Como você imagina uma cadeia?

Na primeira vez que eu entrei numa cadeia, como voluntária num projeto da faculdade, eu estava com medo. Na realidade, eu estava apavorada. Não tinha a menor noção do que encontraria por lá. O mais próximo que eu havia tido de um contato com o mundo carcerário era o livro do Dráusio Varella. De resto, só o que se vê na televisão. Minha mãe, em casa, me mandava uma mensagem a cada cinco minutos perguntando se estava tudo bem, e quase enlouqueceu quando entrei na área sem serviço de celular.

Lembro de ter rezado antes de entrar. E também lembro de ter me prometido não julgar ninguém. Vesti minha melhor pose de mulher marrenta e segura de si, que foi quebrada logo na triagem da entrada quando o agente me perguntou se eu portava alguma arma. Eu estava verdadeiramente aterrorizada quando entrei naquele lugar. E, talvez por isso, o que me foi mais estranho no primeiro momento foi o cheiro de alvejante vindo do chão. O lugar era limpo. O segundo choque veio quando as presas chegaram à sala. Era gente. Gente normal, igual a mim, igual a você.

Mulheres com a idade da minha mãe, outras com a idade da minha avó e outras, as que mais me chocaram, pareciam mais novas que eu. Em determinado momento, comecei a olhar para o chão porque não conseguia evitar que meus olhos se fixassem no rosto de cada uma, imaginando a história por trás daquele uniforme.

Comecei a escrever esse texto porque tive um sonho estranho essa noite. Eu matava uma pessoa, por uma série de motivos, mas me arrependia no segundo seguinte. E então eu ia presa. Mas nossa cabeça é tão louca que a parte mais perturbadora era ver todos os meus sonhos indo para o ralo. Eu ligava para trancar a faculdade, morta de vergonha. Via todos os meus planos se desfazerem e chorava desesperada.

É engraçado como se tem a visão de que a cadeia é a escória da sociedade. A gente joga o problema lá e tenta esquecer que ele existe. Mas quando você entra num lugar como esse, a realidade se joga bem na sua cara. Ninguém está livre de acabar ali. Não tem nada a ver com cor, sexualidade ou classe social. Inclusive, na mesma semana da minha primeira visita à penitenciária, na unidade vizinha, o queridíssimo ex-governador da minha cidade havia acabado de chegar. Qualquer um pode cometer um ou mais erros e acabar ali dentro.

E sentir esse desprezo, aliado à falta de perspectiva, na pele, ainda que só por m truque do subconsciente, foi desesperador.

O que eu quero dizer é que a cadeia não devia ser o tapete para onde varremos tudo o que não queremos mais. Cadeia é lugar de gente. Gente que se desviou do que é certo, gente que perdeu a cabeça, gente mau caráter e gente boa também. Gente que foi bem educada, gente que não teve oportunidade, gente que matou a mãe, o filho, gente que roubou por que tinha fome, gente que roubou porque quis mesmo. Tem gente de todo tipo, mas, ainda assim, são seres humanos, tão humanos quanto a gente aqui fora. E deviam ser tratados como tal…

 

Bruna Paiva

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Ao meu mais recente passageiro…

Eu acredito de verdade que algumas pessoas não passam pela nossa vida por acaso. Falo daquelas pessoas que chegam de repente, passam a ter um papel fundamental na nossa vida e depois vão embora. Personagens passageiros do filme da nossa vida.

Eu já tive um bocado desses. Alguém que me mostrou que eu valia muito mais do que enxergava e me encorajou a me livrar de tudo aquilo que me fazia mal. Alguém que foi amparo num momento em que eu me sentia terrivelmente sozinha. Outro que me fez entender que eu mudei para melhor…

O meu mais recente coadjuvante temporário foi você. Que me fez sentir desejada como há muito eu não sentia. Despertou coisas que eu nem me julgava mais capaz de sentir. Que deixou o sabor de uma história leve, divertida. Que me beijou sob um céu estrelado e conversou comigo até as 4h da manhã. Que me fez um bem absurdo num momento que eu não estava tão bem assim.

E, apesar de ter sido uma experiência tão boa, você me fez perceber que o amor próprio tem que vir antes de tudo. Que não dá para fingir que está feliz quando tem alguma coisa te fazendo mal. Me mostrou que eu, que já me humilhei tanto por amor, hoje sou madura o suficiente para fazer o que sei que vai ser melhor pra mim, antes que de me machucar de verdade, ainda que doa.

Então eu te deixei ir. E me dou conta agora de que você foi realmente passageiro. Passagem breve, porém intensa.

Talvez você não faça ideia do impacto que teve na minha vida. A maioria dos meus passageiros não se dão conta. Mas eu queria que você soubesse; você e o que nós dois tivemos foi muito especial. E obrigada por isso.

 

Bruna Paiva

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10 anos de Gossip Girl e como olhar para a série em 2017

Há exatos 10 anos ia ao ar o primeiro episódio de uma série que marcou uma geração. A história dos adolescentes da elite de Manhattan que eram atormentados por uma blogueira fofoqueira e anônima é adorada por milhares de pessoas até hoje. E, apesar de ter assistido à série tardiamente (só vi GG na Netflix e em 2016!), eu me incluo na lista. Que atire a primeira bolsa Chanel quem nunca sonhou em ter a vida de Blair Waldorf. Ou quem nunca quis ter um Chuck Bass ou um Nate Archibald só para si.

A verdade é que todos os personagens são extremamente marcantes e cativam o público. (Menos a Vanessa, aquela vaca desnecessária.) Quero deixar claro que sou completamente apaixonada pela Blair, a maior rainha da série. Me encantei gradualmente pelo conturbado Chuck Bass. Torci muito pelos casais, shippo Chair até o fim da vida, Derena desde o primeiro episódio e até torcia pro Nate ficar com a Little J, mas não rolou. Eu amo os personagens e sou muito apegada na série. Maaas, todos eles têm comportamentos extremamente problemáticos que, em pleno 2017, não dá para fingir que a gente não está vendo.

ATENÇÃO!!! A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM ALTO NÍVEL DE SPOILERS, PORTANTO, SE VOCÊ AINDA NÃO VIU A SÉRIE E NÃO QUER SABER DO QUE ACONTECE, XOXO. (MAS MANDA O LINK PARA AQUELA TUA AMIGA QUE É A LOUCA DE GG)

Comecemos pela nossa famigerada Gossip Girl. Ok, tô sabendo que o blog trocou de autor algumas vezes durante as seis temporadas. Mas meu primeiro tópico vai ser o criador de todo esse furdunço. Dan Humphrey. A história dele com a Serena é uma graça até o momento em que ele resolve expor a vida da ex-namorada (além de todos os seus amigos e família, diga-se de passagem) em seu best-seller. Tudo bem que quem mandou o tal do livro para a editora foi a Vanessa (eu falei que a vaca era desnecessária!). Mas a situação não melhora quando a gente descobre que Dan Humphrey, o garoto solitário com carinha de bom moço, era na verdade a própria cobra em pele de cordeiro.

Quando ele explica para os amigos, no último episódio, como começou tudo aquilo e por que criou a blogueira anônima , tudo parece fazer sentido. Mas, pera lá, como assim??? No meio tempo em que ele ascendia socialmente, o cara expôs a garota por quem era apaixonado, que vira namorada (e casa com ele nesse mesmo episódio) a situações tenebrosas; a melhor amiga dela, com quem ele também se envolve, idem; o próprio melhor amigo dele e o pior: o cara ataca a própria família. São incontáveis as vezes em que a GG expõe Jenny e Rufus. Tudo isso por puro ego.

Gente, não tem como achar isso tudo normal. O garoto era extremamente egoísta e empatia era uma palavra que ele desconhecia. Louco, perturbado. E mais louco ainda foi a Serena ter casado com ele mesmo assim, tendo plena consciência de tudo que ele fez. Tudo bem que ele se declara para ela e no fundo o sentimento é verdadeiro… Mas, ainda assim, acho que uma Serena Van Der Woodsen em 2017 não seria tão condescendente…

Falando na Van der Woodsen. Outro tópico que não tem como não comentar é a amizade mutcho loka de Blair e Serena. Aquela relação era tudo menos saudável. Já começa tudo errado com uma pegando o namorado da outra. Elas brigavam o tempo inteiro. E não eram briguinhas bobas. Perdi a conta de quantas vezes as duas quase saíram no tapa (e algumas em que chegaram às vias de fato). Uma armava para a outra constantemente. Mandavam dicas para a Gossip Girl sobre a vida da amiga, expunham a vida pessoal uma da outra sempre que não estavam contentes com a relação. Inclusive quando Serena toma as rédeas do GG, vive falando sobre a vida de Blair. Se esse é o conceito de amizade verdadeira, Deus me livre de ter uma. É óbvio que as duas conversavam muito e se entendiam na maioria das vezes. Cresceram juntas, então o laço afetivo era muito grande. E uma ajudou muito a outra durante as seis temporadas da série. Mas, ainda assim, a relação das duas está longe de ser sadia.

E falando em relacionamentos pouco sadios… Numa época em que (ainda bem!) muito se fala em relacionamentos abusivos, será que Chuck e Blair teriam feito tanto sucesso se a série começasse agora? Vejamos, é evidente que, com o tempo, o casal amadureceu e os dois realmente se amavam quando casaram. (Eu sou apaixonada pelo casal então dói ter que problematizar, perdoa.) Mas não tem como negar que a construção do relacionamento foi absolutamente torta. O CARA TROCOU A NAMORADA POR UM HOTEL!!! Não dá para esquecer isso.

Fora todas as vezes que Chuck foi absurdamente abusivo com a Blair. Ele gritava com ela, traía, diminuía e chegou a machucar fisicamente a menina quando soube do casamento com Louis. Grande parte do relacionamento deles foi tenebrosa. Doentia de verdade. Foi só quando perdeu a menina de vez que o Bass deu valor ao que tinha. Mas se tem uma coisa que eu idolatro naquela série é a decisão da Blair de não voltar com ele enquanto não se tornasse a mulher poderosa que queria ser. Ela sabia que o amava. Mas também sabia que ele a impedia de viver os próprios sonhos e foi madura o suficiente para se colocar como prioridade na situação. É esse o exemplo da Queen B que a gente tem que seguir, meninas! Amor próprio antes de qualquer coisa.

Quando os dois voltam a se relacionar, já com promessa de casamento, ela está mais segura de si e ele consciente de toda merda que fez no passado. Tenho para mim que, depois de casados, (não vou comentar a circunstância torta em que os dois acabaram se casando porque, né) a relação foi mais saudável.

Blair de boba e inocente não tinha nada. A rainha do Upper East Side era cruel. Ela não tinha o menor pudor em passar por cima de quem fosse para conseguir o que queria. A garota era a protagonista da própria vida e qualquer um que se metesse em seu caminho não tinha a menor chance de sair ileso. Qualquer um mesmo.

Acho que o objetivo da série na real era exatamente mostrar esse comportamento desviado de quem acha que tem o mundo no bolso por causa do dinheiro. Eles podiam comprar o que quisessem e, se você não tem uma índole muito forte, fica muito propício a isso nesse mundo. O dinheiro e o poder mostram o lado mau caráter das pessoas e isso ficou claro em todos os personagens desde Little J, que se rebela contra tudo e todos por status de rainha da escola, até Louis, que no início parecia um verdadeiro príncipe encantado, mas depois mostrou quem era de verdade.

Acho que a Dorota foi a única que não se corrompeu. Apesar de compactuar com todos os planos e esquemas da Blair, ela mesma não fazia mal a ninguém. Talvez por ser uma das únicas personagens que não fazia parte daquele mundo. Ela era só a empregada, no fim das contas…

Lily Humphrey/Van der Woodsen/Bass trocou o amor pelo dinheiro inúmeras vezes e sem o menor arrependimento. Ivy Dickens e Carol Rhode armam um esquema absurdo, enganam todo mundo para roubar o dinheiro que era de Lola. Ninguém escapou das armações de Georgina. Aliás, a mulher fazia força para ser má, né? Até o próprio filho ela usou para conseguir o que queria…

Personagens problemáticos, relacionamentos piores ainda, muito dinheiro, armações e esquemas. Esse texto era para problematizar um pouco, mas não deixa de ser uma homenagem a essa série incrível que, volta e meia, eu assisto de novo. É bem verdade que Gossip Girl é bem conturbada, mas como a blogueira sempre dizia, não tem como negar: You know you love her.       

E acho que a gente sempre vai amar. Aliás, que tal uma maratonazinha para comemorar esses 10 anos da blogueira mais ardilosa do Upper East Side?

 

XOXO

Bruna Paiva

 

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Se você gostasse

Se você gostasse mesmo de mim, não teria me deixado ir naquele dia. Teria vindo atrás de mim, me segurado bem perto e insistido para eu ficar. Teria dito algo engraçado para que eu risse, mesmo estando chateada. Pedido desculpas por ter vacilado e reconhecido que era hora de darmos um rumo para a nossa situação.

Se você realmente correspondesse o meu sentimento, a distância não seria uma desculpa recorrente. E você não teria deixado que ela fosse maior ainda quando estávamos lado a lado. Você não teria se afastado, deixado de conversar comigo, ou de dar atenção quando eu chegava animada para te contar alguma coisa. Se gostasse de mim, não deixaria a gente esfriar. Não teria permitido que eu chegasse ao ponto de me sentir tão insegura com você que questionasse a minha própria existência.

Mas você deixou. Você deixou que eu acreditasse numa reciprocidade inexistente enquanto me enganava secretamente. Talvez não por maldade, quem sabe, no fundo, você mesmo quisesse acreditar naquilo. Eu sei que eu tinha certeza do que você sentia. E hoje não tenho mais certeza de nada.

Você chegou devagar, pouco a pouco foi se tornando parte da minha rotina, parte de quem eu era. Mexeu com meus sonhos, ouviu minhas confidências, segurou minha mão, dividiu pequenos detalhes e por fim se cansou. Se de mim ou de fingir interesse eu nunca entendi direito…

Bruna Paiva

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A diferença entre assédio e elogio

Cena: Menina, 17 anos, saindo do prédio num dia de calor do Rio de Janeiro. A rua é uma ladeira pouco movimentada na zona norte carioca. Ela está indo para o pré-vestibular, mochila nas costas, sol na cabeça, vai pegar um ônibus na rua transversal. Eis que o táxi descendo a ladeira diminui a velocidade até quase se igualar ao ritmo dela. O trabalhador no volante escancara a janela, mete a cabeça para fora e grita “tá de parabéns, hein, gostosa”. Ela revira o olho, mas ignora. Ele repete e ela precisa respirar fundo para não responder. E então, escuta um barulho alto. Quando olha para trás, vê que, prestando tanta atenção nela, o taxista esqueceu de olhar para a rua e acabou batendo no carro parado na frente. Ela ri bastante, o cara fica puto.

A história acima aconteceu com uma amiga minha. Ela postou no Twitter e eu achei bem engraçado. Acontece que, quando passei adiante, ouvi muito os seguintes argumentos: “você tá achando engraçado? É o instrumento de trabalho do cara”, “ele tava só elogiando a garota, não fez nada demais”, “o cara faz um elogio e vocês desejam o mal dele?”, “ele deve ter levado o maior prejuízo e ela ainda riu na cara dele?”.

De fato, é o instrumento de trabalho do cara. E certamente ele teve um prejuízo. Mas, queridos, eu acredito bastante em carma. O que você faz nessa vida, seja bom ou ruim, volta. De uma forma ou de outra, volta. E para aqueles que ainda têm uma certa dificuldade em diferenciar elogio de assédio, deixa eu tentar ser bem clara e didática.

Se você quiser elogiar uma mulher desconhecida na rua, aqui vai um tutorial. Chegue desarmado, sem essa tua marra de quem acha que come todo mundo mesmo. Olha no olho dela enquanto fala. Diz que ela é bonita, que gostou do jeito que ela se veste, que o perfume é bom, que ela tem um sorriso lindo, fala para ela o que chamou a sua atenção. Mas, antes de falar, pense dez vezes se o que você pretende dizer pode soar ofensivo. Não encosta nela enquanto fala a não ser que ela te dê liberdade para isso. (E, não, a roupa dela não é código para você saber se pode ou não pôr sua mão ali)

Se você chegou numa boa, foi simpático, elogiou a menina de verdade e esperou a reação dela sem pressão, você tem alguma chance de ela te achar legal e te dar uma atenção. Mas se ela disser não, querido, paciência, a vida é assim mesmo.

Quando você grita “e aí, gostosa”, “princesa”, “ô, lá em casa”, ou coisas do gênero para qualquer uma na rua, isso NÃO É um elogio. Você está sendo escroto, babaca, machista e imbecil, no mínimo. Esse tipo de coisa ofende. Não porque a gente não se ache gostosa, pelo contrário. Mas porque a gente se sente exposta, nua, suja e impotente. Parece que você é um pedaço de carne no açougue à disposição de quem quiser levar. E ofende porque a gente sabe que é muito mais do que isso; e queremos ser vistas e tratadas com respeito.

Você não tem o direito de assediar ninguém na rua só porque acha que tá tudo bem. Porque pra você pode até estar tudo ótimo. Mas para a gente não fica. Surgem um milhão de questões na cabeça. Dúvidas sobre o nosso valor e capacidade de chegar onde queremos.

Muita gente tenta educar homens falando “podia ser a sua mãe, sua filha ou sua irmã”. Mas a verdade é que o assédio não é errado porque você tem uma mãe, filha ou irmã. O assédio é terrível porque nós somos seres humanos; tão capazes quanto vocês. E merecemos respeito e liberdade para viver em paz, assim como vocês.

Bruna Paiva

 

 

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Onde o feminismo se aplica na sua vida?

Imagem: Pixabay

Dia desses ouvi um estranho na rua discursando sobre como o feminismo é desnecessário, radical e só quer fazer com que mulheres tenham mais direitos que homens. Eu não me meti na conversa em parte porque não tinha energia para aquilo no momento, parte pela boa educação que meus pais me deram. Acontece, que o que aquele estranho não sabia era que logo ao seu lado, havia alguém se sentindo poderosamente feminista naquele dia.

O feminismo está na luta, na militância? Está, sim. E ainda bem que existem mulheres incríveis dispostas a dar a cara a tapa por todas as outras. Mas o feminismo também está presente em coisas pequenas, do dia a dia.

Naquela tarde, eu vesti a roupa que eu quis, me arrumei toda, olhei no espelho e pensei “meu Deus, que mulherão da porra”. Depois eu saí, sozinha, com o meu dinheiro, encontrei com uma amiga e me diverti a tarde inteira sem dar satisfação para ninguém. Fizemos o que tivemos vontade e depois voltamos para casa. Coisa boba, nada demais, mas eu voltei no metrô (o mesmo em que encontrei o distinto senhor do início do texto) me sentindo incrivelmente livre e feliz.

E o feminismo está aí, em me olhar no espelho, vestindo a roupa que eu gosto, achar ótimo e sair sem dar atenção para o que qualquer um acha do jeito que me visto. No prazer de ter o meu próprio dinheiro e fazer dele o que eu bem entendo. Na segurança em afirmar que um relacionamento, hoje, está longe de ser prioridade na minha vida. O feminismo está nos planos e objetivos que eu traço para mim. No entendimento de que eu sou a pessoa mais importante da minha vida, mesmo. No fato de que agora eu estou postando esse texto e falando sobre esse assunto num espaço que é meu e ninguém tem nada com isso.

O feminismo está na liberdade. Em, finalmente, poder afirmar sem medo que sou apaixonada por mim. Em ponderar as situações e tomar, eu mesma, as decisões importantes da minha vida. O feminismo está na minha avó, que vai me matar quando ler isso, mas, sem tomar consciência, é um dos maiores exemplos feministas da minha vida. Uma mulher que criou três filhos sozinha, que apanhou muito da vida e que hoje, aos 71 anos, é livre, ativa e faz de si o que bem entende.

O feminismo é fundamental e nos permite tomar as rédeas de nossas próprias vidas. Nos faz entender que somos capazes de qualquer coisa. Nos permite acreditar em nós mesmas. E talvez isso incomode; mulheres se unindo, se espelhando umas nas outras para chegarem aonde tiverem vontade. E justamente porque ainda incomoda é que precisamos mais dele. Por causa do feminismo, hoje, eu sei exatamente o que quero da minha vida e luto por isso. Porque eu sei que posso e consigo.

Bruna Paiva

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Pega, mas se apega, sim!

”Da sombra daquele beijo

Que farei, se a tua boca

É dessas que sem desejo

Podem beijar outra boca? ”

(Manuel Bandeira)

 

Nunca gostei da ideia vazia de ficar com qualquer um, em qualquer lugar. Isso de pegar sem se apegar, de ir para a balada e ficar com dois, três, ou mesmo só um com quem você não tem a menor intimidade, não tem graça nenhuma.

Eu respeito o pensamento, mas nunca me encaixei no time do “pega, mas não se apega”. E, às vezes, acho que, se tivesse essa capacidade, minha vida seria realmente mais fácil. Me pouparia de boa parte da minha coleção de estresses e decepções.

Mas eu não consigo. Gosto de conhecer as pessoas. De sentar, conversar e descobrir o que temos em comum, quais as nossas diferenças, o filme bobo que ele mais gosta, falar daquela música que eu amo… Gosto de frio na barriga, de mão suando e coração acelerado.

Gosto da vontade que vai crescendo a cada conversa. De sentir minha pele arrepiando quando me encosta. Da tensão pré-beijo e do formigamento enquanto sua mão me percorre. Gosto de beijo com desejo, com sentimento de “até que enfim”.

Eu gosto de perder o fôlego. De pele na pele e dedos entrelaçados. Gosto de sorriso compartilhado, de olho no olho, conversa banal e piadas internas. Eu gosto do sentimento, do algo a mais. Gosto de parceria, segurança, de saber que tem alguém ali….

Você tem todo o direito de não querer se apaixonar, apesar de estar sempre “pegando” alguém. Mas não venha tentar me convencer de que tudo isso perde para um beijinho de balada em quem você mal sabe o nome.

Bruna Paiva

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Tempo presente

Eu esbarrei com o passado, bem no meio do meu presente. Tropecei nele durante a rotina.

De início, minha cabeça adolescente me fez acreditar que aquilo era obra do destino. Que a vida havia planejado as coisas dessa forma, desde o primeiro momento.

Me peguei romantizando demais a coisa. Na verdade, me forçando a acreditar na absurda ideia de que “era para ser”. Mas o êxtase nostálgico se dissipou.

Me dei conta de que, por mais importante que tenha sido, o lugar do passado é lá mesmo; ou ele deixa de poder ser definido dessa forma. Percebi que o tempo me mudou. E eu gosto do que me tornei. Voltar para uma história em que eu já conheço o final não é uma escolha inteligente a se fazer.

E então eu decidi que o presente é onde eu quero viver.

Dei um abraço no passado, reconhecendo que sem ele eu não teria crescido tanto. Deixei que ele fosse. Sem mim. De volta somente às minhas lembranças. Onde é realmente seu lugar.

E então voltei para o caminho do meu presente. Que é o tempo que realmente importa.

Bruna Paiva

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Só mais uma pra conta

O mundo não acabou. A vida não deu stop. O ar continua invadindo meus pulmões. Meus órgãos não desintegraram. O chão segue firme sob meus pés. A música no bar nem mesmo baixou de volume.

Mas dessa vez eu não fui surpreendida pela falta de mudança exterior. Sabia que não era o fim de nada além de mais um “nós” que nem era tão plural assim. Dessa vez, não chegou a doer. No máximo um incômodo que perturba um pouco, mas logo passa. Afinal, não foi nada de extraordinário, nada fora do costume.

Só mais um punhado de expectativas quebradas. Mais uma vez em que senti demais por quem sentia de menos. Talvez a culpa seja mesmo minha por me entregar demais, esperar demais. Mas que posso fazer se é só desse jeito que sei sentir?

Pelo menos, de certa forma, já aprendi a lidar com as pequenas decepções que me assolam de vez em quando. A velha receita sempre funciona: focar em outras coisas, encontrar um bom livro, sair com uns amigos e achar motivos para rir até machucar a barriga. E a dor que não for física a gente transforma em arte.

Bruna Paiva

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O que deu errado no mundo?

Quando uma pessoa resolve se matar, algo está errado no mundo. Tão errado que fez alguém se convencer de que o mais acertado a fazer era tirar a própria vida. Triste. Devastador.

Quando alguém decide que no momento de seu suicídio vai levar outras pessoas, desavisadas, consigo, algo está muito errado no mundo. Egoísta. Imperdoável. Calamitoso. A prova de que a raça humana não entendeu nada sobre a vida, que nossa racionalidade é absolutamente questionável.

Quando uma pessoa resolve explodir uma bomba num estádio lotado de crianças e adolescentes sonhadores, que contaram os dias para assistir à apresentação da artista que admiram, algo está catastroficamente errado no mundo.

Se a parcela mais sonhadora da humanidade tem sua esperança surrupiada, que fazemos nós que já estávamos enojados há tempos? Se não se pode ser criança em paz, se divertir num evento com que tanto se sonhou, se não podemos acordar sem medo do que nos espera, sair na rua sem a tensão de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, para onde mais se anda? O que esperar de um futuro sem refúgio?

Se vinte e duas vidas roubadas num momento de lazer, se um ataque terrorista num estádio lotado de crianças é só mais uma tragédia para a estatística. Se o mal está tão banalizado que perdemos a capacidade de reagir a esse tipo de fatalidade, de ir além do simplesmente se chocar e passar à próxima notícia, algo está terrível e, quiçá, irremediavelmente errado no mundo.

Bruna Paiva

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