Cinco minutos

— Vai logo, Michele!

— Calma. Pega meu celular aqui.

— Gente, qual a dificuldade de mijar num palitinho?

 

Michele respirou fundo e não respondeu a irmã mais velha da forma como gostaria. Não bastava o estresse emocional de precisar passar por aquela situação num banheiro público. Agora, graças a Rayane, também precisaria lidar com o fato de todas as mulheres no banheiro mais frequentado do maior shopping da cidade saberem de sua incerteza. E se alguma conhecida de sua mãe aparecesse?

 

Pediu que a irmã pegasse o celular porque o aparelho não parava de apitar com as mensagens de Jean. É claro que o menino devia estar tão nervoso quanto ela, mas não ajudava nem um pouco perguntando sobre o teste a cada quinze segundos. Querendo ou não, aquele era um momento só dela, por mais assustador que fosse.

 

— Rayane, cala a boca. Por favor! — Pediu com a voz embargada e a irmã se aquietou.

 

Respirou três vezes, encarando a caixinha que comprara na farmácia do shopping, mesmo. Abriu a embalagem e leu as instruções. Um tracinho, negativo. Dois tracinhos, positivo. Se der positivo, pode ser falso, precisa fazer outra na semana que vem. E se o negativo for falso? A probabilidade de acerto do teste é de 99,99%. E se ela fosse o 0,01%? Dezessete anos atrás, sua mãe fez um teste que teve resultado negativo e, ainda assim, Michele nasceu.

 

Pegou o instrumento. Parecia um termômetro. A diferença era que o resultado no mostrador não podia ser resolvido com dipirona. Michele abaixou a calcinha, segurou a saia e posicionou o palitinho no lugar estratégico. A mão tremia e a respiração faltava. Fechou os olhos embaçados e fez o que devia ser feito. Fechou a tampa e esperou.

 

Pensou em sair da cabine e esperar o resultado com a irmã. Mas a cabeça rodava demais para isso. Era preciso estar consigo mesma. Sentou-se no vaso, com a tábua abaixada e pôs a cabeça no joelho. Seriam os cinco minutos mais longos de toda sua vida.

 

Pensou em Jean, no início do namoro no oitavo ano, duas crianças que se apaixonaram com a convivência diária. Lembrou de quando iam ao cinema, levados pelos pais, e quando matavam aula escondidos para ficarem juntos. Lembrou de cada virada de ano que faziam questão de passar juntos, desde o início do namoro. Lembrou de quando contou que a menstruação tinha atrasado uma semana, de como, mesmo com o olhar apavorado, ele disse que apoiaria qualquer decisão que ela tomasse.

 

Mas Michele não queria ter que decidir nada. Era uma decisão grande demais. E as duas opções existentes eram tenebrosas. Ter um filho aos dezessete anos, sem o Ensino Médio completo e nenhuma perspectiva de futuro nem condição de criar a criança era tudo o que ela não queria. Submeter-se a uma clínica clandestina, pagando um dinheiro que nem sua família, nem a de Jean tinham, e ainda correr o risco de morrer no processo, também parecia um filme de terror.

 

Conseguia imaginar os piores cenários possíveis para ilustrar a reação de sua mãe ao descobrir. Em todos, a cara de decepção era a mesma. Como levar essa notícia para a família? Tanto a dela quanto a de Jean ficariam desesperadas…

 

E as mudanças em seu próprio corpo? Absolutamente tudo que conhecia em si mesma mudaria. Aquela transformação é tão radical e bruta para o corpo da mulher que ela ainda nem era… Já suava frio de pensar na hora do parto e de toda a dor que com certeza sentiria. Michele não queria passar por nada daquilo.

 

Era aterrorizante a perspectiva de ter que lidar com as consequências de algo que ela sabia que era culpa sua. Sua e de Jean. Os dois foram irresponsáveis, priorizaram um momento em vez de pensar racionalmente. E, agora, os dois seriam obrigados a encarar tudo o que aquela decisão acarretava.  

 

Como terminariam os estudos? Como ela faria a faculdade de odontologia com que sonhava? Como conseguiria realizar os sonhos de fazer um intercâmbio, um mochilão e conhecer o mundo? De que forma seguiria com os planos traçados para a própria vida, sendo atropelada por uma responsabilidade tão grande?

 

— Irmã, tudo bem aí? — Rayane bateu à porta.

 

Michele tinha uma lágrima escorrendo pela face quando olhou o relógio no pulso. 5 minutos cravados. Virou o mostrador, e apertou os olhos e a boca quando viu o resultado.  Apoiou a cabeça nos joelhos novamente e se permitiu chorar. Do lado de fora, Rayane ouviu a irmã e levou a mão ao rosto, sabia o motivo do pranto de Michele.

 

Dois tracinhos. Grávida. Nada estava bem.

 

Bruna Paiva

 

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Meu aborto é por amor

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Não, não é egoísmo. Não, eu não o odeio. De forma alguma odiaria alguém tão puro e inocente quanto eu gostaria de ser. Como colocar uma criança num mundo tão sujo e cruel? Como cuidar de alguém que depende de mim quando mal consigo sobreviver?

Não quero carregar a culpa de ter colocado alguém nesse mundo sem escrúpulos. Não quero precisar mentir dizendo que é um bom lugar para se viver. Não quero que meu filho viva para ver qual será a próxima guerra, ou novo preconceito infundado. Não quero que ele veja a injustiça social escancarada, enquanto a corrupção é camuflada por quem, na teoria, zela pelo bem comum.

Não quero que meu filho sofra pelo que essa corja de monstros faz com o planeta. Esses são egoístas. Só pensam no tal do progresso enquanto poluem nosso ar e acabam com a água de gerações que nem chegaram ainda.

Não quero que ele viva num mundo onde viramos a cara para quem nos pede ajuda nas ruas. Nesse lugar em que fingimos que dormimos quando uma grávida entra no ônibus. Onde o dinheiro é o foco principal da vida e o ser humano se permitiu escravizar pelas aparências. Numa sociedade fútil em que gritar a felicidade nas redes sociais é mais importante que ser feliz na vida real.

Não quero que meu filho viva num mundo em que precisamos ter medo de nossa espécie. Num mundo em que te aconselham a não andar de shorts para não ser abusada. Não quero colocar uma criança nesse lugar que já deixei de tentar mudar há tempos. Num lugar em que não há mais espaço para amor, compaixão ou gentileza.

Lugar em que respeito e gratidão são a exceção. Onde quem tem voz para falar com as massas só a usa em benefício próprio. Em que celebridades instantâneas   são canonizadas. Não quero que meu filho viva num mundo de gente que não sabe ser feliz. Gente que adora reclamar de tudo. Gente que se odeia mas não abre mão da falsidade.

Gente que se diz religiosa, mas julga a fé e as escolhas dos outros. Gente que acha que o mundo gira ao seu redor. Gente que abusa do poder que tem. Gente vazia que sente prazer em ser escrota com os outros.

Não quero que meu filho seja a próxima vítima dessa gente de merda, desse mundo de merda.

É por isso que não o terei. Não por egocentrismo. Não porque, assim como você, sou uma aberração. Mas porque quero poupá-lo. Meu aborto não é obsceno. Meu aborto não é absurdo. Amo meu filho e quero salvá-lo desse mundo nojento. A decisão cabe a mim, não a você.

Bruna Paiva

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