O meu silêncio

 

O meu silêncio é grito

O meu silêncio é dor

O meu silêncio é saudade

É sufoco, desespero e impotência

 

O meu silêncio é duro

Breathetaken

Meu silêncio é monólogo

É cada discussão contornada

 

Tudo o que eu queria dizer e

não disse

 

Me silêncio é pesado

É papel de repente manchado.

De tinta

E lágrima

 

O meu silêncio é protesto

infinito preso na garganta

Agonia que afunda no estômago

 

É estaca que entra devagar

E se enterra cravada na alma

 

É ar que entra

E não satisfaz

 

É vida sugada

Energia não gasta

O meu silêncio é tromba d’água camuflada em calmaria

 

O meu silêncio é pedido de socorro

E eu venho berrando há muito tempo.

 

Bruna Paiva

 

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Necessidade de amar

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Aos 13 anos, eu tinha certeza de que precisava de alguém comigo para ser feliz. Essa ideia insistente na cabeça me fazia acabar apaixonada por qualquer um. O garoto mais velho que me dava atenção, o que nem olhava pra mim, o príncipe dos 15 anos da irmã da minha amiga. O colega de sala que perguntava a data, o primo da amiga, o amigo do primo, o professor bonito, o garoto da escola que parecia aquele ator de malhação. O vizinho, o namorado da garota lá da sala, o assistente do professor de luta do meu irmão, o amigo que não tinha nada a ver.

Estava sempre apaixonada por alguém, ou me convencendo de que precisava estar. De que aquele, sim, era o amor da minha vida. Vivia fantasiando as histórias mais loucas de amor com cada um que eu conhecia. E a pior parte disso é que eu sofria. Porque, é claro, a ideia de que eu, na adolescência, tinha a missão de encontrar o amor da minha vida era extremamente desgastante. E quanto mais o tempo passava, mais eu tinha certeza de que acabaria sozinha e abandonada no mundo.

Passei tanto tempo emendando uma paixão na outra, que não me lembro de uma fase daquela época que tenha passado sem gostar de ninguém. Acreditei tanto que precisava encontrar o amor que acabei banalizando o sentimento. Estava tão focada em amar e ser amada que acabei não conseguindo nenhum dos dois. A única coisa que meus “amores” de adolescência me trouxeram foi amadurecimento. E ainda bem que eu cresci para perceber que aquele sofrimento todo, as decepções, as horas trancada no quarto chorando ao som de Simple Plan não eram sinônimo de amor.

É bem verdade que, hoje, tenho certa preguiça de relacionamentos. Se me interesso por alguém, falo, corro atrás, mas se é muito complicado acabo perdendo o interesse mais rápido do que imaginava. Já a criatividade para as loucas fantasias de amor eu deixo para as personagens das histórias que escrevo. Depois de muito analisar minha adolescência, percebi que nunca precisei de um amor para viver com amor. Eu invejava os personagens dos livros e filmes que gostava e não prestava atenção em mim mesma.

E é tão mais fácil ser feliz quando se está bem com quem você é… Mas com 13, 14, e todas as outras idades dessa fase louca que é a adolescência, era aquilo que fazia sentido na minha cabeça. Não dava para ser feliz se eu não estivesse apaixonada. Mais uma vez, ainda bem que eu cresci! Todo o esforço que eu dedicava a me apaixonar e induzir um sofrimento sem sentido, hoje eu focalizo para as coisas que eu amo de verdade.

Eu amo passar horas cuidando do meu cabelo e pesquisando quais os melhores produtos para os tratamentos de que ele precisa. Amo assistir séries junto com o meu irmão, ainda que a gente nunca entre em acordo sobre a quantidade de episódios que vamos assistir por dia. Eu amo a sensação de liberdade de andar sozinha por aí. Amo sair com a minha família e bater papo com os amigos. Amo conhecer lugares diferentes e assistir a vídeos idiotas no YouTube. Amo dançar, fazer teatro e escrever.   Amo passar o dia de pijama assistindo de tudo na Netflix. Estudo o que amo e trabalho com isso também

Não, eu não desisti daquele amor que tanto procurei, nem deixei de acreditar que um dia a gente vai se esbarrar por aí. Mas a pressão que eu fazia sobre mim mesma para isso eu resolvi deixar de lado. Eu não preciso e nem quero um relacionamento nesse momento da minha vida. Se acontecer, ótimo, mas se não, é ainda melhor. Finalmente aprendi a ser feliz solteira. A me permitir ser livre e dizer sim ou não para o que eu bem entender.

Gostaria de ter descoberto essa paz antes. Que minha adolescência não tivesse sido tão conturbada em relação a isso. Mas só encontrei essa folga da necessidade de amar agora. E a sensação é maravilhosa.

Bruna Paiva

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Aniversário do blog! Três anos de Adolescente Demais!

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Hoje, 26 de dezembro, é aniversário do Adolescente Demais. Três anos atrás eu começava o blog que ia mudar a minha vida.

Em 2013, eu tinha 15 anos e estava saindo de um ano muito pesado em todos os sentidos da minha vida. O único lugar em que eu conseguia expressar o que eu sentia naquele período cheio de emoções era meu bloguinho sem domínio, com layout brega, e que ninguém se dava o trabalho de ler. Naquele ano, eu só percebi a importância que o blog tinha para mim quando o perdi.

Na época, tive raiva, muita raiva e fiquei extremamente decepcionada. Mas, hoje, percebo que, não fosse a maldade que fizeram com meu primeiro blog, muita coisa incrível não teria acontecido. Criei o Adolescente Demais no final de um ano difícil e, três anos depois, reconheço que aquele 26 de dezembro mudou completamente minha vida.

Por causa do blog, comecei a escrever mais e mais. Por causa do blog, tive contos publicados, conheci pessoas incríveis e comecei a me encantar cada vez mais pelo mercado editorial. Por causa do blog eu decidi que queria a escrita para minha vida, escolhi minha faculdade e, por isso, estou aqui hoje. Por causa do Adolescente Demais eu sou a Bruna Paiva.

Muito obrigada universo, por ter me proporcionado essa mudança lá em 2013, mesmo que, de alguma forma, tenha me feito sofrer. Ninguém cresce, nem amadurece sem dor e tropeços. Muito obrigada à minha família pelo apoio de sempre. Por terem me incentivado a criar outro blog e continuar a escrever; e por continuarem me apoiando a cada nova decisão. Obrigada meus leitores incríveis! Sem vocês o Adolescente Demais não teria muita graça.

E obrigada principalmente a você, meu querido blog. Por estar comigo todos esses anos, por cada conquista e por me permitir ter onde expressar aquilo que sinto. Vamos juntos para sempre. Eu com você e você comigo.

Bruna Paiva

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Medo de ser humano

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Tenho medo de sentar no ônibus que preciso pegar todos os dias e ser assaltada. Tenho medo de estar voltando para casa de noite, sozinha, e ser estuprada. Tenho medo enquanto me divirto. Medo de não conseguir proteger quem eu amo numa situação extrema. De estar dormindo e não ouvir alguém invadir a casa.

Tenho medo de brigas no trânsito, e de desentendimentos bobos com qualquer um que eu não conheça bem. Medo de que meu pai não volte para casa quando sai para passear com o cachorro. De que alguém cisme com meu ídolo ao ponto de atacá-lo. Tenho medo de engarrafamentos em vias expressas sem policiamento. Tenho medo de passar perto da própria polícia. Medo de deixar o medo de lado por cinco minutos. De piscar e o mundo desabar.

 Tenho medo quando o metrô lotado para antes da estação. Tenho medo de estar me divertindo no meio de uma multidão. De que alguém ache uma boa ideia estourar uma bomba, ou abrir fogo contra as pessoas, enquanto curto o show do artista que eu gosto, ou enquanto estou na sala de aula. Procuro distância de tudo o que me parece ameaçador. Medo de cada um que cruze o meu caminho. E apesar de abominá-los, eu tenho medos xenofóbicos e preconceituosos.

Tenho medo de um mundo ameaçado pelo ódio, caos e terror. Medo da minha impotência, da minha insignificância. Tenho medo de não ter controle, medo do inesperado. Tenho medo de morrer, ou perder quem eu amo. O tempo inteiro. Tenho medo por ser mulher, medo por ser jovem, medo de ser quem eu sou e de ser mal interpretada. Tenho medo de ser humana. Medo dos seres humanos.

Bruna Paiva

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Eu desisti

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Sim, eu desisti. Do que foi meu maior objetivo durante a vida inteira. Daquilo pelo que dei suor e sangue para conseguir. Sim, desisti quando estava quase chegando aonde tanto sonhei. Desisti porque, às vezes, tudo aquilo que você sempre quis pode não ser o que você quer de agora em diante.

Vergonha? Não há nada de errado em desistir de algo só porque lutei tanto para conseguir. Acredito que é preciso sim coragem. E muita. Para enfrentar o mundo de cabeça erguida e assumir que o que costumava dar sentido à sua vida não tem mais nada a ver com você. Todo mundo julga e condena sem ter direito algum. Era eu quem estava presa a um futuro que escolhi anos atrás. A gente muda, nossas prioridades e sonhos também.

Ainda não sei o que vou fazer a partir de agora. E sei que não será fácil. Afinal, passei anos me preparando para algo em que eu não acredito mais. É o que eu fui programada para saber. O problema é que eu cansei, não conseguia mais projetar minha vida para frente e me enxergar feliz em cinco ou dez anos. Desgastei cada migalha do que um dia já foi meu sonho e hoje só me sobra a estafa.

Só não quero mais viver assim. Presa. Sem perspectiva de futuro e fazendo algo que eu não gosto, só porque vivi até aqui me dedicando para isso.

Bruna Paiva

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As certezas da minha vida

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Quando eu tinha 12 anos, tive certeza de que não poderia viver sem meus ídolos. Aos 14, acreditei com todas as forças que jamais me apaixonaria novamente. Aos 15, achei que nunca mais fosse fazer amigos. Aos 17, não botei fé em passar no vestibular. Com 19 anos, a ideia de não achar um amor para dividir a vida me aterrorizou.

Aos 25, me sentia nova demais para casar. Aos 31, velha demais para não ter um filho. Aos 34 tive certeza de que a maternidade arruinaria minha carreira. Aos 39, que minha carreira arruinaria a infância de meus filhos.

Aos 47, não pensei que fosse sobreviver à morte de meu pai. Aos 52, tive certeza de que morria junto com minha mãe. Com 55 anos, achei que fosse enlouquecer com os preparativos do casamento de minha filha. Dois anos depois, acreditei que ser avó faria de mim uma velha à beira da morte. Aos 58, pensei que seria triste para sempre com a saída do meu caçula de casa.

Aos 60, tive a certeza de que me aposentar me aproximaria da cova. Aos 63, julguei loucura viajar para lugares insanos com meu marido. Três anos depois, não acreditei que voltaria a ser feliz numa vida onde eu não o tivesse ao meu lado. Aos 67, a depressão me fez ter certeza de que não viveria até os 75.

Mas eu sobrevivi. Passei pelo fim da minha banda preferida com poucas lágrimas, aos 13. E me apaixonei incontáveis vezes depois dos 14. Superei as amizades perdidas aos 15 e fiz outras muitas ao longo da vida. Passei no vestibular na primeira tentativa. Encontrei o amor da minha vida aos 21, e antes disso curti muito a liberdade de ser solteira. Casei aos 25 e percebi que a idade foi perfeita para mim. Minha primeira filha veio aos 32, o segundo aos 34, e me percebi finalmente madura para cuidar de duas crianças.

A maternidade não arruinou minha carreira. E mesmo em meio aos plantões e loucuras de ter uma mãe médica, meus filhos tiveram uma infância incrível. Sobrevivi à perda de meus pais, embora ainda doa lá no fundo a falta que eles me fazem.

O casamento da minha filha foi emocionante e guardo com carinho as lembranças da loucura que foram os preparativos. O brilho no olhar de minha neta acabou me fazendo sentir mais jovem. Meu caçula saiu de casa para ganhar o mundo e hoje morro de orgulho do músico bem-sucedido que ele se tornou. A aposentadoria foi um alívio. Me afastou de obrigações chatas, me deu mais tempo para curtir a vida, estar com as pessoas que amo.

As viagens excêntricas com meu marido são algumas das melhores lembranças da minha vida. Depois que ele se foi, apesar da dor, resolvi seguir em frente. Me mudei para a casa de minha filha e meus dois netos são minha maior alegria. E aqui estou agora, rodeada de pessoas felizes, celebrando meu aniversário de 80 anos.

 Eu tive várias certezas ao longo da vida. E ainda bem que estava errada na maioria delas…

Bruna Paiva

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Boa tarde, motorista

Data da foto: 2005 Cadeiras e bancos diversos.

Imagem: Reprodução

O ônibus para no ponto, o motorista abre a porta. Um menino de no máximo14 anos, vestindo o uniforme das escolas municipais do Rio de Janeiro, grita da calçada: “abre lá atrás?”. O motorista diz que não. Confuso, o garoto mal se mexe tentando compreender o porquê da negativa, já que alunos de escolas públicas não precisam pagar passagem. Eis que o motorista o encara de volta e ensina: “Primeiro se diz boa tarde. Depois você fala assim: posso entrar por trás, por favor?”. Constrangido, o menino repetiu a frase e o motorista abriu a porta de trás do ônibus.

A cena se repetiu durante todo o trajeto, de aproximadamente uma hora, entre minha casa e minha escola de dança. Cada jovem que fazia sinal para o ônibus e reproduzia o comportamento  daquele primeiro aluno, ouvia o mesmo discurso do motorista.

Lá pelo sexto estudante, um garoto, que devia ter seus 19 anos, e também assistira a todas aquelas cenas, disse ao motorista: “tá certo, meu amigo. Você tá certo”. E quando eu achei que aquele motorista já havia proporcionado, além de umas boas gargalhadas, um válido ensinamento para todo mundo ali dentro, ele resolveu desbafar:

“Ah, mas tem que ser assim. Eles tratam a gente que nem cachorro. Pô, tô aqui trabalhando e não dão nem um ‘boa tarde’. Todo dia é a mesma coisa. Agora você me diz, de que adianta ter estudo se não têm educação?”

Alguns pontos a frente, uma idosa subiu no ônibus e começou a gritar por achar que o motorista demorava para dar seu troco. Assim como com os estudantes, o motorista olhou para ela e disse “Boa tarde, senhora. Não precisa gritar. É só esperar que eu já vou dar o seu troco”. Nunca entendi por que depois de uma certa idade algumas pessoas acham que não precisam mais de educação.

Pode até ser que os estudantes e aquela senhora não tenham aprendido nada; mas prefiro acreditar que depois daquele dia eles passaram a se preocupar mais com o modo de falar. Ei, moço, se você por acaso está lendo esse texto, parabéns, você foi sensacional naquela tarde.

Bruna Paiva

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O que você faria se soubesse que esse é o seu último dia na Terra?

ultimo dia da terra

Eu faria uma aula de ballet. Depois uma de sapateado, talvez uma de jazz também. Eu escreveria para o meu diário, que esteve comigo em todos os momentos da minha vida. Eu tentaria falar com todos aqueles que eu amo e agradecer por tudo, dizer o quanto eu os amo. Tentaria também falar com todas as pessoas que já foram, de alguma forma, importantes na minha vida e agradecê-las.

Eu provavelmente escreveria para meus ídolos agradecendo todas as loucuras que eles me proporcionaram. E abraçaria muito forte o meu irmão. E meu pai. E minha mãe. E minha avó. Bom, acho que teria um bocado de abraços muito fortes para dar.

Talvez eu escrevesse um texto sobre a sensação de se saber que esse é o último dia de sua vida. Taí, daria um bom texto.

Eu comeria macarrão, e petit gateou, e camarão. E costela com molho barbecue. Sushi! Com certeza sushi. E o bolo de doce de leite crocante da Lecadô, definitivamente esse bolo. E comida árabe. Meu Deus, eu amo comida árabe. E o milk-shake de Ovomaltine do Burger King. Ah, e também um hambúrguer na Madero, que é a melhor hamburgueria que eu já fui na minha vida. Lógico que eu não conseguiria comer isso tudo. Então comeria um pouco de cada um e depois garantiria a refeição do dia para alguns moradores de rua.

Bom, eu ligaria o som no último volume, escolheria uma música que eu amo e dançaria que nem louca no meu quarto. Só de calcinha. Eu assistiria cenas dos meus filmes preferidos e leria trechos dos livros que mudaram minha vida. Reuniria alguns amigos para relembrar momentos engraçados e chamaria meus primos para fazermos uma última bagunça, daquelas que fazem lembrar a importância de se ter uma família.

Eu conversaria com meu irmão e correria com minha cachorra. Eu iria numa perfumaria só para passar o meu perfume favorito. Eu pintaria uma unha de cada cor para a indecisão não me corroer. Eu tomaria um banho de mangueira como quando eu era criança. Eu iria até a praia e me lambuzaria de areia. Falando em lambuzar, eu realizaria um sonho que a Xuxa plantou na minha cabeça. Envolve baldes de tinta e muita sujeira.

Pensando bem, tudo o que eu faria se eu soubesse que ia morrer eu posso fazer sem essa pressão… Quando comecei a escrever esse texto minha intenção não era essa. Ouvi a pergunta “o que você faria se fosse seu último dia na Terra?” e resolvi pensar.

Depois de colocar para fora tudo aquilo que veio em minha cabeça, percebi que são coisas que posso fazer em qualquer dia da minha vida e significam tanto que não consegui pensar num último dia de vida sem elas. Mas a questão é que eu não preciso estar morrendo para fazer nada disso. Acontece que só damos valor às coisas quando perdemos. Ou, nesse caso, quando nos vemos prestes a perder.

Bom, não tenho como realmente prever quando será meu último dia na Terra. Mas tendo em mente que essas são algumas das coisas mais importantes da minha vida, acho que posso começar a coloca-las em prática. Afinal, não se sabe o dia de amanhã.

E você? O que faria se esse fosse seu último dia na Terra?

Bruna Paiva

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Amores platônicos são mais seguros

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O medo não é do sentimento. O medo vem dos traumas passados, das mágoas que quase me sufocaram. Daquilo que até hoje me deixa insegura e convence-me da existência de segundas e terceiras intenções vindas de qualquer um a minha volta. Aquilo que me faz desconfiar de todos que me parecem simpáticos demais, gentis demais, perfeitos demais, e ao mesmo tempo reais e possíveis demais.

É por isso que não dou mole para aquele carinha por quem passo todos os dias e sei que está olhando para mim. Ou para aquele que puxa assunto sempre que me vê. Porque eles são reais, passíveis de causarem todo tipo de sentimento de verdade. Pela insegurança justificada por um medo de uma possível dor que seria tão palpável quanto seu causador.

Prefiro alimentar meus tantos amores platônicos. É por isso que fantasio com o cara que vi sair do metrô uma vez na vida, com o que faz vídeos para a internet no outro canto do país, com aquele professor gostoso que dá aula ali do lado ou com o cantor que de vez em quando lança uma música boa. É simples: eles são impossíveis. Tenho plena consciência de que, fora de minha cabeça, nunca acontecerá nada.

Esse é o detalhe que traz segurança. Sem a possibilidade de acontecer no mundo real, não há motivo para que eu acredite, que eu me iluda. Que eu me machuque de verdade. Sentir tendo consciência de que é platônico e irreal é muito mais seguro e confortável do que a instabilidade de não saber o que se passa na cabeça do outro.

Não me entenda mal, é claro que tenho vontade de viver algo intenso e real. Mas não para me machucar mais uma vez. A hesitação vem do medo de uma nova cicatriz. E eu sigo assim, com minhas platonices que não me ferem e também não fazem mal a ninguém.

Bruna Paiva

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Verdade ou consequêcia

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Sabe, ainda lembro do que passou na minha cabeça quando te conheci.   “Bonitinho, mas muito bobo e, meu Deus, como é metido.” Tinha um rolo com uma menina mais velha e parecia nem perceber minha existência. Mas um dia você se aproximou. Conversamos por horas e, confesso, comecei a te olhar de um jeito diferente.

No fundo, você não era metido e eu não era a garota estranha que você pensou. Tinha histórias para contar e também gostava do meu escritor favorito. Zoou meu gosto musical e me fez gargalhar quando imitou o meu ídolo cantando.

Eu era de humanas, você de exatas. Continuei odiando os números. Mas passei a ver a física com outros olhos. Sua paixão pelo que fazia era comovente.

Fui apresentada a seus amigos e as minhas amigas amaram te conhecer. No meu aniversário, eu juro que não esperava o que armaram para mim. Um fim de semana na minha praia preferida. Foi incrível, foi perfeito. Uma das melhores lembranças daquela época.

Não lembro como aconteceu. Um dia olhei para o lado enquanto conversávamos e me percebi completamente apaixonada por aquele menino bonito, bobo, mas nem um pouco metido.  Resolvi sentir calada. Não queria estragar nossa amizade. Se o sentimento não fosse recíproco, eu não suportaria que você se afastasse.

Passei meses louca por você. Mas continuei agindo apenas como uma boa amiga. Aquilo me matava por dentro. Te tinha sempre por perto, porém nunca da forma que eu queria.

Você me conhecia. Percebeu que havia algo estranho. Quando perguntou se estava tudo bem, pedindo que eu confiasse em você, não consegui mais segurar. Te disse tudo o que sentia, com lágrimas descendo no rosto e soluços subindo no peito. Você escutou tudo com seriedade e esperou que eu terminasse de falar. E então me beijou, para depois dizer que esperava por esse momento desde nossa primeira conversa.

Como casal, conseguimos nos entender ainda melhor do que como amigos. Éramos um só. Ninguém pensava na Júlia sem o Daniel ou vice-versa. Nos amávamos tanto que mal podíamos conter nossos planos. Viagens, festas, família, negócios…

Depois de tantos anos juntos, eu (e todo mundo que nos conhecia) achava que íamos nos casar. Sei que também era a sua vontade. Mas então você ganhou aquela oportunidade. Físico reconhecido no Brasil convidado a estudar na Europa.

Você ainda era novo, não podia perder aquela chance. Quis me levar junto, mas minha profissão não permitia. Atriz em cartaz no teatro e com filmagens de cinema me prendendo no país. Confesso que não queria que você fosse, pensamento egoísta. Mas não disse nada porque sabia que era importante para sua carreira.

O dia chegou e nossa despedida foi estranha. Me lembrei de tudo o que passamos e como eu nem imaginava que me tornaria tão dependente de te ter comigo. Você entrou naquele avião prometendo que nada mudaria entre nós. Afirmei aquilo para mim mesma, mas no fundo eu sabia que seria difícil com um oceano nos separando.

No primeiro ano funcionou. Nos falávamos todos os dias, da maneira que o fuso-horário permitisse. Você voltou para o Natal e a saudade era tanta que só aquela semana não foi suficiente. Ainda assim, você precisou voltar para sua física. E eu para meu filme que, àquela altura, já estava próximo de estrear.

Nas primeiras semanas depois daquele Natal, a distância começou a balançar nossa relação. Era desgastante, e não tínhamos muito tempo um para o outro. Começamos a nos afastar gradualmente. O tempo curto passou a ser um grande vilão.

E foi então que eu fiz a maior burrada da minha vida. Para promover o filme, aceitei assumir um romance com meu colega de trabalho. Ideia do diretor que logo fez meu nome ir parar nos maiores sites de fofoca. Ainda mais com a notícia de uma gravidez.

Não imagino o tamanho da sua dor quando soube. Mas ainda me lembro de cada palavra que usou contra mim. Todas se cravaram no meu peito como estacas. O pior de tudo foi não poder discordar de você. Estava com raiva de mim, com razão.

Eu só não te contei que era tudo mentira. Nem que a criança em meu ventre era fruto do nosso amor. Afinal, meu novo romance era pura fachada. Não te contei porque quis te poupar. Não era justo que desistisse do seu sonho por mim. Hoje percebo que também fui injusta. Você tinha o direito de saber.

Meu namorado de fachada assumiu nossa criança quando lhe contei parte da história, dizendo que o pai era um ex-namorado. Ainda que achasse aquilo uma grande loucura. Ele era um cara legal. Acabamos nos entendendo e formando uma família, embora eu nunca o tenha amado. Ficamos juntos e educamos nossa filha. Ele se tornou um pai incrível. Mas não chega perto do que eu sei que você seria.

Sei que provavelmente me odeia. Mas logo hoje, na data de nosso primeiro beijo, nossa menina completa 15 anos. E eu não aguento mais mentir sobre a paternidade dela.

Moramos só nós duas num apartamento maior que o necessário. O “pai” dela e eu nos separamos há 10 anos. Não se mantém uma relação formada por mentira durante tanto tempo. Mas ele ama nossa Maria Clara. É linda a relação dos dois.

A única que sabia de tudo era minha mãe, que morreu há cinco meses. No funeral dela, eu só queria o seu abraço, o seu apoio. Mas quem cuidou de mim foi nossa filha. Ela é o único atenuante de minha infelicidade.

Soube que está na cidade. Visitando sua mãe junto à família que formou na França. Seus filhos são lindos, sua mulher ainda mais. E eu só queria que eles não existissem. Queria poder fazer tudo diferente. Voltar no tempo e ir com você para a Europa. Queria nossos sonhos, nossos planos, tudo realizado.

A verdade é que eu te amo. Depois de todo esse tempo, não deixei de te amar um segundo sequer. Quinze anos se passaram e eu não aprendi a viver sem você. Ainda te escrevo uma carta por dia e não suporto ver que você seguiu a sua vida porque eu fui burra demais para te manter na minha.

Bruna Paiva

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