Síndrome de Branca de Neve

 

Dia desses lembrei de um episódio da minha infância que me fez pensar muito sobre a forma como a sociedade cria suas meninas. Mais de uma década atrás eu passava por isso, mas só hoje a lembrança me fez refletir de maneira crítica sobre o significado daquilo.

Eu não tinha mais de dez anos de idade quando fui a uma festa de quinze anos pela primeira vez. O aniversário era da irmã de uma amiguinha minha, nossas famílias eram próximas, então o convite foi natural. Lembro da roupa que estava vestindo, um vestido cinza com a saia super rodada e um bolerinho branco (sim, o bolerinho estava na moda. Estou cada vez mais velha.), uma gracinha de criança, parecia uma princesa.

A festa era no Alto da Boa Vista, um bairro caríssimo no Rio de Janeiro, cheio de mansões que funcionam como casas de festa. Lembro de uma festa extremamente produzida, com várias estações e um roteiro super ensaiado. Na primeira estação da festa, houve uma cerimônia religiosa. E é aqui que começa esse episódio que foi tão marcante na minha infância, mas que até hoje eu nunca compartilhei com ninguém.

Logo atrás de mim e minha família estava um menino que, na minha memória, me parece um homem bem crescido, mas, como os fatos a seguir mostrarão, devia ter entre 14 e 17 anos. O menino vestia um terno simples e tinha ares de príncipe encantado. Tinha um cabelo brilhante, um sorriso bonito e, de acordo com a visão da Bruna de 9 ou 10 anos, um charme incomparável. Ali, naquele momento, me apaixonei perdidamente e, como não o conhecia, na minha cabeça seu nome passou a ser: meu príncipe.

Durante todo o resto da festa, acompanhei cada movimento do meu príncipe pelo salão. Observei-o de longe, sonhando, criando expectativas e alimentando a certeza de que aquele menino era minha suposta alma gêmea. Em momento nenhum externei isso para ninguém que me acompanhava na festa. Aquele foi um episódio silencioso da minha infância. Uma experiência de paixão platônica repentina que pareceu muito clara na minha cabeça durante aquela noite. E talvez nem tivesse me marcado tanto se o desenrolar da história não fosse tão traumático:

Em determinado momento da festa, perdi meu príncipe de vista. Não conseguia encontrá-lo em nenhum canto do salão. E então começou o cerimonial. Homenagem vai, homenagem vem, foi chegada a hora da valsa da debutante. E o que aconteceu a partir daqui acabou com a minha noite. Anunciado pela cerimonialista com toda a pompa e circunstância, desce de uma escada que dava para a pista de dança o príncipe da debutante (não lembro mais o nome, mas chamaremos de Felipe). O príncipe Felipe agora vestia um smoking e trazia um buquê de rosas vermelhas para a aniversariante, que aceitou e dançou uma valsa com o menino que até aquele momento era o MEU príncipe encantado. Meu mundo caiu e a festa deixou de ser tão divertida.

Apesar de hoje achar essa história engraçada, revisitar essa memória me fez querer entender de onde vem isso. De onde vem esse impulso que faz uma criança de dez anos olhar para o primeiro garoto bonito e mais velho que vê pela frente e decidir que ele é seu príncipe encantado? De que forma essa cultura impacta a vida das pessoas e, principalmente, das mulheres em formação? Porque eu pelo menos posso garantir que, na minha vida, esse não foi o último episódio de endeusamento de um homem que eu mal conhecia seguido por uma decepção cortante.

Por mais que eu me esforce, não consigo encontrar, pelo menos em mim, uma fonte específica para essa questão. Me parece algo tão bem formulado que se entranha na gente e nos faz acreditar que é um instinto natural. Mas será? Porque eu sempre assisti aos filmes de princesas, mas também sempre achei o Peter Pan mais legal. Eu sempre vi Sítio do Pica Pau Amarelo e gostava mais da atrevida Emília que da romântica Narizinho, mas também sempre tive uma queda pelo Pedrinho. E de onde veio isso?

Meus pais nunca me negaram um brinquedo “de menino”, mas eu tinha vergonha de pedir o lava-jato da hot wheels. E de onde vem isso? Na minha infância as leis contra publicidade infantil não eram ainda tão rígidas, mas será que é só isso? Será que é possível rastrear verdadeiramente o que faz com que mulheres (crianças, adolescentes e adultas) acabem depositando em homens a esperança de um salvamento? Essa síndrome de Branca de Neve é implantada na gente tão cedo que eu, aos 22 anos, ainda não entendo bem  que me levou ao episódio daquela noite e tantos outros dali em diante.

 

Bruna Paiva

 

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Sobre homens e bebês

 

Quantas pessoas você conhece que foram abandonadas pelo pai, seja física ou afetivamente?

Uma das coisas que eu mais estranhei quando estive na França foram os homens com seus bebês. Pais nas ruas com suas crianças, de todas as idades, às vezes mais de uma. Andando de bicicleta, brincando nas pracinhas, passando nos mercados… Pais sozinhos com suas crianças pelas ruas parisienses. Quando se via um casal hétero com sua criança, na maioria dos casos, era o pai quem empurrava o carrinho.

Tudo bem, não é que não exista tal cenário no Brasil. Eu mesma tive e tenho um pai maravilhoso, que esteve presente em todos os momentos importantes da minha vida. Mas, convenhamos, essa não é uma realidade majoritária no país. Em 2013, segundo o Huffpost Brasil e o Instituto Brasileiro de Direito de Família, 5,5 milhões de crianças brasileiras sequer tinham o nome do pai em sua certidão de nascimento.

Se você vai a um shopping, a um parque, a um restaurante, aqui no Brasil, é muito mais provável que encontre um número muito maior de mães sozinhas com suas crianças do que pais. O que me chamava atenção na França era justamente que, pelo menos nas ruas, ficava muito claro que essa realidade lá é bem diferente. Passei 10 dias em Paris e confesso que não houve um em que eu tenha deixado de reparar nessa questão. A cada vez que eu pisava na rua lá estava um pai com sua criança, da maneira mais natural e rotineira possível. Não parecia ser nada extraordinário por lá. Apenas pais, fazendo sua obrigação de pais.

Lembro inclusive de ter me sentido mal por aquela questão me chamar tanta atenção. Afinal, é exatamente naquilo que eu acredito. Pais e mães com funções semelhantes, criando os filhos em conjunto, como é a obrigação de quem coloca um filho no mundo. Mas a quantidade era o que me assustava. Porque não, não é o que vemos por aqui.

Não estou assumindo aqui uma postura de “tudo é melhor fora do Brasil”, até porque não acredito nisso. Amo meu país, apesar dos pesares, e ainda acredito no potencial de crescimento que temos aqui. Assim como, durante minha estadia na França, certos aspectos culturais também me incomodaram. Mas esse foi um aspecto que eu invejei, algo que eu não pude deixar de observar a todo o tempo.

A barreira linguística ainda me impede de investigar a fundo a questão na França. Ainda assim, acredito que a situação econômica do país e a menor desigualdade social, sejam grandes responsáveis pelo que eu observei nas ruas por lá. Mas isso é só um palpite meu. Não achei nenhum artigo sobre o assunto e, como não entendo francês, a coisa fica ainda mais dificultada. Inclusive, se você conhecer algum dado sobre a paternidade na França, algum artigo traduzido, seja para o português, para o inglês ou mesmo para o espanhol, me mande! É algo que muito me interessou e eu gostaria de saber mais.

Seja lá qual for a causa dessa paternidade mais presente e responsável, espero que um dia ainda durante minha vida o meu país chegue lá também. Que um dia eu saia na rua e veja pais e mães em quantidades semelhantes cuidando de seus filhos. Sei que estamos caminhando para isso, pelo menos na minha humilde bolha social. Mas espero que um dia a população como um todo consiga reverter nossas estatísticas.

 

Bruna Paiva

 

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Insônia, quarentena e BBB

Não durmo mais. Há quatro ou cinco dias eu não sei mais o que é um sono tranquilo que começa de noite e só termina no meio da manhã. Logo eu que sempre apaguei onde encostava; eu que num tempo longínquo dormia nas escadas da academia de dança entre uma aula e outra, com toda a barulheira do sapateado na sala de cima; eu que sou mestre em cair em sono profundo assim que sento no ônibus; eu que durmo no meio de todo e qualquer filme que assista; eu que não aguento 5 minutos de leitura à noite antes de dormir…

Sim, eu fui acometida pela insônia da quarentena. As noites são longas. Tudo na cama me incomoda. Tira lençol, bota lençol. Travesseiro muito alto, agora muito baixo. Dor na coluna. Vira de ladinho, ruim. De costas, ruim. Bruços, impossível. Travesseiro no meio das pernas, quando vira de posição agarra no lençol. E assim a noite passa. As pequenas cochiladas entre um incômodo e outro me trazem sonhos estranhíssimos que ou não fazem sentido nenhum ou me deixam triste.

Não é falta de exercício físico. Não é falta de trabalho. Não é falta do que fazer. Não é a situação alarmante do mundo inteiro; mas pode ser.  Não é o fato de um vizinho ter morrido de corona; mas pode ser. Não é o ódio genuíno que eu sinto pelo presidente desse país e seus apoiadores; mas pode ser que seja. Não é o confinamento e convivência de 24 horas com a família; mas pode até ser. Não é a intensidade disso tudo, que faz uma semana parecer um mês; mas será que é?

O Fantástico disse que é preciso pegar o sol da manhã para que seu corpo entenda que está de dia e produza os hormônios que bla bla bla e isso pode te ajudar a dormir a noite. Hoje acordei cedo e sentei no primeiro feixe de sol do sofá. Vitamina D deve fazer falta, realmente. Minha psicóloga aconselhou a usar máscara nos olhos. Só tenho esse novo modelo da moda, a que cobre nariz e boca. Será que é só subir um pouquinho? Dizem que o celular atrapalha também.

Mas eu acho mesmo é que o Big Brother tinha que ser transferido para as 18h. Não faz sentido ficar até onze e meia da noite com adrenalina desenfreada no sangue na esperança de que o Babu venha a ser líder; para logo depois me frustrar e precisar dormir com esse sentimento horrível. Talvez, se o Boninho fizesse logo a tal prova de quem imita melhor o Tim Maia, meu sono voltasse ao normal. Fica aqui o apelo.

 

Bruna Paiva

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Um bolero

Um bolero. Em meio ao vai e vem desenfreado, um clássico bolero latino invade os ouvidos de quem entra, senta e espera a próxima parada. Um bolero apaixonado, lento, sentido do fundo da alma de quem toca e canta. E da senhora ao lado da porta.

Uma idosa distinta, bem arrumada, bem penteada, bem pintada. Sentada sozinha no banco destinado a quem tem prioridade por já ter vivido tanto. Os olhos vidrados no músico, do outro lado do vagão. Os ombros deixando-se levar pelas notas; tão discretamente que poucos distinguiriam a dança do sacolejo da viagem. Um e dois e um e dois. Os lábios acompanhando, silenciosamente, a ardorosa letra enquanto os olhos, marejados, por vezes se fecham absortos.

O salão. O chão riscado com os sapatos. O amor ardente transmitido em tantas danças, durante tanto da vida. A cada sexta-feira à noite, o baile tão esperado por toda a semana do casal. A quebra rotineira da rotina de uma vida simples, difícil, mas sempre celebrada, sempre dançada. A paixão compartilhada que por tantas vezes salvou o amor também dividido. E que nunca mais fora a mesma; que nunca mais viria a ser.

A dança que era um terceiro elemento no casamento tão sonhado, e tão bem vivido graças àquelas sextas-feiras. A dança que era regra em cada festa de família, aniversário e domingo a tarde na sala de casa. Que encantou os filhos, os netos e quase conseguiu ser apresentada aos bisnetos. A dança que selava o pacto renovado a cada nova música, por tanto tempo que às vezes a memória já falha. A dança que a fazia sentir que a idade não existe, que o amor verdadeiro se lembra ainda do perfume sentido no primeiro abraço. A dança de que tanto sentia falta desde a partida de seu grande amor.

A saudade de toda uma vida contida em três minutos de bolero. A lembrança de toda a felicidade compartilhada e ainda hoje vivida ao lado dos frutos daquele amor. O peito apertado pela dor de se despedir mais uma vez de quem sonhou e viveu ao seu lado. O luto duplo revivido, mas não lamentado.

Uma nota pescada na carteira recompensa o músico pela oportunidade de reviver alguns minutos de uma vida tão gostosa. A viagem segue com a certeza de que a vida merece ser vivida intensamente até o fim. E, depois dele, quem sabe voltemos a dançar…

 

Bruna Paiva

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Confissões da quarentena 2.0

Mês passado eu precisava ter arrancado um dente. Um siso que me castiga desde os quinze anos de idade e que eu adiei tanto arrancar até chegar num estado crítico, e agora não tem mais jeito. Tomei coragem, marquei para março. O dente continua aqui. De quarentena.

Mês passado eu precisava ter feito um exame importante para acompanhar a protusão-que-pode-vir-a-ser-uma-hérnia-de-disco que os anos de dança causaram na minha coluna. Além voltar para o tratamento de reprogramação postural. Não deu tempo também. Mas as dores na coluna não entraram em quarentena. Estão aqui, firmes e fortes. Tenho feito exercícios em casa, mas já aconteceu de não conseguir levantar da cama durante essa quarentena.

Vinha pensando em cortar meu cabelo. Será que corto? Será que não? Vou marcar para março. Não! Abril! É isso, em abril eu corto. Mas será, mesmo? Faz tanto tempo que eu não vejo ele assim, grande… Mas eu também gosto tanto dele bem curtinho. A quarentena decidiu. Por enquanto, vai crescer.

Estou frustradíssima pela provável anulação de todas as festas juninas desse ano. Creio que poderíamos deixar instituído que, depois de tudo isso, paçoca, quentão, bolo de milho, pudim de tapioca, canjica, cocada, pé de moleque, milho cozido, pamonha e afins serão aceitos independente do calendário. Além é claro de quadrilhas (dançadas, por favor), botas e chapéus de caubói, camisas xadrez, Maria Chiquinha, vestido de chita, e muito olha pro céu meu amor. A decoração de Natal podia ser junina, a ceia também, é claro. Muito mais brasileiro seria.

Eu tinha marcado de ir à praia com meu namorado. Depois de quase dois anos juntos, eu finalmente o convenci a ir à praia comigo. Não é bem a praia dele, sabe? Seria um domingo gostoso à beira mar. Mas foi instaurada a quarentena, bem naquele fim de semana. Nada de praia por enquanto. Agora só no próximo verão (o que no rio de janeiro é quase todo dia a não ser nossas duas semanas de garoa e ventinho). Ou tomara que o universo conspire e que o primeiro dia pós-quarentena seja um domingo de sol.

A viagem romântica que faríamos no nosso aniversário de também não tem mais previsão de acontecer. O campeonato de pole dance para que comprei os ingressos e vinha contando os dias para assistir foi cancelado. A prorrogação do meu contrato de estágio também se enrolou toda. Não sei mais qual vai ser o rumo da minha vida acadêmica em 2020.

Muita coisa parou pela metade na minha vida por causa da quarentena. Mas qual o remédio? Deixar que 5 ou 7 mil pessoas morram como se fosse natural e inevitável não me parece razoável… sigamos em casa. E me chamem para natais juninos.

Bruna Paiva

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Confissões de Quarentena:

  • Estou presa em casa desde que voltei da psicóloga no dia 16 de março. Fui à consulta sob protestos da minha mãe. Ainda havia movimento nas ruas e isso começou a me deixar preocupada. Já são duas semanas de isolamento social desde então. A terapia tem sido feita online.

 

  • Comecei a ficar assustada de verdade quando meu namorado foi dispensado do trabalho para entrar em quarentena. Ele trabalha em shopping, não folga nem no Natal.

 

  • Temos comido bem. A falta do que fazer tem feito todo mundo procurar a cozinha para passar o tempo. Até quem nunca pisou lá resolveu se arriscar. A cada dia fazemos um prato elaborado diferente. Talvez seja a parte mais gostosa dos dias.

 

  • Pensar nos moradores de rua tem me deixado mal. Com as ruas vazias e os estabelecimentos fechados, não há para quem pedir. Não há quem se compadeça no meio da rotina, quem se desprenda de uma moeda, quem possa comprar um prato de comida. Talvez essas pessoas morram de fome antes de entender por que ninguém mais sai de casa…

 

  • Já assisti a tantos filmes que no momento estou odiando finais abertos. Preciso de desfechos, de finais felizes, ou tristes, mas finais que encerrem as histórias. Me indiquem filmes que de fato acabem, por favor.

 

  • Não consigo mais assistir a noticiários constantes. É desesperador. A cobertura integral me dá náuseas. Ataca minha ansiedade e me deixa atordoada sem saber o que fazer, agoniada por não poder pisar na rua, angustiada pelo futuro. Me limito ao Jornal Nacional. Uma vez por dia está de bom tamanho.

 

  • Tenho feito aulas de dança online ainda que o pouco espaço do meu quarto faça a coisa toda parecer meio ridícula. Sinto saudade de aulas em espaços amplos, com contato com os professores, risadas nos corredores e empolgação em grupo para pegar coreografias. Talvez, mais do que nunca, esteja dando o devido valor a tudo isso.

 

  • Tenho medo da irresponsabilidade imbecil do presidente da república e seus seguidores. Medo pela minha avó, meus tios, meus pais, meus ex-professores e por mim e meus amigos também. E tenho sorte de estar presa em casa com pessoas que pensam como eu. Passar a quarentena com quem defende que tudo volte ao normal, arriscando a vida de tanta gente… provavelmente me enlouqueceria.

 

  • Estou aproveitando o momento para ler. Uma coisa que vinha me incomodando há muito tempo era meu ritmo de leitura. De alguns anos para cá, ele diminuiu. A vida adulta vai ficando mais corrida e o total de livros lidos no fim do ano cai bastante em relação à adolescência. Minha meta esse ano era aumentar a média. Talvez a quarentena me ajude a conseguir.

 

  • Queria aproveitar para estudar francês, mas não fiz isso ainda. Também queria arrumar todo o meu armário e as coisas que deixo para depois há tanto tempo. Mas essa cobrança de ter que fazer algo produtivo o tempo inteiro também é bastante angustiante. Parece sempre que o tempo não é suficiente para nada, ainda que seja todo o tempo que temos.

 

  • Tenho cuidado da minha pele e do meu cabelo mais do que nunca. Todo o tempo que eu sempre quis para me dedicar a esse tipo de coisa agora está aqui. E é gostoso cuidar de mim mesma.

 

  • Quando isso tudo acabar eu quero ir ao cinema. Passear num shopping, assistir a um filme e lanchar depois. Ir até a feira da Glória só pra comer um pastel, passar uma manhã ou uma tarde na praia, assistir a um show, almoçar com a família completa. Ver gente, ver vida no mundo, ver arte. Quero tudo de volta ao normal, em segurança. Mas para isso, é preciso ficar em casa…

 

Bruna Paiva

 

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O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

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Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

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Escritores Anônimos em bloqueio criativo

O salão é maior do que o necessário, mas o ambiente é agradável. Sentamos numa roda de
cadeiras plásticas e todos se olham nos olhos. Alguns trazem bloquinhos e caneta, outros se
renderam à tecnologia. Uma parte parece animada. A outra, abatida pelos truques da própria
mente.
— Eu sou D. M. Ramalho e há 27 dias eu não consigo passar nada para o papel.
— Meu nome é Beatriz Coelho e eu estou há 301 dias sem conseguir escrever sobre o amor.
— Meu nome é Mauro Toledo e faz 94 dias que eu deixei de ser poeta.
— Por vontade própria? — Pergunta o mediador.
—Por bloqueio. —Mauro responde. — Não sai nada.— O círculo se encara, tenso. Uma gota
de suor escorre pelo rosto de Maria.
— Isso não quer dizer que você deixou de ser poeta. Todo bom escritor passa por isso. — A
tensão se afrouxa levemente até que alguém diga:
— Eu li sobre uma escritora que teve um bloqueio de 50 anos.
— Eu conheço um que ficou 10. — o autor ao lado se manifesta.
— Imagina, 50 anos sem escrever? — um desesperado se se altera, no extremo oposto do
círculo.
—Eu vou morrer de fome… — Maria choraminga na cadeira, entortando a coluna.
O burburinho começa. 50 anos sem escrever. É possível passar 50 anos sem que a mente faça
aquilo que ela decidiu que queria fazer para o resto da vida? 50 anos falhando em algo antes
tão simples.
—Vocês já tentaram escrever sobre isso? — Alguém levanta a voz em meio às conversas
paralelas.
— Sobre não conseguir escrever? — Mauro se interessa. Como não pensara nisso antes? O
bloqueio era tão forte que nem mesmo a solução mais fácil lhe passava pela cabeça.
— O último dos recursos. — Um impressionado profetiza.
—Eu tenho 7 textos sobre isso. Todos uma merda. — Lopes cruza as pernas.
— Sabe o meu maior problema? — Valéria toma a palavra. — Não é a questão do não
conseguir escrever. Eu escrevo — Ela folheia o caderno, cheio de anotações. — Mas eu não
acho nada bom. Já achei um dia. Mas, hoje, tudo que eu passo para o papel me parece
imaturo, pobre, indigno da leitura de qualquer um.

—Por que não traz aqui para lermos?
Valéria os encara, muda. Tem vergonha. De uma hora para outra, passou a se sentir exposta
pelo que escreve. A dar importância maior ao que é possível que o outro fosse pensar sobre
ela, caso lesse seus escritos. E, por isso, aprisionou cada um deles naquele pequeno caderno
em que não era capaz de terminar nenhuma linha iniciada.
— Melhor não. — Ela olha para chão.
— Vocês sabem que ao fim de cada reunião eu trago um prompt. — O mediador volta a falar.
—Eu nunca entendi essa palavra. — Alguém murmura.
—Eu também não. — Um sussurro responde.
O mediador faz uma careta. É complicado lidar com um coletivo de egos frustrados.
— Uma sugestão, dears. Um tema para instigar vocês a voltarem a escrever. É esse o objetivo
maior de nossa troca. Que um incentive o outro a partir de sua própria experiência.
— Eu não me sinto incentivado por um monte de gente que não consegue mais escrever. —
Fabrício debocha e logo recebe olhares revoltados.
— O que faz aqui então? — Alguém grita.
—Se é tão superior porque não senta e escreve? —Outro revoltado se altera e então começa o
burburinho.
— O prompt de hoje é Desejo e Dilema! — O mediador sobe o tom, mas dessa vez a discussão
não cessa.
E voltamos ao caos que encerra cada reunião. Afinal, é ele o que de fato motiva cada um que
volta, a cada quinta-feira, na vã esperança de que esse encontro magicamente o faça voltar a
saber escrever.

Bruna Paiva

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Cinco minutos

— Vai logo, Michele!

— Calma. Pega meu celular aqui.

— Gente, qual a dificuldade de mijar num palitinho?

 

Michele respirou fundo e não respondeu a irmã mais velha da forma como gostaria. Não bastava o estresse emocional de precisar passar por aquela situação num banheiro público. Agora, graças a Rayane, também precisaria lidar com o fato de todas as mulheres no banheiro mais frequentado do maior shopping da cidade saberem de sua incerteza. E se alguma conhecida de sua mãe aparecesse?

 

Pediu que a irmã pegasse o celular porque o aparelho não parava de apitar com as mensagens de Jean. É claro que o menino devia estar tão nervoso quanto ela, mas não ajudava nem um pouco perguntando sobre o teste a cada quinze segundos. Querendo ou não, aquele era um momento só dela, por mais assustador que fosse.

 

— Rayane, cala a boca. Por favor! — Pediu com a voz embargada e a irmã se aquietou.

 

Respirou três vezes, encarando a caixinha que comprara na farmácia do shopping, mesmo. Abriu a embalagem e leu as instruções. Um tracinho, negativo. Dois tracinhos, positivo. Se der positivo, pode ser falso, precisa fazer outra na semana que vem. E se o negativo for falso? A probabilidade de acerto do teste é de 99,99%. E se ela fosse o 0,01%? Dezessete anos atrás, sua mãe fez um teste que teve resultado negativo e, ainda assim, Michele nasceu.

 

Pegou o instrumento. Parecia um termômetro. A diferença era que o resultado no mostrador não podia ser resolvido com dipirona. Michele abaixou a calcinha, segurou a saia e posicionou o palitinho no lugar estratégico. A mão tremia e a respiração faltava. Fechou os olhos embaçados e fez o que devia ser feito. Fechou a tampa e esperou.

 

Pensou em sair da cabine e esperar o resultado com a irmã. Mas a cabeça rodava demais para isso. Era preciso estar consigo mesma. Sentou-se no vaso, com a tábua abaixada e pôs a cabeça no joelho. Seriam os cinco minutos mais longos de toda sua vida.

 

Pensou em Jean, no início do namoro no oitavo ano, duas crianças que se apaixonaram com a convivência diária. Lembrou de quando iam ao cinema, levados pelos pais, e quando matavam aula escondidos para ficarem juntos. Lembrou de cada virada de ano que faziam questão de passar juntos, desde o início do namoro. Lembrou de quando contou que a menstruação tinha atrasado uma semana, de como, mesmo com o olhar apavorado, ele disse que apoiaria qualquer decisão que ela tomasse.

 

Mas Michele não queria ter que decidir nada. Era uma decisão grande demais. E as duas opções existentes eram tenebrosas. Ter um filho aos dezessete anos, sem o Ensino Médio completo e nenhuma perspectiva de futuro nem condição de criar a criança era tudo o que ela não queria. Submeter-se a uma clínica clandestina, pagando um dinheiro que nem sua família, nem a de Jean tinham, e ainda correr o risco de morrer no processo, também parecia um filme de terror.

 

Conseguia imaginar os piores cenários possíveis para ilustrar a reação de sua mãe ao descobrir. Em todos, a cara de decepção era a mesma. Como levar essa notícia para a família? Tanto a dela quanto a de Jean ficariam desesperadas…

 

E as mudanças em seu próprio corpo? Absolutamente tudo que conhecia em si mesma mudaria. Aquela transformação é tão radical e bruta para o corpo da mulher que ela ainda nem era… Já suava frio de pensar na hora do parto e de toda a dor que com certeza sentiria. Michele não queria passar por nada daquilo.

 

Era aterrorizante a perspectiva de ter que lidar com as consequências de algo que ela sabia que era culpa sua. Sua e de Jean. Os dois foram irresponsáveis, priorizaram um momento em vez de pensar racionalmente. E, agora, os dois seriam obrigados a encarar tudo o que aquela decisão acarretava.  

 

Como terminariam os estudos? Como ela faria a faculdade de odontologia com que sonhava? Como conseguiria realizar os sonhos de fazer um intercâmbio, um mochilão e conhecer o mundo? De que forma seguiria com os planos traçados para a própria vida, sendo atropelada por uma responsabilidade tão grande?

 

— Irmã, tudo bem aí? — Rayane bateu à porta.

 

Michele tinha uma lágrima escorrendo pela face quando olhou o relógio no pulso. 5 minutos cravados. Virou o mostrador, e apertou os olhos e a boca quando viu o resultado.  Apoiou a cabeça nos joelhos novamente e se permitiu chorar. Do lado de fora, Rayane ouviu a irmã e levou a mão ao rosto, sabia o motivo do pranto de Michele.

 

Dois tracinhos. Grávida. Nada estava bem.

 

Bruna Paiva

 

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