A bailarina

“Você é bailarina?”

Fernanda tirou os olhos do livro ao ouvir a pergunta. A plataforma pouco movimentada à espera do metrô não deixava muita dúvida de que era com ela que falavam. Sem tirar as costas da parede, olhou para baixo e logo encontrou a dona daquela voz delicada a encarando, esperando uma resposta.

“Já fui”, respondeu confusa observando a garotinha. Corpinho franzino que parecia começar agora o processo de puberdade. Vestida com o uniforme de uma das maiores escolas de dança da cidade, ela trazia os cabelos bem presos num coque amarrado por fita azul e as mãos segurando as alças da mochila. Uma mulher de meia idade observava a cena de não muito longe.

“Dá pra ver”, a menina falou apontando com a cabeça para os pés de Fernanda, que riu ao perceber as próprias pernas em primeira posição. Hábito involuntário. Uma vez bailarina, sempre bailarina.

“Você não dança mais?”

“Tive que parar”, respondeu fechando o livro e desmanchando a posição dos pés. Se escorou de lado na parede, passando o peso para uma perna só. “E você? Essa escola aí é boa, hein…” , falou apontando para a camisa da menina.

“É! A melhor da cidade! Estou começando a subir na ponta!” A menina sorriu empolgada, fazendo Fernanda sorrir de volta.

“Que legal! Esse é um momento importante, né? Tem que se dedicar muito.”

“É… É difícil. Dói muito. Você subia na ponta?”

“Subia. Subia, sim.”, Fernanda respondeu com um suspiro e a criança a encarou na espera da explicação que não veio.

“Por que você não dança mais?”

Fernanda mordeu o lábio e desviou os olhos pro trilho vazio antes de responder.

“Eu me machuquei… Aí não pude continuar.”

“Se machucou dançando?”

“Foi.”, respondeu com a cabeça fora dali. O trabalho, os ensaios, as conquistas. O palco, o solo, a variação tão desejada. A temporada dos sonhos, a vida como sempre quis. O salto, a queda, o silêncio, o público, o alvoroço. A dor, o desespero, a correria, os rostos assustados. O socorro, o hospital, os médicos, a cirurgia, o pavor. As sequelas, a negação, a fisioterapia, a insistência, o veredito: sonho destruído.

“Eu não quero parar. Eu amo dançar. Quero dançar a vida inteira.”

A menina recomeçou a falar obrigando-a a voltar para o presente. Fernanda sorriu não podendo evitar que seus olhos enchessem de lágrimas. Se reconheceu na pequena.

“Então se dedique muito. E se cuide direitinho…”

A mulher que até então apenas observava a cena finalmente se aproximou, colocando o braço em volta da criança

“Filha, chega de perturbar a moça.”

“Não, imagina… Uma graça a sua filha.”

“Obrigada.”

“Mãe, ela é bailarina. Quer dizer, era. Aí a gente está aqui conversando coisas de ballet”

Fernanda riu ainda tentando disfarçar os olhos molhados. Antes que pudesse responder, um metrô apareceu na plataforma.

“É o nosso.”, falou a mãe da criança. Era o dela também, mas Fernanda preferiu fingir que não, esperaria sozinha pelo próximo carro.

“Qual o seu nome?”, perguntou antes que a criança fosse embora.

“Fernanda!” Riu da coincidência, guardando-a para si mesma e falou:

“Boa aula, Fernanda. Não desista dos seus sonhos” a menina agradeceu alegre e Fernanda sorriu de volta, murmurando um “boa sorte”, enquanto o vagão ia embora.

Bruna Paiva

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Que alegria, tudo ficou bem!

Apresentacao_Bruna_059Quando a gente escolhe ser bailarina, sabe que a vida não vai ser lá tão glamorosa quanto parece. Para quem dança, o bastante nunca basta, pés esfolados são parte da rotina e a frase “não posso, tenho ensaio” se torna quase um mantra. Ainda assim, a dança vicia. A busca pela perfeição, a adrenalina correndo pelo corpo, a sensação de se estar voando, tudo isso é apaixonante.

blog2Comecei a dançar aos quatro anos de idade. Resolvi levar a dança mais a sério aos 14. Foi aí que procurei uma das mais conceituadas escolas de dança do Rio de Janeiro. No Centro de Dança Rio, evoluí pra caramba e encontrei quase uma segunda casa (na verdade, passo mais tempo por lá do que no meu lar propriamente dito). A cada dia tenho a sensação de ser um pouquinho mais bailarina de verdade.
2015 foi um ano muito difícil e extremamente pesado em todos os aspectos da minha vida. Último ano na escola, cursinho pré-vestibular, dança todo dia de 14h às 18h, indecisão na definição profissional, lesões, correria e ensaios, festivais de dança durante todo o ano, blog precisando de atenção, eventos literários…

Confesso que dei algumas (muitas) surtadas entre março e novembro. Cheguei a pensar, mais de uma vez, em largar tudo para dar conta do vestibular. E, meu Deus, ainda bem que eu desisti dessa ideia louca. Largar a dança? Onde eu estava com a cabeça?blog3

No último sábado (28-11) apresentamos o espetáculo de encerramento de 2015 no Teatro Odylo Costa Filho. Eram dois atos no espetáculo adulto: o primeiro de ballet clássico Magia Oriental, era uma festa no palácio do Sultão; o segundo, o musical Meu Casamento, inspirado em Mamma Mia da Broadway. E foi tudo tão mágico, tão incrível que eu só quero voltar para lá e viver aquele dia em looping.

Nunca havia chorado no palco. Não por pura emoção (já saí do palco chorando porque caí da pirueta, porque deu tudo errado na coreografia, bom, deixa pra lá…). Pelos ensaios, tivemos ideia de que iríamos nos emocionar. Mas da maneira que aconteceu, não mesmo. Foi simplesmente mágico, lindo, divertido. Uma delícia dançar nesse espetáculo, qualquer um via o quanto estávamos felizes em cima daquele palco. E só em pensar que ano que vem é o meu último ano, minha formatura, com minha turma mais unida do que nunca… Pois é, já voltei a chorar.Blog4

Por falar em chorar, esse foi o primeiro ano em que cantamos no musical. E que fale agora ou nunca mais aquele que não se emocionou com o nosso “Que Alegria!”. É óbvio que vou deixar um trechinho aqui no blog para vocês. Nada representa melhor o sentimento desse espetáculo do que esse vídeo.

Foi lindo, emocionante e a melhor maneira de fechar um ano tão complicado. Sim, “quase enlouquecemos”. Mas, no fim, “tudo ficou bem”. E cada ensaio, cada machucado, distensão, discussão, cada estresse, cada centavo gasto, cada lágrima derramada, cada sábado e feriado cedido para ensaios, tudo foi recompensado. Fechamos 2015 da melhor forma possível. E podem esperar porque eu e os outros 17 formandos 2016 com toda certeza “voltaremos no ano que vem”.

Bruna Paiva

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