O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

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Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

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Escritores Anônimos em bloqueio criativo

O salão é maior do que o necessário, mas o ambiente é agradável. Sentamos numa roda de
cadeiras plásticas e todos se olham nos olhos. Alguns trazem bloquinhos e caneta, outros se
renderam à tecnologia. Uma parte parece animada. A outra, abatida pelos truques da própria
mente.
— Eu sou D. M. Ramalho e há 27 dias eu não consigo passar nada para o papel.
— Meu nome é Beatriz Coelho e eu estou há 301 dias sem conseguir escrever sobre o amor.
— Meu nome é Mauro Toledo e faz 94 dias que eu deixei de ser poeta.
— Por vontade própria? — Pergunta o mediador.
—Por bloqueio. —Mauro responde. — Não sai nada.— O círculo se encara, tenso. Uma gota
de suor escorre pelo rosto de Maria.
— Isso não quer dizer que você deixou de ser poeta. Todo bom escritor passa por isso. — A
tensão se afrouxa levemente até que alguém diga:
— Eu li sobre uma escritora que teve um bloqueio de 50 anos.
— Eu conheço um que ficou 10. — o autor ao lado se manifesta.
— Imagina, 50 anos sem escrever? — um desesperado se se altera, no extremo oposto do
círculo.
—Eu vou morrer de fome… — Maria choraminga na cadeira, entortando a coluna.
O burburinho começa. 50 anos sem escrever. É possível passar 50 anos sem que a mente faça
aquilo que ela decidiu que queria fazer para o resto da vida? 50 anos falhando em algo antes
tão simples.
—Vocês já tentaram escrever sobre isso? — Alguém levanta a voz em meio às conversas
paralelas.
— Sobre não conseguir escrever? — Mauro se interessa. Como não pensara nisso antes? O
bloqueio era tão forte que nem mesmo a solução mais fácil lhe passava pela cabeça.
— O último dos recursos. — Um impressionado profetiza.
—Eu tenho 7 textos sobre isso. Todos uma merda. — Lopes cruza as pernas.
— Sabe o meu maior problema? — Valéria toma a palavra. — Não é a questão do não
conseguir escrever. Eu escrevo — Ela folheia o caderno, cheio de anotações. — Mas eu não
acho nada bom. Já achei um dia. Mas, hoje, tudo que eu passo para o papel me parece
imaturo, pobre, indigno da leitura de qualquer um.

—Por que não traz aqui para lermos?
Valéria os encara, muda. Tem vergonha. De uma hora para outra, passou a se sentir exposta
pelo que escreve. A dar importância maior ao que é possível que o outro fosse pensar sobre
ela, caso lesse seus escritos. E, por isso, aprisionou cada um deles naquele pequeno caderno
em que não era capaz de terminar nenhuma linha iniciada.
— Melhor não. — Ela olha para chão.
— Vocês sabem que ao fim de cada reunião eu trago um prompt. — O mediador volta a falar.
—Eu nunca entendi essa palavra. — Alguém murmura.
—Eu também não. — Um sussurro responde.
O mediador faz uma careta. É complicado lidar com um coletivo de egos frustrados.
— Uma sugestão, dears. Um tema para instigar vocês a voltarem a escrever. É esse o objetivo
maior de nossa troca. Que um incentive o outro a partir de sua própria experiência.
— Eu não me sinto incentivado por um monte de gente que não consegue mais escrever. —
Fabrício debocha e logo recebe olhares revoltados.
— O que faz aqui então? — Alguém grita.
—Se é tão superior porque não senta e escreve? —Outro revoltado se altera e então começa o
burburinho.
— O prompt de hoje é Desejo e Dilema! — O mediador sobe o tom, mas dessa vez a discussão
não cessa.
E voltamos ao caos que encerra cada reunião. Afinal, é ele o que de fato motiva cada um que
volta, a cada quinta-feira, na vã esperança de que esse encontro magicamente o faça voltar a
saber escrever.

Bruna Paiva

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Cinco minutos

— Vai logo, Michele!

— Calma. Pega meu celular aqui.

— Gente, qual a dificuldade de mijar num palitinho?

 

Michele respirou fundo e não respondeu a irmã mais velha da forma como gostaria. Não bastava o estresse emocional de precisar passar por aquela situação num banheiro público. Agora, graças a Rayane, também precisaria lidar com o fato de todas as mulheres no banheiro mais frequentado do maior shopping da cidade saberem de sua incerteza. E se alguma conhecida de sua mãe aparecesse?

 

Pediu que a irmã pegasse o celular porque o aparelho não parava de apitar com as mensagens de Jean. É claro que o menino devia estar tão nervoso quanto ela, mas não ajudava nem um pouco perguntando sobre o teste a cada quinze segundos. Querendo ou não, aquele era um momento só dela, por mais assustador que fosse.

 

— Rayane, cala a boca. Por favor! — Pediu com a voz embargada e a irmã se aquietou.

 

Respirou três vezes, encarando a caixinha que comprara na farmácia do shopping, mesmo. Abriu a embalagem e leu as instruções. Um tracinho, negativo. Dois tracinhos, positivo. Se der positivo, pode ser falso, precisa fazer outra na semana que vem. E se o negativo for falso? A probabilidade de acerto do teste é de 99,99%. E se ela fosse o 0,01%? Dezessete anos atrás, sua mãe fez um teste que teve resultado negativo e, ainda assim, Michele nasceu.

 

Pegou o instrumento. Parecia um termômetro. A diferença era que o resultado no mostrador não podia ser resolvido com dipirona. Michele abaixou a calcinha, segurou a saia e posicionou o palitinho no lugar estratégico. A mão tremia e a respiração faltava. Fechou os olhos embaçados e fez o que devia ser feito. Fechou a tampa e esperou.

 

Pensou em sair da cabine e esperar o resultado com a irmã. Mas a cabeça rodava demais para isso. Era preciso estar consigo mesma. Sentou-se no vaso, com a tábua abaixada e pôs a cabeça no joelho. Seriam os cinco minutos mais longos de toda sua vida.

 

Pensou em Jean, no início do namoro no oitavo ano, duas crianças que se apaixonaram com a convivência diária. Lembrou de quando iam ao cinema, levados pelos pais, e quando matavam aula escondidos para ficarem juntos. Lembrou de cada virada de ano que faziam questão de passar juntos, desde o início do namoro. Lembrou de quando contou que a menstruação tinha atrasado uma semana, de como, mesmo com o olhar apavorado, ele disse que apoiaria qualquer decisão que ela tomasse.

 

Mas Michele não queria ter que decidir nada. Era uma decisão grande demais. E as duas opções existentes eram tenebrosas. Ter um filho aos dezessete anos, sem o Ensino Médio completo e nenhuma perspectiva de futuro nem condição de criar a criança era tudo o que ela não queria. Submeter-se a uma clínica clandestina, pagando um dinheiro que nem sua família, nem a de Jean tinham, e ainda correr o risco de morrer no processo, também parecia um filme de terror.

 

Conseguia imaginar os piores cenários possíveis para ilustrar a reação de sua mãe ao descobrir. Em todos, a cara de decepção era a mesma. Como levar essa notícia para a família? Tanto a dela quanto a de Jean ficariam desesperadas…

 

E as mudanças em seu próprio corpo? Absolutamente tudo que conhecia em si mesma mudaria. Aquela transformação é tão radical e bruta para o corpo da mulher que ela ainda nem era… Já suava frio de pensar na hora do parto e de toda a dor que com certeza sentiria. Michele não queria passar por nada daquilo.

 

Era aterrorizante a perspectiva de ter que lidar com as consequências de algo que ela sabia que era culpa sua. Sua e de Jean. Os dois foram irresponsáveis, priorizaram um momento em vez de pensar racionalmente. E, agora, os dois seriam obrigados a encarar tudo o que aquela decisão acarretava.  

 

Como terminariam os estudos? Como ela faria a faculdade de odontologia com que sonhava? Como conseguiria realizar os sonhos de fazer um intercâmbio, um mochilão e conhecer o mundo? De que forma seguiria com os planos traçados para a própria vida, sendo atropelada por uma responsabilidade tão grande?

 

— Irmã, tudo bem aí? — Rayane bateu à porta.

 

Michele tinha uma lágrima escorrendo pela face quando olhou o relógio no pulso. 5 minutos cravados. Virou o mostrador, e apertou os olhos e a boca quando viu o resultado.  Apoiou a cabeça nos joelhos novamente e se permitiu chorar. Do lado de fora, Rayane ouviu a irmã e levou a mão ao rosto, sabia o motivo do pranto de Michele.

 

Dois tracinhos. Grávida. Nada estava bem.

 

Bruna Paiva

 

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A fonte dos desejos

 

Liana segurou a moedinha entre os dedos, pressionando com força a pele contra o metal. Talvez dessa forma sua energia fosse telepaticamente depositada nos cinquenta centavos recém tirados da carteira. A mulher apertava os olhos e franzia a testa na mesma intensidade com que estrangulava a moeda nos dedos.

 

Há duas décadas e meia era assim. Ao fim da primeira semana de janeiro, Liana ia até o centro da cidade, na Praça das Garças fazer um pedido para o ano que começava.  Um hábito que herdou da avó Jurema que a levava até aquela fonte desde a infância. Dizia a avó que o imponente chafariz localizado no meio da praça era uma fonte dos desejos. Tudo o que se pedia para a fonte era realizado ao longo do ano, desde que se deixasse uma moeda como pagamento.

 

A pequena Liana sempre apertou os olhinhos, e os dedos em volta da moedinha cedida pela avó materna antes de jogar o dinheiro na fonte e fazer um pedido. Vó Jurema já se fora há cinco anos, mas Liana seguia mantendo a superstição que lhe fora ensinada. É verdade que os desejos não se realizavam tanto quanto na infância. Mas Liana voltava, todos os anos, adaptando os pedidos, na esperança de que dessa vez funcionaria. E lá estava, em mais uma tentativa.

 

Virou de costas para a fonte no centro da praça, prendeu a respiração, beijou a moeda e antes de jogá-la para trás disse baixinho para que só ela mesma, a moedinha e a fonte pudessem ouvir: “eu quero ser feliz”.

 

Mal Liana abriu os olhos, antes que pudesse se virar de volta para a fonte, foi surpreendida com algo duro que lhe atingira na cabeça e um barulho de metal batendo no chão. Olhou para baixo e deparou-se com uma gorda moeda de cinquenta centavos, tal qual a que acabara de jogar no chafariz.

 

Liana olhou em volta procurando quem poderia ser o autor daquela gracinha. Entretanto, estava sozinha na praça. A mulher abaixou e apanhou a moeda, que estava úmida e gelada. Olhou em volta mais uma vez e  para a moedinha em sua mão. Questionando a própria sanidade, Liana repetiu o processo. Apertou a moeda entre os dedos, fechou os olhos com força, sussurrou seu desejo e jogou o dinheiro na fonte.

 

Dessa vez o reflexo foi ainda mais rápido e além da moeda, Liana recebeu um jato d’água na cabeça.

 

– Quem está aí? – Liana perguntou apanhando o dinheiro e olhando em volta apreensiva.

 

– Não há ninguém além de nós, Liana.  – A voz grave veio da direção da fonte. Liana deu um pulo ao ouvir a resposta.

 

– N-Nós quem?

 

– Você e eu.

 

– E quem é você ?- Liana lançou a pergunta no ar ainda sem entender o que se passava.

 

– Mas você vem aqui há tantos anos e não sabe quem sou? Eu sou a fonte dos desejos, ora!

 

–  A fonte? A fonte está falando comigo? Como isso é possível?

 

– E você não fala comigo todo ano? Vem aqui, feito uma pateta, quase entorta as moedas de tanta força que faz nas coitadas e me dá de presente depois de pedir alguma coisa…

 

– Mas eu achei que… Os desejos nem se realizam, então eu pensei que…

 

– É você pensou, você achou… Eu sei. Pois é por isso mesmo que seus desejos não se realizam. 

 

– Como assim?

 

– Se não acredita em mim, por que todo ano insiste em vir aqui me pedir as coisas mais absurdas?

 

– Ei! Eu te pago por cada pedido!

 

– E daí? Você me pede coisas estapafúrdias, volta pra casa e senta no sofá esperando que eu faça suas vontades caírem do céu.

 

– Você é uma fonte dos desejos, ora!

 

– Uma fonte dos desejos, muito bem. Não uma fonte dos milagres! Eu não dou nada de mão beijada a ninguém. A ninguém, minha filha! Tudo o que eu faço é dar uma forcinha  aos acasos para que as coisas se realizem. Mas sem força de vontade? Pois, me economize!

 

– A senhora está me ofendendo!

 

– Minha querida, não adianta você vir aqui, me jogar um dinheirinho, dizer que quer casar e não procurar nem um namorado. Você achou o quê? Que eu mandaria o homem dos sonhos bater na sua porta num dia de chuva?!

 

  Esse foi meu desejo de dois anos atrás! E eu não consegui nem um namorado!

 

– Claro que não! Você nem mesmo se esforçou para dar uma chance a nenhum dos homens que se interessaram por você. Ou para procurar alguém que te interessasse.

 

– Mas a minha avó sempre disse que os desejos dela eram atendidos…

 

– Sua avó foi uma das minhas clientes mais fiéis. Mas ela nunca deixou de correr atrás do que queria esperando que eu resolvesse seus problemas. Qual foi mesmo seu pedido do ano passado? “Eu quero ser rica”. O que você fez de diferente para que isso acontecesse? Nenhuma fonte de renda extra, nenhum corte de gastos…. Desse jeito, realmente, fica difícil te ajudar…

 

– Mas esse ano  eu não pedi nada material e você me devolveu a moeda. De uma forma bem mal educada, diga-se de passagem.

 

– Ser feliz… Nós duas sabemos que isso eu não posso te dar… Você não sabe ser grata por aquilo que possui. Não se esforça nem um pouco para mudar o que te incomoda na sua vida. Em vez de aproveitar os momentos e pensar em soluções, vive reclamando e criando obstáculos para tudo. Eu te conheço o suficiente para saber que não quero perder meu tempo contigo este ano! Pode levar sua moeda. Tenho muitos clientes que merecem minha intervenção no destino, mas você, Liana, enquanto não mudar esse seu jeito acomodado, não faz mais parte dessa lista…

 

Bruna Paiva

 

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Toda dor que não preciso mais sentir

 

 

Acomodo a cabeça acima de sua clavícula, o lugar onde ele passa perfume, e que talvez seja minha parte preferida de seu corpo; ou quem sabe perca para o ossinho do quadril. Ele passa um braço por baixo do meu pescoço e com o outro me envolve por cima, apertando no abraço mais seguro.

O som melancólico de Oasis, que é o único a quebrar o silêncio, me obriga a fechar os olhos. E é na escuridão acalentada que enxergo toda circunstância anterior; cada momento em que aquela mesma música me serviu de trilha para o desespero disfarçado de conformismo. É assim que começa.

As primeiras lágrimas descem sem muita explicação. Um formigamento no peito que transborda sem que eu tenha tempo de entender. Mas ao me dar conta da verdadeira razão é que o pranto começa de fato. É alívio, desafogo.

O peso de cada história anterior, de cada dor e sofrimento acumulado durante anos de uma crença esmagadora de que aquilo não era para mim, tudo se esvai naquele abraço. E choro, copiosamente. Choro por tudo que vivi, por cada vez que derramei lágrimas sozinha no chuveiro, por cada migalha de sentimento que me humilhei para conseguir, por cada vez que sonhei alto e caí feio.

É um choro que me serve como banho, que lava, descarrega tudo que não sarou completamente. Que arranca todo sofrimento que se acumulou por tanto tempo. Que coloca para fora o que as palavras nunca explicaram. Um choro que é ouvido, com a atenção e o interesse que nunca me foram dados.  Um choro amparado com abraço e cafuné, ao som dos irmãos Gallagher e abaixo das estrelas.

“Você não vai mais sofrer por amor.”

E, meio por alívio, meio por gratidão, choro pela sorte de finalmente encontrar o que procurava. Deixo que todo sentimento apareça, transborde. Sem máscaras, desarmada porque não é mais necessário esconder. E as lágrimas lavam toda a dor que não preciso mais sentir.

 

Bruna Paiva

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A salvação do recreio

– Júlio, tu é burro?

– Pra quê tanta força, cara?

Dona Gisela ouviu aquelas acusações seguidas de gritinhos agudos de “ai, ai, ai, ai, ai”. Desviou o olhar para o outro lado da calçada e encontrou pelo menos seis pares de olhos em desespero enquanto seus donos se agarravam às grades do portão do colégio municipal. Seguiu os pequenos olhinhos e logo compreendeu o motivo do alvoroço.

A bola de couro laranja rolava sem pressa, desfilando pelo meio da avenida movimentada. Dona Gisela, que já havia interrompido a caminhada até o trabalho, observou curiosa o poder dos olhinhos desesperados evitar que o vacilo de Julio desse fim ao futebol do recreio.

Sabe-se lá se com ajuda do universo ou não, o fato é que a bola desviou dos pneus do ônibus que descia a rua embalado, e também do sedam preto que vinha logo atrás. O motoqueiro que subia a ladeira foi esperto e desviou rápido quando percebeu o obstáculo; seu movimento brusco alertou o taxista que o imitou.

A bola, então, encerrando seu espetáculo com a graciosidade de quem dança, parou aos pés de Dona Gisela.

O alvoroço de desespero passou à comemoração. A empolgação era a de uma copa do mundo vencida. Ou quase. Na disputa de pênaltis, com vantagem. A tensão cresceu nas mãozinhas agarradas ao portão. A heroína do jogo podia ser Dona Gisela. A vilã também.

– Tia! Tia! Joga pra cá!

– Por favor, moça! Joga aqui!

Preferiu o primeiro posto. Abaixou, embora a coluna protestasse, e apanhou o brinquedo, para a euforia das crianças. Esperou o movimento da rua diminuir e atravessou fora da faixa mesmo. Parou à porta do colégio. Mediu a força para não repetir o erro de Júlio e então arremessou a bola por cima do portão.

Agora, sim. Pênalti marcado. Comemoração de copa do mundo. A moça salvara o dia dos pequenos. Os olhinhos brilhavam eufóricos e ansiosos pelo resto do recreio. Agradeceram rápido e voltaram a brincar. Tinham pressa. O sinal tocaria a qualquer instante.

Dona Gisela observou a brincadeira, sorriu e seguiu seu caminho até o trabalho.

Bruna Paiva

 

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O esquizofrênico flerte contemporâneo

Postou uma piada. Vou curtir. Mas eu já curti as duas últimas, além do comentário sugestivo naquela publicação. Melhor não, ou vai parecer que eu estou dando muito mole. Mas não estou? Não é exatamente minha intenção que ele entenda que estou interessada?

Sim, mas não posso deixar muito na cara. O que ele vai pensar de mim? De certo vai me achar desesperada e fugir da maluca. Então é isso. Vou maneirar as curtidas, não vou falar nada e ainda vou desviar o olhar quando ele tentar contato visual. Provavelmente já percebeu uma nuance do meu interesse pela indireta que postei semana passada. Preciso me fazer de desentendida.

Mas, dessa forma, não estaria eu mostrando desinteresse e fazendo o rapaz acreditar que qualquer traço interessado que ele tenha percebido é apenas imaginação? Ah, mas ele sabe muito bem o que eu quero… Fui a única a curtir aquele comentário que deixava muito claras minhas intenções. Curtir, não, eu dei amei ainda por cima! Não tem como ser mais direta.

Mas e se a obviedade funcionar apenas na minha cabeça? Claro que não… Todo mundo sabe que, em 2018, curtida é demonstração clara de interesse.  Mas será que é mesmo? Se parar pra pensar, eu curto tudo de todo mundo. Mas só tô dando mole pra ele, mesmo.

Já sei! Vou seguir em outra rede social, assim não tem como ele não entender. Não entendeu. Meu Deus, o que eu faço? O cara não percebe o que eu quero, e está tudo tão claro…

Claro? Na minha cabeça talvez já que o interesse é meu e eu venho prestando atenção em tudo e superinterpretando interações online. Meu Deus! É óbvio que não tem nada claro. Senhor, o que eu me tornei? Completamente louca, achando que meia dúzia de curtidas abrem portas para telepatia.

Logo eu que sempre abominei joguinhos de desinteresse… Eu tenho o telefone do cara, qual a dificuldade? Mas e se ele não quiser nada comigo e todo o interesse que eu percebi for puro egocentrismo da minha mente?

Bom, aí paciência, minha filha. Abrindo o Facebook a cada 5 minutos, feito geladeira é que você não vai conseguir nada, mesmo.

“Alô? Fulaninho? Tudo bem? Então, tô a fim de você. E aí, vamos fechar?”

Bruna Paiva

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A tal da boa educação

No mecanicismo rotineiro dois olhares se cruzam e não podem mais voltar atrás. Uma tenta fingir que não viu, a outra também, mas de repente estão se encarando há tempo demais para não se cumprimentarem. É a força involuntária da chamada boa educação que se enraizou tornando impossível seguir a vontade de ir embora naquela situação.

Então as duas se aproximam lentamente, com seus sorrisos amarelos e o interesse forjado em uma vida que nunca fez diferença na sua própria. Ainda assim, o fato de em algum momento terem estudado juntas, aquele único fio em comum, parece moldar a necessidade do diálogo que se segue.

“E aí, menina!”

“Quanto tempo!”

“O que tem feito da vida?”

A resposta é vaga de ambos os lados e nenhuma das duas entende bem se o que ouviu tem a ver com a pessoa que nem conhecia 6, 7 anos atrás.

“E esse calor, menina?”

“Rio de Janeiro é complicado, né…”

“Você tem encontrado com a Juliana?”

“A gente parou de se falar no Ensino Médio”

“Ah sim… Tem visto alguém daquela época?”

“Na verdade, não…”

O sorriso sem jeito se sustenta enquanto as duas cabeças maquinam a falta de assunto até que alguém consiga uma desculpa suficientemente plausível para sair correndo dali. “Tchau, querida, bom te ver”, “Um prazer te reencontrar”…

E então as duas voltam para a rotina de onde não queriam ter saído tendo a certeza de que às vezes é mais confortável ser mal-educada…

Bruna Paiva

 

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Join the black parade

Finalmente sentou-se. A senhora que se oferecera para segurar sua mochila desceria no próximo ponto e cedeu o lugar. Sorriu agradecida, era a cadeira alta. Mania de infância que se dava o luxo de conservar aos 23.

Sentada, se apressou em espetar o fone de ouvido, já arrumado por dentro da blusa, no celular e enfiar o aparelho de volta ao fundo da mochila depois de dar play. Encostou a cabeça e respirou fundo fechando os olhos por um momento. As primeiras notas já a levaram para longe dali. When I was a young boy / My father took me into the city/ To see a marching band. Sorriu com o coração aquecido pela grata escolha da ordem aleatória.

A via expressa, vista pela janela, naquele dia frio, parecia se colorir em melancolia. O cara de verde sentado a seu lado era um borrão. Os outros passageiros, nem isso. A música estava tão alta quanto possível e os ouvidos até reclamavam, mas o sangue pulsava no ritmo que escutava.  One day I’ll leave you/ a phanton to lead you in the summer/ to join the black parade.

Parou o ônibus no ponto. Sobe, desce, roda roleta, dança das cadeiras. Gente pedindo licença, colocando as mochilas na frente dos corpos. Son when you grow up would you be the savior of the broken? Voltou a andar o ônibus, devagar saindo do ponto e então mais rápido, de volta à velocidade da via.

Há certo movimento no fundo. Todos se viram para olhar. Caras assustadas, crianças chorando, passageiros revirando as próprias bolsas. Sometimes I get the feeling she’s watching over me.

Três homens armados, gritando, batendo nas cadeiras, fazendo alarde. Ela não os escuta, mas balança a cabeça no ritmo da música. And through it all, the rise and fall, the bodies in the street. Os homens andam até a frente do ônibus. Donos da cena. Armas apontadas e batendo nos balaústres. We’ll carry on, we’ll carry on.

Pertences recolhidos. A mochila passando como um chapéu de artista depois do show. Terror. Your memory will carry on. Gente encolhida, batendo nas janelas. Do lado de fora, a via expressa mais melancólica que nunca. Dentro do ônibus, a realidade destacada apresentava o caos completo. Your misery and hate will kill us all. Ela toca bateria no ar. A histeria coletiva aumenta. Há pânico, gritos. Ela assiste a tudo como um filme mudo. We’ll carry on/ And though you’re dead and gone, believe me.

Chega sua vez. A mochila estendida. O assaltante de cara fechada, a todo custo transmitindo o ódio que trazia no olhar. Tensão. Ela balança a cabeça olhando para frente. Disappointed faces of your peers, oh, oh, oh. O cara ao lado entrega tudo e a encara. Take a look at me cause I could not care at all.

Como é que é? Sacode a mochila. Do or die, you’ll never make me.  Ela o encara se sacudindo no ritmo da música. You can try, you’ll never break me.

O homem se irrita, grita para o outro, que se aproxima. Qual foi? Won’t explain or say I’m sorry. Ela sacode o cabelo. Ele se irrita e chama o terceiro, que chega agressivo, empurrando o braço dela com a arma. Give a cheer for all the broken. Nem sinal de entregar o telefone. Tá maluca? Just a boy who had to sing this song.

Ele atira na janela, gritando. Vidro estilhaçado. Gritaria generalizada. Ela não se move. A arma apontada em sua direção. I’m just a man, I’m not a hero. O cano frio na testa, esquentando a pele de terror. Ela fecha os olhos enquanto sente o gosto amargo do medo. O assaltante invocado falando sem que ela escutasse. I. Don’t. Care. Gatilho puxado. Entendeu sua sentença. Mas morreria ouvindo a música preferida.

WE’LL CARRY ON, CARRY ON…

Bruna Paiva

 

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