Aventura

Você é aventura

Adrenalina

O cigarro que eu nunca fumei

A favela que eu nunca subi

O sexo que eu nunca fiz

Teu sorriso me desafia

E eu mergulho naquela boca

cheia de possibilidade.

Minha própria descoberta

De que o mundo é maior

E que o gosto de tabaco na tua língua

Talvez seja um belo vício

Você traz a liberdade

De uma vida que eu não conheço

Da loucura que eu reprimi

Pelo bem dos bens costumes, da moralidade

Você é o foda-se que eu engoli

Por tantos anos de obediência

A um mundo que não é meu.

O suspiro de desafogo por uma angústia que me corrói.

O notar que aquele medo

Enraizado

Construído

Não me pertence

O ser livre que do desejo

Passou à ação

O tempo controlado

Presente

Sem futuro, sem passado

Você é aventura

De um jeito que eu nunca vivi.

 

Bruna Paiva

 

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Possibilidade

Uma página em branco

Uma possibilidade

O dia que se repete sem nunca repetir

O poema é escape

Bolha musical no cotidiano vazio

Fuga da dimensão temporal, interrompida pela luz verde ou o rastro de conversa alheia.

Rastro que constrói

Palavras escritas na água

Caneta aprisionada na página em branco

Uma possibilidade

No ônibus local de criação

Do que se vê

Do que se ouve

 

 

Bruna Paiva

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Desejo

O desejo era ser menos fraca

Parecer mais com a máscara inabalável performada socialmente

Insegurança maldita que não permite acreditar

Duro lutar contra a corrente

Que insiste em ser mais forte

Deixar afundar parece menos trabalhoso

Fim

Pronto

Calmaria

Convidativo

 

Bruna Paiva

 

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Eu te mantenho

Aqui estou. Sentada no lugar onde te beijei pela primeira vez. (Provavelmente a última)

O ar é úmido e abafado, o oposto daquele dia. Há mais pessoas também. Abro um livro, encaro o céu e apenas existo. A respiração automática me obrigando a permanecer. Figurante na paisagem, aparecendo no fundo da foto do casal.

Me distancio do que sou para botar no papel o que sinto:

Talvez fosse mais fácil me livrar de você.

Te banir da minha vida não teria causado dor tão prolongada. Gosto amargo no fundo da boca que nunca se vai por completo. Manter sua importância é desgastante. Dificulta as coisas.

Mas sem complicação não seria eu. E não posso negar que gosto assim.

Bruna Paiva

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Tão distraidamente

Tabagismo, Cigarro, Ruim, Ar, Cinzas, Vaporizador

Cigarro na boca, olhar baixo, distante da roda de conversa; mas o ouvido parece atento. Camisa branca de manga comprida que chama atenção para os ombros largos e os braços ao longo do corpo.

Ele joga o cabelo para longe do rosto, sorrindo despreocupado e tomando o cigarro entre os dedos. Um sorriso travesso de quem conta a história fragmentada. Observo as fascinantes mãos alongadas, perdida em pequenos pensamentos depravados.

De repente ele estende o braço e balança a cabeça concordando efusivamente com o colega coadjuvante. Na minha perspectiva, ele protagoniza. O local, o momento, o conjunto da cena.

Passa os dedos nos cabelos sedosos, com um suspiro profundo, enquanto volta o que resta do cigarro para entre os dentes. Depois deixa a mão bater na coxa. Aperta os lábios com o cigarro no meio para logo arrancá-lo com os dedos novamente.

Queria ser aquele cigarro, penso. E me assusto com o pensamento enquanto ele sopra a fumaça e joga a guimba no chão.

Bruna Paiva

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Tudo velho, de novo

Lugar há muito conhecido. Sentimentos assustadoramente familiares. Mais uma vez perdida, apavorada. Sozinha, um peixe fora d’água. Tudo de novo.

Por mais que não seja mais realidade, que não haja razão para se preocupar e que o acolhimento seja certeza agora, o mundo inteiro se resume àqueles corredores. A insegurança e a sensação de estar novamente presa ali tomam conta do meu corpo. Volto a andar com os olhos baixos, fragilizada.

Respiro fundo mas o ar não obedece. Lembranças demais por toda parte, e nenhuma das memórias agradáveis resolve dar as caras. A repetição daquela velha rotina me faz perceber o quanto fui marcada. Muito mais do que imaginava.

A rapidez com que os sentimentos me tomam faz tudo em volta se mover devagar, enxergo alguns de meus maiores fantasmas e é quase impossível convencer minha mente de que eles não estão ali. Me sinto pequena, cada vez menor. Quero colo, meu quarto, minha cama. De novo. O impulso é de correr para o banheiro e chorar, como tantas vezes fiz. Mas não vou.

Volto a respirar reafirmando que está tudo bem e que minha realidade é outra agora. Mas só consigo sentir o alívio de fato quando finalmente boto os pés fora do lugar em que estudei durante a vida inteira…

Bruna Paiva

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Amar

Por inteiro e não fragmentado

Com os olhos e a boca

Alma e corpo

Força, sede, formigamento

Vontade insaciável, domínio de pensamento.

É pra ser sentido

Entregue.

Certeza maior que o medo e a hesitação.

Bonito, intenso e doloroso

É ceder, ouvir e se encontrar.

É doação e

sobretudo força grave de dentro pra fora.

 

Não assim,

Perda de tempo.

 

Bruna Paiva

 

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Quadrilha real

Camila se apaixona por Bernardo

Que é amado por Renata

Que é amada por Marcelo

Que até gosta de Maria.

 

Bernardo nem dá bola para Camila

Ou Renata, já que é amigo de Marcelo e tem na cabeça alguém que nem estava na história.

Renata se contenta com a situação, mas não é capaz de corresponder Marcelo.

Os três conseguem construir uma amizade saudável apesar da confusão.

Camila sofre sozinha, quem se importa?

Marcelo acaba tentando investir em Maria

Que não faz ideia de tudo que há por trás.

 

E, de alguma forma, a roda gira.

E segue girando.

 

Bruna Paiva

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Realidade destacada

No acostamento da via expressa, esdrúxulo e insignificante, um braço repousa estendido. Mal percebido por quem passa em alta velocidade, um universo dentro de outro.

Os dedos tocando o chão pareceriam descansar despretensiosos, não fosse o osso quebrando a barreira da pele no topo do antebraço. Esquecido o contexto absurdo, era uma mão bonita. Mãos de baixista? Quem sabe?

Ao redor, nada que justifique aquela imagem. Só um braço, esquecido no acostamento. Apenas um pedaço destacado de alguma realidade que não nos pertence e para a qual não temos tempo.

Então seguimos em frente. Mais preocupados com a lentidão do motorista do ônibus prestes a nos atrasar para o que quer que tenhamos que fazer.

Bruna Paiva

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Mudo convite

Tristeza constante que esconde a própria nascente.

Não se satisfaz com o pinga-pinga de felicidade.

Tem que ser mar, tsunami de alegria.

Essa tristeza que me suga

derruba

derrota.

Que me convence de estar constantemente errada.

Exagero

drama

vitimização.

 

Extingue qualquer traço de confiança e insiste em provar que nada vai dar certo.

 

Não se contenta em viver cada coisa no seu ritmo.

Quer tudo agora,

com pressa

para não se afogar.

E se afoga na afobação.

 

Me enche de expectativas pelo mero prazer de deleitar minha decepção.

 

Dor profunda que vem de lugar nenhum

e de todos os lugares ao mesmo tempo.

Que angustia,

atormenta,

aterroriza

e faz flutuar na cabeça

como peixe em oceano

a ideia de acabar com o sofrimento.

 

Bruna Paiva

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