam estar aqui vieram só para fazer uma média.  E eu me pergunto de que adianta fazer média com alguém nessa situação?

Ainda não tive coragem de andar até o principal motivo de eu estar aqui. Sei que quando chegar perto meu mundo vai cair. Mais do que caiu ontem, quando a minha mãe me deu a notícia. Mas é melhor parar de adiar, afinal não tenho mais muito tempo para me despedir.

Tomei coragem, respirei fundo e comecei a andar. Algumas pessoas se afastaram para que eu passasse e pude ver o olhar dos meus amigos para mim. Parecia que estavam com pena.

Andei pouco até conseguir avistá-lo. De terno e gravata, ele ia odiar se pudesse ver aquilo, deitado de olhos fechados e um semblante cansado num caixão preto estava o amor da minha vida.

O ar me faltou e uma lágrima simplesmente pulou de meu olho esquerdo. Cheguei mais perto já com mais uma lágrima escorrendo por minhas bochechas. Passei a mão por seus cabelos castanhos e outra lágrima minha caiu sobre sua boca. Aquela boca que tanto me fez sorrir, que tanto sorriu para mim e me beijou tão fervorosamente estava agora imóvel em uma expressão que em nada se parecia com seu lindo sorriso.

Toda a angústia que eu sentia naquele momento saía de meu peito e se transformava em soluços. Os últimos soluços ao lado dele.

Ah meu amor, por que foi que você se meteu com aquela gente? Eu te pedi tanto pra se afastar daquele mundo… Agora olha só o que te fizeram. Nunca mais vou poder te abraçar… E o nosso casamento? O que faço com os nossos planos? Jogo tudo fora e sigo minha vida? Eu não consigo fazer isso. Não sei mais viver sem você…

Suas mãos que sempre me aqueceram agora estavam duras e geladas. O peito que me acolhia agora não tem mais o movimento da respiração dele. E as batidas de seu coração nunca mais vão tocar para mim…

Alguns olhares de piedade me fazem ter a certeza de que nada vai me ajudar neste momento. Tudo de que eu precisava é a única coisa que infelizmente eu nunca mais terei: um abraço apertado dele.

Bruna Paiva