Teresa, Maria e Lili

Teresa:

João está ao meu lado, mas eu mal me dou conta de seu corpo sentado aqui. Minha mente passeia por Raimundo. Por seu jeito criativo e maneira descontraída de falar enquanto passa a mão nos cabelos. Por seu sorriso despreocupado e sempre acompanhado dos olhos castanhos que tanto me fascinam. Estes, porém, nunca voltados para mim. Seu coração é de Maria, que ignora a sorte que tem.

Maria:

Sento-me e afundo as mãos na areia gelada. Quase em transe, observo a dança das ondas que chegam a acariciar meus pés descalços, mas são sempre puxadas de volta ao imenso mar que tem a sorte de possuí-las. Meus olhos embaçam enquanto penso em Joaquim. O único homem que amarei em toda a vida.  O único que nunca terei.

Lili:

Lá vem Joaquim novamente com sua ladainha de te amo e te amo. Não entendo a procedência de tanto amor se nunca trocamos meia dúzia de palavras. Nem por que continua a insistir mesmo sabendo que não o correspondo. Por que não segue em frente? Qual a dificuldade em superar a paixonite e me deixar viver em paz?

Teresa:

Deus, o que faço se não puder ter Raimundo? Não imagino que possa amar a outro como a ele amo. Como tomar coragem de contar tudo sobre meu amor? Vejo João aqui a meu lado e lembro que os dois são amigos. Me pergunto se ele não ajudaria a deixar Raimundo saber do sentimento que carrego.

Maria:

A brisa faz meus cabelos voarem e percebo os olhares do surfista que passa por mim. Sei que posso tê-lo em questão de segundos, assim como a maioria dos homens por aqui. Mas nenhum deles me seria suficiente. Seguiria sentindo-me fraca, vazia e incompleta. Por mais que tenha quase tudo o que desejo nessa vida, minha maior necessidade nunca estará a meu alcance.

Lili:

Como alguém consegue ter tamanho desprendimento de si mesmo? Mais amor próprio, querido! Nunca deixaria meus estudos para me relacionar com alguém tão dependente. Sei que acabaria entediada com tamanha melancolia e sem tempo para me dedicar ao que realmente interessa.

Teresa:

João não quis ajudar. E ainda foi ríspido, mostrou-se quase ofendido com minha proposta. Logo ele que desde a escola sempre me foi simpático. Bradou que Raimundo nunca se interessaria por uma carola como eu. E que eu não deveria me insinuar para alguém que vive a se declarar por outra pessoa. Talvez ele tenha razão. Talvez a melhor saída seja mesmo canalizar meu amor a outra finalidade.

Maria:

Se ao menos conseguisse transferir meu amor a Raimundo. Aquele que sei que me adora e deseja como o mar a cada uma de suas ondas… Mas meu coração não permite que me livre de Joaquim. Mesmo que em mim nada lhe interesse mais que em Lili. Por mais que machuque, meu sentimento insiste em ser dele. E só dele por toda a vida.

Lili:

Daqui a um mês, enfim me livrarei das perturbações de Joaquim. Finalmente consegui aprovação para o intercâmbio com que tanto sonhei. Vou morar na Itália e estudar gastronomia. Ainda não consigo acreditar que J. Pinto Fernandes, um dos maiores chefs da atualidade, será meu professor! Não poderia estar mais realizada.

 

Bruna Paiva

 

* Texto inspirado no poema Os três mal-amados, de João Cabral de Melo Neto, que por sua vez foi inspirado em Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade.

** Exercício proposto pela professora Júlia Studart na disciplina Oficina de Produção de Texto, no Curso de Letras da UNIRIO, 2017.1.

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Presa a você

Primeiro vieram as noites molhadas. As noites em que eu ia dormir com o nariz entupido e a cabeça latejando por causa das lágrimas. Nelas, eu abafava meus soluços no travesseiro encharcado. Não me lembro a que horas pegava no sono. Só lembro de acordar pensando em você.

Abria os olhos inchados e mal me movia encarando o teto. A comida no prato quase sempre ia inteira para o lixo. A fome foi a primeira a sumir.

Em algum momento, as noites de pranto começaram a se alternar com as de exaustão total. Meu corpo implorava por uma noite bem dormida. Mas elas também desapareceram. Quando minhas lágrimas secaram, as madrugadas em claro começaram a me visitar trazendo devaneios que nunca haviam dado as caras. Então começou a dor.

A pior dor que se pode sentir não é física. Provoca um vazio no fundo da alma que, vez ou outra, berra pela falta de alguém. Faz qualquer um clamar por algo doce como a dor de uma facada.

As noites de insônia em que eu fitava o teto do meu quarto despertaram esse vazio. A dor crescia junto com minhas olheiras. A fome não reaparecera. Comia só para me manter de pé e, ainda assim, estava a cada dia mais magra.

As lembranças espalhadas na internet e em meus arquivos pessoais não ajudavam em nada além de cavar mais fundo o buraco em minha alma. De certa forma, eu me culpava. Ninguém me obrigou a me entregar tanto.

Em poucas semanas, a insônia deu lugar às lembranças durante o sono. Me debatia enquanto dormia e acordava ofegante no meio da noite. Destruída, humilhada, com raiva de mim, de você, do mundo.

E, quando chegou a nossa data, eu chorei. Mais do que nas noites molhadas. Mais do que quando te assisti partir. Chorei pela impotência, pelo tempo, por não conseguir me recompor. Chorei pelo futuro inexistente de que eu ainda tinha saudades. Chorei porque precisava parar de sonhar. Chorei porque apesar de tudo eu ainda te amo e esse amor é a minha maior prisão.

Bruna Paiva

 

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À distância

Eu tenho saudades de acordar com o braço dormente debaixo da sua cabeça. Saudades do teu cheiro, da sua mania de andar pela casa vestindo só calcinha por baixo de uma camiseta minha. Saudade de você se arrumando enquanto eu te apressava impaciente para sair de casa. Saudades de você implicando com o meu jeito de lavar louça à prestação. Do jeito como você canta feito louca enquanto dirige e como sempre dorme quando sou eu no volante.

Saudade do jeito que você corre os dedos pelas veias do meu braço, com a cabeça encostada no meu ombro. E de sempre brigar contigo quando deixa meu computador descarregar completamente. Saudade até daquele filme do Heath Ledger que você me faz assistir e decorar as falas só porque você ama. De ver seu sorriso infantil quando te beijo de surpresa.

Saudade de estar pertinho de você. De te abraçar nos momentos ruins e comemorar as suas conquistas. Sinto falta de poder te ver a qualquer hora… Pela tela do computador, às vezes a distância parece ser ainda maior. Há dias em que eu me questiono se fizemos a escolha certa. Nos separamos para seguir nossos sonhos, é verdade. Você de um lado do continente e eu do outro. Mas eu sinto falta de quando morávamos naquela cidadezinha em que todo mundo sabia tudo da vida dos outros. Aqui é tão enorme, e as pessoas nem se falam muito.

Às vezes tenho saudade até do medo que eu tinha do seu pai no início do nosso namoro. Quando a gente tinha que sair escondido. Acho que aquela época só contribuiu para nos apaixonarmos mais. Outro dia eu conversei com o Padre Paulo (acredita que ele está no Facebook?). Ele disse que a gente faz um casal lindo e que ele topa celebrar nosso casamento quando a gente voltar.

Eu sei que ainda faltam alguns anos. Mas, nos dias ruins, minha energia para sair de casa e seguir em frente é saber que quando, finalmente, estivermos formados vamos poder construir tudo o que sempre sonhamos. E não importa se aqui, aí, na nossa cidade ou em outro canto do mundo. Com você, eu não preciso de mais nada.

Falta pouco, meu amor. Cinco anos passam rapidinho. Um dia a gente ainda vai olhar para trás e pensar “foi muito louco, mas passou”.  Acordei no meio da noite morrendo de saudades suas, olhei as horas e vi que você já deve estar saindo para a aula. Que seu dia seja abençoado e que você não esqueça nunca que eu te amo.

Com amor,

Matheus.

 

Bruna Paiva

 

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Pega, mas se apega, sim!

”Da sombra daquele beijo

Que farei, se a tua boca

É dessas que sem desejo

Podem beijar outra boca? ”

(Manuel Bandeira)

 

Nunca gostei da ideia vazia de ficar com qualquer um, em qualquer lugar. Isso de pegar sem se apegar, de ir para a balada e ficar com dois, três, ou mesmo só um com quem você não tem a menor intimidade, não tem graça nenhuma.

Eu respeito o pensamento, mas nunca me encaixei no time do “pega, mas não se apega”. E, às vezes, acho que, se tivesse essa capacidade, minha vida seria realmente mais fácil. Me pouparia de boa parte da minha coleção de estresses e decepções.

Mas eu não consigo. Gosto de conhecer as pessoas. De sentar, conversar e descobrir o que temos em comum, quais as nossas diferenças, o filme bobo que ele mais gosta, falar daquela música que eu amo… Gosto de frio na barriga, de mão suando e coração acelerado.

Gosto da vontade que vai crescendo a cada conversa. De sentir minha pele arrepiando quando me encosta. Da tensão pré-beijo e do formigamento enquanto sua mão me percorre. Gosto de beijo com desejo, com sentimento de “até que enfim”.

Eu gosto de perder o fôlego. De pele na pele e dedos entrelaçados. Gosto de sorriso compartilhado, de olho no olho, conversa banal e piadas internas. Eu gosto do sentimento, do algo a mais. Gosto de parceria, segurança, de saber que tem alguém ali….

Você tem todo o direito de não querer se apaixonar, apesar de estar sempre “pegando” alguém. Mas não venha tentar me convencer de que tudo isso perde para um beijinho de balada em quem você mal sabe o nome.

Bruna Paiva

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Só mais uma pra conta

O mundo não acabou. A vida não deu stop. O ar continua invadindo meus pulmões. Meus órgãos não desintegraram. O chão segue firme sob meus pés. A música no bar nem mesmo baixou de volume.

Mas dessa vez eu não fui surpreendida pela falta de mudança exterior. Sabia que não era o fim de nada além de mais um “nós” que nem era tão plural assim. Dessa vez, não chegou a doer. No máximo um incômodo que perturba um pouco, mas logo passa. Afinal, não foi nada de extraordinário, nada fora do costume.

Só mais um punhado de expectativas quebradas. Mais uma vez em que senti demais por quem sentia de menos. Talvez a culpa seja mesmo minha por me entregar demais, esperar demais. Mas que posso fazer se é só desse jeito que sei sentir?

Pelo menos, de certa forma, já aprendi a lidar com as pequenas decepções que me assolam de vez em quando. A velha receita sempre funciona: focar em outras coisas, encontrar um bom livro, sair com uns amigos e achar motivos para rir até machucar a barriga. E a dor que não for física a gente transforma em arte.

Bruna Paiva

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Último Porre

Então vamos brindar! Um brinde à minha solidão e à falta que eu ainda sinto de você. Uma dose pela dor e outra pela sua nova felicidade. Brindemos à mensagem que eu juro que foi o álcool quem te mandou há pouco. E à maquiagem agora rolando pelo meu rosto.

Garçom, mais uma garrafa, por favor. E traz com dois copos que é para brindar comigo mesma. Brindar às suas fotos que ainda estão na minha parede, mesmo que suas gavetas estejam vazias, e à sua boca que não beija mais a minha. Brindar à roupa de cama que ainda tem o seu cheiro e à minha cabeça que faz questão de repassar cada momento nosso. Um brinde à sua irmã que trabalha comigo e vai me fazer lembrar de você todos os dias.

Só mais essa, eu prometo. Talvez mais uma, duas ou três. Só para a bebida quente abraçar meu coração. Vamos brindar à minha casa bagunçada e à geladeira vazia, que eu não tenho vontade de encher. Meu trabalho pela metade, à academia que eu paguei e não fui, o encontro com meus amigos que eu faltei e tudo o que eu não tenho conseguido fazer porque você segue sendo só o que se passa na minha cabeça.

Moço, traz mais uma dose enquanto eu enxugo a cara suja de rímel na blusa branca que foi ele que me deu. Me dá mais tequila porque eu ainda lembro de tudo. De cada beijo, cada palavra e cada vergonha que eu já passei desde que ele me deixou. Pode trazer mais uma pra ver se eu esqueço, se eu consigo, com álcool, apagar toda essa dor.

Um brinde ao cara ali do lado que não para de olhar para mim e um outro para você que me obrigou a encher a cara para te esquecer. Esse é o último. O último, eu juro. Como jurei no anterior e vou acabar jurando no próximo. Mas enquanto não aprendo a cumprir o que prometo, vou tomando alguns últimos porres até que não precise mais jogar a culpa em você.

Bruna Paiva

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O amor não vê idade

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Ele tem 36, eu tenho 22. Ele tem um filho de 8 anos e eu não penso em engravidar tão cedo. Ele tem pós-doutorado e é bem-sucedido na profissão. Eu estou terminando a faculdade e torcendo para conseguir um estágio. Ele tem uma ex-mulher e eu uns dois ex-namorados. Ele conhece oito países e eu nunca saí do Sudeste. Ele comprou uma casa para os pais e eu ainda dependo dos meus para pagar a faculdade.

Estamos em fases diferentes da vida e somos extremamente felizes assim. Ele me ensinou a gostar de ler e aprendeu comigo a amar o Twitter. Ele passou a curtir Beyoncé e me levou para conhecer lugares incríveis. Ele faz um bife à parmegiana maravilhoso e ama meu pudim de leite.

Fiz ele voltar a curtir o Carnaval e, com ele, criei a tradição de assistir a todos os filmes indicados ao Oscar antes da premiação. Ele ficou muito interessado em aprender sobre moda e desenvolveu um estilo incrível que até combina com o meu. Ele diz que adora o jeito com que eu cuido do filho dele e eu realmente amo aquela criança. A ex dele me pediu ajuda para organizar a festinha de aniversário do menino e como a gente se divertiu!

Ele nunca tinha feito uma tatuagem e minhas sete acabaram o inspirando. Eu fiz ele assistir Gossip Girl e até ele se apaixonou por Chuck Bass. Ele me ensinou a usar post its para organizar meus cadernos e a casa dele é tão arrumada que eu passei a atender quando, na dela, minha mãe me manda arrumar o meu quarto.

A diferença de idade é grande, a gente ouve o tempo inteiro. Mas é exatamente o que faz nossa relação ser tão especial. A gente se completa. Um está sempre muito interessado no que pode aprender com o outro. Eu nunca estive me sentindo tão viva e madura. Nunca tive tanta certeza do meu sentimento por alguém. Contrariando todas as fofocas e pitacos sobre nossa vida, a gente se ama. E não são 14 anos que vão me impedir de me permitir ser feliz como nunca fui.

Bruna Paiva

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Necessidade de amar

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Aos 13 anos, eu tinha certeza de que precisava de alguém comigo para ser feliz. Essa ideia insistente na cabeça me fazia acabar apaixonada por qualquer um. O garoto mais velho que me dava atenção, o que nem olhava pra mim, o príncipe dos 15 anos da irmã da minha amiga. O colega de sala que perguntava a data, o primo da amiga, o amigo do primo, o professor bonito, o garoto da escola que parecia aquele ator de malhação. O vizinho, o namorado da garota lá da sala, o assistente do professor de luta do meu irmão, o amigo que não tinha nada a ver.

Estava sempre apaixonada por alguém, ou me convencendo de que precisava estar. De que aquele, sim, era o amor da minha vida. Vivia fantasiando as histórias mais loucas de amor com cada um que eu conhecia. E a pior parte disso é que eu sofria. Porque, é claro, a ideia de que eu, na adolescência, tinha a missão de encontrar o amor da minha vida era extremamente desgastante. E quanto mais o tempo passava, mais eu tinha certeza de que acabaria sozinha e abandonada no mundo.

Passei tanto tempo emendando uma paixão na outra, que não me lembro de uma fase daquela época que tenha passado sem gostar de ninguém. Acreditei tanto que precisava encontrar o amor que acabei banalizando o sentimento. Estava tão focada em amar e ser amada que acabei não conseguindo nenhum dos dois. A única coisa que meus “amores” de adolescência me trouxeram foi amadurecimento. E ainda bem que eu cresci para perceber que aquele sofrimento todo, as decepções, as horas trancada no quarto chorando ao som de Simple Plan não eram sinônimo de amor.

É bem verdade que, hoje, tenho certa preguiça de relacionamentos. Se me interesso por alguém, falo, corro atrás, mas se é muito complicado acabo perdendo o interesse mais rápido do que imaginava. Já a criatividade para as loucas fantasias de amor eu deixo para as personagens das histórias que escrevo. Depois de muito analisar minha adolescência, percebi que nunca precisei de um amor para viver com amor. Eu invejava os personagens dos livros e filmes que gostava e não prestava atenção em mim mesma.

E é tão mais fácil ser feliz quando se está bem com quem você é… Mas com 13, 14, e todas as outras idades dessa fase louca que é a adolescência, era aquilo que fazia sentido na minha cabeça. Não dava para ser feliz se eu não estivesse apaixonada. Mais uma vez, ainda bem que eu cresci! Todo o esforço que eu dedicava a me apaixonar e induzir um sofrimento sem sentido, hoje eu focalizo para as coisas que eu amo de verdade.

Eu amo passar horas cuidando do meu cabelo e pesquisando quais os melhores produtos para os tratamentos de que ele precisa. Amo assistir séries junto com o meu irmão, ainda que a gente nunca entre em acordo sobre a quantidade de episódios que vamos assistir por dia. Eu amo a sensação de liberdade de andar sozinha por aí. Amo sair com a minha família e bater papo com os amigos. Amo conhecer lugares diferentes e assistir a vídeos idiotas no YouTube. Amo dançar, fazer teatro e escrever.   Amo passar o dia de pijama assistindo de tudo na Netflix. Estudo o que amo e trabalho com isso também

Não, eu não desisti daquele amor que tanto procurei, nem deixei de acreditar que um dia a gente vai se esbarrar por aí. Mas a pressão que eu fazia sobre mim mesma para isso eu resolvi deixar de lado. Eu não preciso e nem quero um relacionamento nesse momento da minha vida. Se acontecer, ótimo, mas se não, é ainda melhor. Finalmente aprendi a ser feliz solteira. A me permitir ser livre e dizer sim ou não para o que eu bem entender.

Gostaria de ter descoberto essa paz antes. Que minha adolescência não tivesse sido tão conturbada em relação a isso. Mas só encontrei essa folga da necessidade de amar agora. E a sensação é maravilhosa.

Bruna Paiva

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Borboletas no estômago

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Na primeira vez em que senti aquilo no estômago não fazia ideia do que significava. Era um enjoo constante que me tirava o apetite por completo. Não conseguia comer nem metade do que botava no prato. Junto com o estômago, meu coração se comportava de maneira estranha e respirar também ficava mais difícil. Aquela confusão dentro de mim aumentava toda vez que ele falava comigo, pessoal ou virtualmente, toda vez que sentia seu perfume, ou o via passar de longe.

O tempo passou e quando olho para trás percebo que é assim que se descreve alguém apaixonado. Para a concepção geral, era amor o que eu sentia. Aquele enjoo inesgotável que me fez perder peso sem entender o porquê é chamado de borboletas. Acontece que isso não faz o menor sentido. Borboletas são bonitas, livres e cheias de vida. E, enquanto ele esteve na minha vida, eu deixei de ser tudo isso.

Aquela sensação confusa que misturava falta de ar, dor de barriga e coração acelerado me fazia mal. Não consegui me livrar daquilo durante muito tempo. Nem mesmo enquanto dormia, já que, além de brincar com o que eu sentia, ele teimava em aparecer nos meus sonhos.

Quanto mais eu o idealizava ao meu lado, mais sofria por não poder tê-lo de verdade e mais sentia o descontrole dos órgãos dentro de mim. Cassei minha própria liberdade e passei a viver em função dele. Sabotava tudo que não o envolvia sem perceber que estava acabando com o que existia de mim em mim mesma.

Depois de algum tempo e muito sofrimento, as tais borboletas morreram. Desde então nunca me permiti prendê-las aqui dentro. Quando, vez ou outra, elas resolvem fazer uma visita obrigo-me a manter o controle dos meus sentimentos. Deixo-as livres para saírem dali, sem permitir que causem toda aquela confusão. Assim, as borboletas podem enfeitar o mundo com sua beleza, liberdade e vontade de viver, em vez de ficarem presas dentro de mim. E eu posso fazer o mesmo.

Bruna Paiva

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Amores platônicos são mais seguros

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O medo não é do sentimento. O medo vem dos traumas passados, das mágoas que quase me sufocaram. Daquilo que até hoje me deixa insegura e convence-me da existência de segundas e terceiras intenções vindas de qualquer um a minha volta. Aquilo que me faz desconfiar de todos que me parecem simpáticos demais, gentis demais, perfeitos demais, e ao mesmo tempo reais e possíveis demais.

É por isso que não dou mole para aquele carinha por quem passo todos os dias e sei que está olhando para mim. Ou para aquele que puxa assunto sempre que me vê. Porque eles são reais, passíveis de causarem todo tipo de sentimento de verdade. Pela insegurança justificada por um medo de uma possível dor que seria tão palpável quanto seu causador.

Prefiro alimentar meus tantos amores platônicos. É por isso que fantasio com o cara que vi sair do metrô uma vez na vida, com o que faz vídeos para a internet no outro canto do país, com aquele professor gostoso que dá aula ali do lado ou com o cantor que de vez em quando lança uma música boa. É simples: eles são impossíveis. Tenho plena consciência de que, fora de minha cabeça, nunca acontecerá nada.

Esse é o detalhe que traz segurança. Sem a possibilidade de acontecer no mundo real, não há motivo para que eu acredite, que eu me iluda. Que eu me machuque de verdade. Sentir tendo consciência de que é platônico e irreal é muito mais seguro e confortável do que a instabilidade de não saber o que se passa na cabeça do outro.

Não me entenda mal, é claro que tenho vontade de viver algo intenso e real. Mas não para me machucar mais uma vez. A hesitação vem do medo de uma nova cicatriz. E eu sigo assim, com minhas platonices que não me ferem e também não fazem mal a ninguém.

Bruna Paiva

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