Frenesi

Escrevi até o mínimo e o anelar perderem a liberdade do movimento. Anotei a aula inteira. O que o professor dizia e os devaneios da minha cabeça. Aquele cara que fuma despreocupado, a minha janela no fim do corredor, a lista de tudo que ainda não fiz nessa semana… Textos curtos, tentativa de qualquer coisa que no fim virou nada com nada.

Agora escrevo isso aqui. Mais um amontoado de palavras que na realidade dizem coisa nenhuma. Resistência contra a dor que já queima minha mão e agora se estende para um pouco depois do punho. Sem propósito. Só o fluxo. O rio de palavras que vai fluindo ao mesmo tempo que penso em não pensar.

A letra já péssima e a caneta dando de lado. Meu braço desistirá a qualquer momento. As pessoas no metrô me encaram. A menina sozinha, no chão, escrevendo freneticamente num caderno sem pauta. Em transe. Mal sabem que o movimento robótico talvez me custe uma tendinite.

Bruna Paiva

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O menino do sinal

Como cresceu aquela criança… As feições já não são as mesmas e o olhar tem uma luz diferente (ou a falta dela). Os ombros alargaram e não tem mais aquela aura de criança engraçadinha. Acredito que a voz também deve ter mudado.

Mas o que me choca não é a puberdade inevitável do garoto. O que me fez começar a escrever foram as circunstâncias em que acompanhei esse crescimento.

No caminho diário da rotina incansável, do passeio de feriado, do encontro do fim de semana: obstáculo obrigatório. Ao lado do viaduto, debaixo do mesmo sinal de trânsito o garoto joga bolas de tênis para o alto.

Já ganhou uma batata frita que eu comprei no impulso e não consegui comer. Eu o conheço, ele me conhece. Não sei seu nome, sua história, nem o que o leva a estar sempre ali, tarde da noite com as fiéis bolinhas surradas.

Estranho esse impasse entre querer descer do carro e saber que não posso fazer muito. Observar ou intervir? A pergunta que volta diariamente. Questão que com o tempo acabou sendo respondida pelo sempre pensar e nunca fazer.

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, eu vejo o garoto crescer. Debaixo daquele sinal.

 

Bruna Paiva

 

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História viva

O centro da cidade tem uma áurea meio mágica que consegue me  levar quase a outra dimensão. Por mais que eu já conheça, que ame aquele lugar, sempre vem a mesma sensação: me sinto como Harry Potter entrando em Hogwarts pela primeira vez. É um encantamento sem igual a cada prédio que eu nunca havia reparado e um sentimento nostálgico ao passar de novo por alguns de seus cantinhos, tantas vezes cenários de minhas lembranças preferidas…

Meu primeiro encontro com o ídolo que eu tanto amo se deu no retorno do Cine Odeon, bem no meio da Cinelândia. Na estação de metrô, o dia divertido de carnaval com meu primo que terminou num perrengue naquelas escadarias.  Na rua de trás, a mais mágica livraria do Rio de Janeiro. A Cultura da Senador Dantas é sem dúvida meu lugar preferido por ali.

Mudando de calçada e seguindo até o fim, você chega no prédio mais imponente do Centro. O Theatro Municipal é magia pura para qualquer bailarina. Tantos espetáculos sensacionais eu já assisti ali…

Do outro lado, as ruas de comércio, onde todo ano cumpro a tradição de compras com a minha mãe e minha avó. Na Rio Branco, vi o Papa Francisco passar na JMJ. Às proximidades da Candelária me lembram o passeio incrível no início da faculdade. CCBB tem gostinho de infância e Praça Mauá dá saudade da Olimpíada.

O Centro é repleto de história, seja da minha vida, da minha cidade ou do meu país. E talvez seja justamente esse tanto de história que proporciona aquele ar diferenciado, que, mesmo no meio daquela correria, do formigueiro de gente, me hipnotiza. É história viva, que quer ser contada, que quer ser vivida.

Bruna Paiva

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O que você faria até de graça?

Bem antes de explodir nas rádios do Brasil, a cantora Iza, na frente de um auditório cheio de adolescentes indecisos fez a seguinte pergunta “o que você faria até de graça?”. Ela tinha acabado de decidir largar a carreira de publicitária para seguir seu sonho de cantar e era uma das convidadas da semana em que a minha antiga escola levava profissionais de diversas áreas para conversar com o Ensino Médio. O auditório lotado ficou em silêncio com aquela pergunta.

Ela contou a história dela e de como resolveu seguir o sonho em vez de ficar presa num trabalho de que não gostava. No meio do meu terceiro ano, eu ainda pensava em cursar jornalismo ou quem sabe me jogar em outro curso qualquer. Mas ali, naquela palestra, eu entendi que precisava seguir meu sonho. Que qualquer outra coisa “eu não faria de graça nem que me pagassem”, como a Iza falou.

É difícil, sim, viver de literatura num país em que mal se valoriza um professor.  Ser escritora quando o mercado cada vez se fecha mais para quem está chegando agora. Mas a sensação de “sim, eu faria isso até de graça” realmente só quem já se encontrou entende.

Não é que eu fazer de graça. Artistas precisam comer e pagar contas, embora as pessoas às vezes se esqueçam disso. Mas o sentimento é esse. O trabalho, mesmo o mais desafiador, o mais sofrido, compensa quando se faz o que se ama.

Às vezes é complicado assumir um sonho. Enfrentar as consequências, os desafios, as frustrações, os julgamentos, as inseguranças e as descrenças. É difícil e, sim, vai dar errado muitas vezes. Você não vai conseguir na primeira e às vezes nem na vigésima tentativa. Mas viver o sonho compensa. Cada pedacinho de reconhecimento compensa, energiza e motiva a continuar. E eu não vou desistir do meu sem ter conseguido.

A Iza conseguiu o dela. Ela batalhou, deu a cara a tapa e conseguiu. A cada vez que eu vejo essa mulher na televisão, cantando em tudo que é lugar, eu me lembro daquela palestra e da determinação que ela tinha no olhar. Três anos passaram e, depois de arrasar no Rock in Rio, ela lança o primeiro álbum no próximo semestre.

Só alcança o que almeja quem trabalha para isso. E quando o objetivo fica claro, quando você encontra o que faria até de graça, fica mais fácil levantar a cabeça e tentar mais uma vez.

Bruna Paiva

 

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Sobre marcas profundas e aceitação do meu corpo

Eu tinha 12 anos quando deixei de ser convidada para uma festa por não ser tão “gostosa” quanto as outras meninas da turma. Estávamos todas entrando na mesma puberdade, em fase de desenvolvimento dos nossos corpos, mas as diferenças genéticas já começavam a nos segregar. Àquela altura, já havia escutado apelidos como “esqueleto”, “vareta” e todas as suas variações. Nunca foi bacana, mas nada doeu tanto quanto naquele não-convite. Crianças podem ser cruéis. Em grupo, piores.

Cabisbaixa por não ter sido chamada para a festinha, fui aconselhada, por uma colega, a passar a usar sutiãs de enchimento. Eles aumentavam os seios que a gente não tinha e atraíam olhares dos meninos. Hoje, voltando a olhar para esse cenário, me choco com o comportamento machista a que nos prestávamos. O objetivo era agradar aos homens da sala.

Daquele episódio em diante, meu complexo de inferioridade e a insegurança com meu próprio corpo entraram numa crescente desenfreada. Eu odiava meus membros magrelos, abominava meus seios pequenos, detestava meu cabelo e, em resumo, não gostava muito de mim.

No Ensino Médio, resolvi levar o ballet a sério. O sonho era de ser bailarina profissional e trabalhei para isso. Muita gente sofre nas mãos da dança pela ditadura dos padrões corporais. Mas, por incrível que pareça, foi ela que revolucionou minha autoestima. O ballet me fez olhar pro meu corpo de um jeito diferente, e todos os “defeitos” passaram a ser menos criticados por mim mesma.

Enquanto na escola eu ouvia que era magrela demais e nem um pouco atraente para os meninos (mais uma vez a tal da prioridade deturpada), no ballet eu era linda e arrumei até um namorado. Na escola de dança, eu tinha um corpo perfeito e era elogiada o tempo inteiro nesse sentido. E ali eu comecei a gostar mais de mim.

O meu corpo nunca foi tenebroso como eu sentia. Mas me fizeram acreditar que sim. É claro que, quando voltava para a escola aqueles julgamentos ainda me incomodavam. Mas minha mudança de postura em relação ao meu corpo foi tão importante que eu deixei de ser “a magrela” e passei a ser “a bailarina”. Quando eu comecei a me gostar, o olhar das pessoas também mudou um pouco, mas continuava doloroso.

Hoje, formada, eu não quero mais a dança como profissão. Mas toda vez que tiro a roupa e me olho no espelho, tenho uma luta interna entre a Bruna que não foi convidada para a festa dos meninos e a bailarina que me ensinou a gostar dos meus seios pequenos.

A Bruna de 20 anos se matriculou na academia para tentar aumentar a bunda e já considerou, mais de uma vez, a opção de colocar silicone nos seios, no futuro. Eu ainda tenho problemas com meu corpo, como todo mundo nessa sociedade cheia de padrões. Aquele ódio desenfreado eu tento reprimir, focando nas coisas que gosto em mim, olhando meu corpo de forma amiga. Mas tem dias em que a pressão pesa e é difícil me amar, mesmo com a autoestima trabalhada.

Esse texto não é sobre a decisão entre se manter com o corpo natural ou fazer intervenções estéticas. É sobre marcas. Palavras marcam, atitudes marcam. Essas marcas podem parecer bobas, mas também podem causar danos profundos. Se tivessem me convidado para aquela festa, ou dado uma justificativa menos cruel para a falta do convite, talvez eu, oito anos depois, fosse menos insegura com meu próprio corpo; e a personagem confiante que encarno socialmente fosse menos quem eu gostaria de ser do que quem realmente sou.

Bruna Paiva

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Por que diminuir o popular?

Uma das coisas que mais me irrita no mundo acadêmico é essa insistência em diminuir tudo o que não é erudito. Aquela torcida de nariz quando você conta que gosta de alguma coisa que não tem tanto prestígio ou o cinismo de fingir que não faz ideia de quem é um artista absurdamente popular.

Em certa ocasião, participava de uma conversa bastante informal, entre amigos, sobre compulsão literária. Sabe quando você não consegue parar de ler um livro e acaba terminando ele no mesmo dia que começou? Então… Quando um amigo disse que não conseguia fazer isso de jeito nenhum, acabei relembrando com saudade meus 13, 14 anos, época em que o que eu mais tinha era tempo livre pra ler um livro de Crepúsculo, Harry Potter ou Jogos Vorazes por dia.

O que me surpreendeu foi acabar ouvindo: “Nossa, Bruna, você não tem a menor vergonha de falar isso, né?”

“Vergonha das coisas que eu gosto? Por que eu teria?” Rebati realmente sem entender aonde aquela pergunta queria chegar. Então fui obrigada a ouvir que “às vezes é bom”.

Eu NUNCA escondi de ninguém o tipo de entretenimento e arte que me agrada. Cresci sendo fã de Restart, Fiuk e Jonas Brothers e nunca me importei em ouvir as gracinhas que ouvia na escola. Mas aquela frase, naquela situação, realmente me incomodou.

Gente, pelo amor de Deus, qual o problema de ler best-sellers? Foi a literatura juvenil e popular que me introduziu à paixão pelos livros, que me levou a ter interesse pelos clássicos, que me fez decidir que eu queria viver de literatura. E é por causa dela que hoje eu estudo para isso. Então a questão é: por que diminuir algo que só me fez bem?

Eu gosto de Crepúsculo, sim. De Harry Potter, com toda a certeza. São livros incríveis para a formação de leitores. Se hoje eu sou absolutamente eclética nas minhas leituras é porque comecei lendo esse tipo de literatura. AMO um bom livro juvenil e jovem adulto até hoje e não tenho a menor vergonha disso. Pelo contrário, consumo com o maior orgulho. Até porque são livros voltados para o mesmo público que eu procuro atingir com o que escrevo.

Esse pensamento de “faz bem esconder as coisas que você gosta se elas não fazem parte daquilo que é bem visto” aprisiona, esteja ele aplicado a qualquer segmento da sua vida. Ninguém é menor ou menos inteligente pelas coisas que escuta, lê ou assiste. Nunca deixei de fazer o que me dá prazer preocupada com o que os outros pensariam. E se eu não fiz isso na minha adolescência, que é uma fase tão cruel, o mundo acadêmico que me desculpe, mas não é agora que eu vou começar.

Bruna Paiva

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Tudo mudou, nada mudou…

Eu me lembro de estar nessa estrada com a mesma criança deitada nas coxas. A cabeça recostada no vidro e observando essas mesmas árvores. Tudo numa versão em miniatura, menos a confusão em minha mente.

Lembro dessa exata sensação de que a vida deu errado; da impotência diante de mim mesma, causada pela mesmíssima frustração por amar sem ser amada. Me lembro desse afundamento na espiral se afunilando dentro da minha cabeça. O mesmo olhar perdido focado em algum ponto, sem forças para voltar a tentar se encontrar.

Na época, o escape era escrever, escutar emorock no último volume e tentar me afundar em algum universo literário. Tanto tempo depois, o livro de fantasia repousa na mochila a meus pés; nos fones de ouvido, Panic! At The Disco; e, com, cá estou apelando para o papel e a caneta de sempre. Tudo mudou, nada mudou…

O motivo agora é outro. Muda o nome e o endereço (e, pensando bem, nem isso).

É bem verdade que apesar do Déjà vu, e talvez justamente por ele, hoje eu sei que o mundo não vai acabar. Em algum momento passa. Sempre passa… Porque, por mais doloroso que o processo seja, e ainda que eu acabe lidando com todos da mesma maneira, eu aprendi que a vida segue; tão ligeira quando o carro nessa rodovia.

Bruna Paiva

 

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Sobre 2017 e metas de ano novo…

Eu sempre começo os anos da mesma forma. Endividada. Com uma lista de objetivos e desejos que preciso cumprir no ano que está entrando para conseguir ser feliz. Normalmente dá errado. O ano termina e eu olho frustrada aquela lista de metas, metade não cumprida, uma ou duas por acaso concluídas e o resto nem faz mais sentido na minha cabeça. Foi por isso que dessa vez eu resolvi fazer diferente. Eu não sei onde está minha lista de metas para 2017, não vou procurar e muito menos farei outra para 2018.

2017 foi um ano repleto de surpresas, de coisas incríveis acontecendo no susto. Os momentos mais divertidos desse ano foram inesperados. As pessoas que eu nem sonhava em conhecer me foram fundamentais. Foi um ano em que eu resolvi aproveitar as oportunidades que a vida jogava pra mim, tentando não questionar muito.

“Quer ver seu ídolo amanhã?” “Quero”. “Preciso de alguém pra esse trabalho daqui a 10 minutos, topa?” “Topo”. “Vamos?” “Vamos”. “Tá a fim?” “Tô”. E assim foi grande parte do meu ano. E, dessa forma, várias coisas incríveis aconteceram, várias pessoas maravilhosas entraram na minha vida e diversas decisões foram tomadas.

2017 foi o ano em que eu descobri que preciso me amar acima de tudo. Que eu aprendi a apreciar minha própria companhia e descobri que é incrível sentar sozinha numa mesa para tomar um café comigo mesma. Mas também o ano em que eu resolvi valorizar mais quem está comigo.

Foi o ano em que eu descobri que ainda sou capaz de me apaixonar, sim, e que tudo bem não querer um relacionamento com qualquer um. Ano em que percebi que uma amizade verdadeira vale mais que qualquer paixonite. E em que eu resolvi abrir espaço para gente nova na minha vida, uma das melhores decisões do ano! 2017 me deu pessoas. Pessoas incríveis que eu nem acredito que realmente entraram na minha vida. E como eu sou grata… Em 2017 eu finalmente consegui me encontrar, me sentir parte integrante de alguma coisa, como nunca havia sentido até então. Ano em que eu enfrentei medos e me permiti fazer coisas inéditas na minha história.

É claro que houve momentos ruins, momentos terríveis, sempre há. Mas eu escolhi não falar sobre eles, este não é um texto sobre derrotas.

A gente não controla o que acontece na nossa vida. Podemos achar que temos tudo sob controle, mas o universo sempre dá um jeito de mostrar que quem manda no jogo é ele. E a culpa não é nossa. As coisas acontecem porque a vida é assim mesmo. No fundo, ninguém faz ideia do que está se passando; e a melhor saída é aproveitar o presente. Se esforçar para ser feliz a cada dia e aproveitar as oportunidades que surgem.

Pra 2018 eu só quero isso, o presente. Que ele me traga energias boas, e que eu consiga ser feliz dia após dia, acima de tudo e apesar de qualquer coisa. E se você quiser um conselho, o único que eu tenho pra dar é: vai lá, Carpe that fucking Diem!

Feliz ano novo!

Bruna Paiva

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Mudanças

Arrumando as gavetas do quarto, acabei me deparando com um vidro de esmalte. Não qualquer um. Esmalte antigo, bastante usado, quase nada de tinta lá dentro. Era o preferido da minha versão de 16 anos.  Um rosa bem escuro, quase virando roxo. Uma cor que eu colocava nas unhas quase toda semana, porque gostava, me identificava, fazia com que me sentisse eu mesma. Fazia parte de quem eu era. A cor que todo mundo olhava e dizia “é a sua cara”.

Aquela foi uma fase tão gostosa da minha vida que demorei um certo tempo com o vidrinho gasto na mão. Uma nostalgia engraçada. Abri e descobri que o esmalte ainda estava bom. Meu primeiro impulso foi pintar as unhas.

Passei por todo o ritual de lixa, alicate, base e esmalte. Não sei bem o que estava esperando, às vezes nossas memórias nos pregam peças, mas, ao encarar minhas unhas pintadas com aquela cor que me era tão especial, não me reconheci da forma que imaginei.

Foi então que eu percebi o quanto mudei nos últimos anos. Não por algo tão trivial quanto a cor dos meus esmaltes; ainda que minha manicure usual, hoje, não saia muito da escala preto-nude-vermelho, vez ou outra eu vario um pouco. Mas a forma como aquela cor não era mais “a minha cara” me botou para pensar.

Eu não me reconheci porque realmente não sou mais a mesma pessoa. A Bruna de 16 viveu três anos, quase quatro, a menos do que eu. E anos em que minha vida mudou aos poucos, porém radicalmente.

Nós não temos gostos tão parecidos porque o tempo muda as pessoas. Talvez não completamente, já que a Bruna de 16 ficaria enlouquecida ao saber que, semanas atrás, estive com o Fiuk comemorando seu aniversário (inclusive usando o esmalte que ela tanto gostava). Mas o tempo me fez uma pessoa diferente. Não melhor ou pior, apenas diferente. Com dramas diferentes e com a cabeça modificada, mais madura, eu diria.

Eu só não havia percebido o tamanho da mudança. A Bruna de 16 não é mais tão próxima de mim quanto eu pensava. Mas algo dela segue vivendo aqui dentro. Ainda assim, guardei de volta o esmalte na gaveta, com carinho pelas lembranças que ele me trouxe, é claro. Mas, com toda certeza, na próxima semana eu volto para o meu pretinho de sempre…

Bruna Paiva

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Se você ama alguém, diga!

“Se você ama alguém, diga. Mesmo que você tenha medo de não ser a coisa certa a fazer. Mesmo com medo dos problemas que isso pode te causar. Ainda que com medo que isso acabe com a sua vida, diga. Diga em voz alta e viva a partir daí.”

Essa é uma das últimas falas do Mark Sloan em Grey’s Anatomy. E, de longe, uma das minhas preferidas dentre as 14 temporadas da série; talvez pela verdadeira dor com que é dita. Mark está morrendo quando fala isso. Ele sabe que está morrendo e acabou de perder a mulher que mais amava na vida. Mas, meio por medo, meio por orgulho, não disse isso a ela até que ambos estivessem numa situação trágica. E é por isso que essa fala me toca tanto.

Eu sempre senti demais. Sempre fui de me apaixonar, de me entregar ao que eu sentia. Ao mesmo tempo, eu sempre tive medo de falar sobre isso, de assumir o que se passava na minha cabeça e ter que lidar com as consequências. Medo de passar vergonha, de perder a amizade, de me apegar, de assumir para mim mesma o que sentia. Medo da falta de reciprocidade, de me decepcionar, de sofrer. Porque eu sempre soube o quanto isso tudo doía.

Até que um dia eu me percebi completamente apaixonada por um amigo. Contando os minutos para encontrá-lo, hipnotizada por aquele sorriso, estudando e tentando decifrar cada ação dele. Eu não dizia o que estava sentindo, como todas as outras vezes em que me apaixonei antes. Mas, em algum momento, me cansei da incerteza. Do esgotamento que eu mesma me provocava ao tentar ler a mente dele, tentar sempre encontrar algo que me mostrasse se ele queria ou não. Pela primeira vez, me esgotei de não conseguir pensar em outra coisa, de fantasiar demais e viver de menos.

Coincidentemente, assisti de novo ao filme “Compramos um zoológico” na mesma época. E acabei me atentando para uma fala que nunca havia me chamado atenção.

“Às vezes, tudo que você precisa são 20 segundos de uma coragem constrangedora e eu prometo que algo bom vai acontecer.”

Essa frase rodeou em minha cabeça por algum tempo até a coragem constrangedora dar as caras de fato. Chamei o menino para conversar e ele confessou não ter o menor interesse em mim. É claro que, na hora, fiquei mal, mas não posso dizer que meus 20 segundos foram em vão. Foi ali que eu aprendi que ser honesto com o que você sente ou pensa é sempre o melhor caminho, ainda que com aquele medo avassalador que o Mark citou. Desde aquele dia, os 20 segundos de coragem continuam sendo minha maior estratégia.

Lidar com as consequências faz parte. O que eu não consigo é lidar com os “e ses” da vida. Falar abertamente sobre o que você sente por alguém é libertador. É claro que já me dei muito mal por expor o que eu sentia, já me decepcionei muito. Mas nunca me arrependi de falar. Porque tudo vira experiência nessa vida, vira história para contar. E o sofrimento uma hora passa, mas a especulação sobre o que teria acontecido se tivesse tido coragem, essa te corrói para o resto da vida.

Agir com a razão faz bem, é óbvio. Mas há momentos em que a gente precisa deixar o coração tomar a palavra. Porque ser racional demais pode te custar mais caro do que deveria.

Então, diga. Se você ama, diga. Se não ama, informe. Não está feliz com as coisas do jeito que estão? Diga! Fale sobre o que você sente. Confesse seus desejos. Diga com vontade, com verdade e então viva a partir daí.

 

Bruna Paiva

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