Cinematógrafo

As letras no livro em minhas mãos desfocam até virarem um borrão dentro das margens. É a terceira vez que tento ler esse parágrafo e, novamente, as palavras perfiladas não me dizem nada. Minha mente vagueia por outros assuntos. A imagem que eu nunca vi se instala no meu cinematógrafo interno.

Crio, recrio, rememoro, regurgito e a ânsia de vômito me sobe até a garganta enquanto seu corpo é tocado por ela. As cenas mais diversas vêm e vão, e ao mesmo tempo em que alimento cada uma delas, eu só queria esfregar meu cérebro com água sanitária, como um assassino faz com o chão sujo de sangue.

Imagino sua boca, escorregando pelas curvas dela como faz com as minhas. As mãos quentes sendo usadas para arrepiar a pele que não me pertence. A intimidade, o carinho, o desejo. Te imagino deitado puxando o corpo dela para perto. Enfiando sua mão pelos cabelos dela e brincando distraído. Será que olharia para ela do mesmo jeito que olha pra mim?

Que sentido faz esse tipo de questionamento? É certo que nenhum. Da mesma forma que criar essa realidade na cabeça só serve para me desestabilizar. Ainda assim, é inevitável imaginar que no passado você foi dela.Porque de fato o foi.

Tento retornar para a história que alguém escreveu e agora se encontra em minhas mãos. Mas a que eu crio sobre vocês, na cabeça, é daquelas que aprisiona o espectador. É como me sinto, obcecada por uma versão sua que desconheço, mas invento. Uma versão sobre a qual não tenho o menor controle, apesar de minha criação.

Aperto os olhos com força e, apesar de saber exatamente por que esses devaneios apareceram, percebo, enquanto uma lágrima escorre, que não será tão fácil me livrar deles.

 

Bruna Paiva

 

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P.S. no escuro

Seus olhos no escuro

vidrados em mim.

O momento em que tive certeza

(E volto a ter)

A pupila dilatada

Sorriso ensaiado

encostando no meu.

 

Seus olhos castanhos no escuro

Me encarando com encanto

Num tempo que nem existe.

Toque quente que arrepia

Boca feita pro encaixe perfeito

Dizendo tudo

que eu sempre quis ouvir.

 

Seus olhos castanhos

No escuro

Das primeiras imagens

que eu gravei pra sempre

Com o encantamento

de conhecer o novo

E querer novamente

Cada apagar de luzes

 

Bruna Paiva

 

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Toda dor que não preciso mais sentir

 

 

Acomodo a cabeça acima de sua clavícula, o lugar onde ele passa perfume, e que talvez seja minha parte preferida de seu corpo; ou quem sabe perca para o ossinho do quadril. Ele passa um braço por baixo do meu pescoço e com o outro me envolve por cima, apertando no abraço mais seguro.

O som melancólico de Oasis, que é o único a quebrar o silêncio, me obriga a fechar os olhos. E é na escuridão acalentada que enxergo toda circunstância anterior; cada momento em que aquela mesma música me serviu de trilha para o desespero disfarçado de conformismo. É assim que começa.

As primeiras lágrimas descem sem muita explicação. Um formigamento no peito que transborda sem que eu tenha tempo de entender. Mas ao me dar conta da verdadeira razão é que o pranto começa de fato. É alívio, desafogo.

O peso de cada história anterior, de cada dor e sofrimento acumulado durante anos de uma crença esmagadora de que aquilo não era para mim, tudo se esvai naquele abraço. E choro, copiosamente. Choro por tudo que vivi, por cada vez que derramei lágrimas sozinha no chuveiro, por cada migalha de sentimento que me humilhei para conseguir, por cada vez que sonhei alto e caí feio.

É um choro que me serve como banho, que lava, descarrega tudo que não sarou completamente. Que arranca todo sofrimento que se acumulou por tanto tempo. Que coloca para fora o que as palavras nunca explicaram. Um choro que é ouvido, com a atenção e o interesse que nunca me foram dados.  Um choro amparado com abraço e cafuné, ao som dos irmãos Gallagher e abaixo das estrelas.

“Você não vai mais sofrer por amor.”

E, meio por alívio, meio por gratidão, choro pela sorte de finalmente encontrar o que procurava. Deixo que todo sentimento apareça, transborde. Sem máscaras, desarmada porque não é mais necessário esconder. E as lágrimas lavam toda a dor que não preciso mais sentir.

 

Bruna Paiva

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Nossas Vidas

Coloco os pés no salão e o nervosismo toma meu corpo. Nunca sonhei com um casamento tradicional. Mas, quando ele propôs, me descobri louca por um vestido branco e a cerimônia pomposa. Meu pai me dá o braço e, em silêncio, agradeço pela sacudida que deu em minha vida. Não fosse a insistência em se mudar para o interior, nunca teríamos travado aquela briga e eu não teria saído de casa aos prantos para pedir abrigo temporário no apartamento do meu amigo.

Aperto as flores em minhas mãos e me lembro de nosso primeiro beijo. Na faculdade, sem a menor pretensão de relacionamento. Sem ter ideia da amizade que surgiria. Sem imaginar que seis anos depois, formados, por um tropeço da vida nossos corpos se reencontrariam.

Fecho os olhos e respiro fundo. Oito anos de amizade, dois namorando. Uma procura de apartamento interrompida por um “mora aqui comigo”. Um quarto de hóspedes abandonado por um “dorme aqui comigo”. O futuro iniciado por um “casa, então, comigo”.

A porta se abre e ele está no fim do corredor. Lindo. Eu sorrio, chorando. Quem diria? Solto o ar pela boca enquanto na cabeça passa cada crise amparada, cada vinho em fim de tarde, cada briga superada, cada beijo na boca. Cada silêncio compartilhado e cada filme que eu vi pela metade porque dormi no meio enquanto ele me fazia carinho; as pequenas delícias de morar com o único cara com quem me imagino.

Quatro passos, estou tremendo. Vejo nossos amigos e lembro do fatídico churrasco. Era copa do mundo. Morava com ele há seis meses, dormíamos juntos há quatro. Em segredo. Ele me deu a mão quando saímos do carro e eu entrelacei nossos dedos. Um acordo tácito. “Vocês estão juntos?” “Sim”, respondemos pela primeira vez com certo frio na barriga e sem saber no que ia dar.

A sobrinha dele vai na minha frente, espalhando pétalas pelo caminho e me vem a lembrança da família dele comemorando a notícia. “Eu sempre soube que vocês ficariam juntos no final”, minha cunhada falou.

Já não sei mais quanto andei, mas o corredor parece infinito. Nossos professores estão ali. Só os preferidos. Só os que viraram amigos. Todos testemunhas do início daquela história. Volto a olhar para ele. Está chorando, e sorrindo. Aquele sorriso… me hipnotizou desde o primeiro dia, embora eu tenha guardado para mim.

“Se você parar pra pensar, a gente já é praticamente casado”, ele disse cozinhando enquanto eu fazia minhas unhas. “Mas e então, quer?” Borrei o esmalte, mas quis. Quero. Finalmente chego e lhe dou um abraço.

O próximo “sim” não vai mudar nossas vidas. Amanhã é apenas um dia normal. Acordaremos juntos, ele primeiro, eu com o cheiro do café. Dormiremos abraçados, eu primeiro como manda meu cansaço.

Muda um papel assinado e o dedo do anel. De resto, eu não quero mesmo que mude nada.

 

Bruna Paiva

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Eu te mantenho

Aqui estou. Sentada no lugar onde te beijei pela primeira vez. (Provavelmente a última)

O ar é úmido e abafado, o oposto daquele dia. Há mais pessoas também. Abro um livro, encaro o céu e apenas existo. A respiração automática me obrigando a permanecer. Figurante na paisagem, aparecendo no fundo da foto do casal.

Me distancio do que sou para botar no papel o que sinto:

Talvez fosse mais fácil me livrar de você.

Te banir da minha vida não teria causado dor tão prolongada. Gosto amargo no fundo da boca que nunca se vai por completo. Manter sua importância é desgastante. Dificulta as coisas.

Mas sem complicação não seria eu. E não posso negar que gosto assim.

Bruna Paiva

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Quadrilha real

Camila se apaixona por Bernardo

Que é amado por Renata

Que é amada por Marcelo

Que até gosta de Maria.

 

Bernardo nem dá bola para Camila

Ou Renata, já que é amigo de Marcelo e tem na cabeça alguém que nem estava na história.

Renata se contenta com a situação, mas não é capaz de corresponder Marcelo.

Os três conseguem construir uma amizade saudável apesar da confusão.

Camila sofre sozinha, quem se importa?

Marcelo acaba tentando investir em Maria

Que não faz ideia de tudo que há por trás.

 

E, de alguma forma, a roda gira.

E segue girando.

 

Bruna Paiva

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Ciúmes

Coisa estranha no peito

Gosto amargo na boca

Sangue que esquenta e bagunça tudo na cabeça.

Raiva sem motivo

Olho revirado e suspiro que não se controla.

 

“Eu não sinto nada”

“Não me incomoda!”

Cruza os braços apertando forte para o coração não fugir em protesto.

Vira o rosto e encara o outro lado

Mas espia de rabo de olho.

 

Infantil

Mas não sabe escapar.

Autoconfiança forjada se esvai em um piscar

De repente, sozinha

Derrotada

Impotente.

 

Bruna Paiva

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Tudo mudou, nada mudou…

Eu me lembro de estar nessa estrada com a mesma criança deitada nas coxas. A cabeça recostada no vidro e observando essas mesmas árvores. Tudo numa versão em miniatura, menos a confusão em minha mente.

Lembro dessa exata sensação de que a vida deu errado; da impotência diante de mim mesma, causada pela mesmíssima frustração por amar sem ser amada. Me lembro desse afundamento na espiral se afunilando dentro da minha cabeça. O mesmo olhar perdido focado em algum ponto, sem forças para voltar a tentar se encontrar.

Na época, o escape era escrever, escutar emorock no último volume e tentar me afundar em algum universo literário. Tanto tempo depois, o livro de fantasia repousa na mochila a meus pés; nos fones de ouvido, Panic! At The Disco; e, com, cá estou apelando para o papel e a caneta de sempre. Tudo mudou, nada mudou…

O motivo agora é outro. Muda o nome e o endereço (e, pensando bem, nem isso).

É bem verdade que apesar do Déjà vu, e talvez justamente por ele, hoje eu sei que o mundo não vai acabar. Em algum momento passa. Sempre passa… Porque, por mais doloroso que o processo seja, e ainda que eu acabe lidando com todos da mesma maneira, eu aprendi que a vida segue; tão ligeira quando o carro nessa rodovia.

Bruna Paiva

 

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Me perdoe

Com toda a sinceridade que posso, eu peço que você me perdoe. Perdão por despertar em você um sentimento que não sou capaz de retribuir. Por ter assistido você se apaixonar, fingindo não perceber e não ter feito nada. Egoísta, narcisa. Nunca quis te perder da maneira que tinha e talvez por isso tenha deixado tudo acontecer dessa forma.

Ninguém nunca se apaixonou por mim com o fervor e a intensidade que você o fez. E, quando eu percebi isso, quando finalmente desisti de me enganar, eu era só frustração. Frustrada por esse sentimento todo não vir de quem eu realmente queria, pela peça que o universo me pregava e, principalmente, por não conseguir retribuir o que alguém tão especial sentia. E como eu tentei obrigar minha cabeça a se apaixonar por você… Seria tão mais fácil…

Eu sei bem o que é se apaixonar por quem não te quer. Você conhece minhas histórias… Nunca fui correspondida, nunca capaz de viver o amor com que sonhava na adolescência. E, quando alguém finalmente me enxerga com outros olhos, consegue ver o melhor em mim, sem maldade, se apaixona conhecendo meus defeitos, eu me vi do outro lado da moeda. Eu conheço a sua dor. E, acredite, me dói demais ser a causadora do seu sofrimento.

Ah, se eu pudesse escolher… Se eu tivesse algum controle sobre esse coração imbecil… Seria você. Sem pensar duas vezes. Ele nem passaria pela minha cabeça. Seria você a todo instante. Mas o idiota no meu peito resolveu desconcertar-se por quem não me quer. E eu não posso ser injusta comigo, nem com você. Não dá para abraçar teu sentimento se quando eu me deito é com ele que eu sonho.

Mesmo assim, obrigada por, apesar de tudo, entender, continuar comigo e não me condenar. E, ainda que você odeie me ouvir pedindo desculpas, é só o que me resta fazer. E eu sei que não é o suficiente…

Bruna Paiva

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Saudade

Peito revolvido.

Cheiro de pão com manteiga.

A ausência que reaviva uma presença de memória.

O gosto da tua boca

O cheiro do perfume

Trazido pelo vento;

Ou pela masoquista lembrança?

“Dor por si mais dura e firme” que me esgarça de dentro para fora.

Que me inventa uma necessidade maldita

De ter aquilo que já não posso.

 

Bruna Paiva

 

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