Join the black parade

Finalmente sentou-se. A senhora que se oferecera para segurar sua mochila desceria no próximo ponto e cedeu o lugar. Sorriu agradecida, era a cadeira alta. Mania de infância que se dava o luxo de conservar aos 23.

Sentada, se apressou em espetar o fone de ouvido, já arrumado por dentro da blusa, no celular e enfiar o aparelho de volta ao fundo da mochila depois de dar play. Encostou a cabeça e respirou fundo fechando os olhos por um momento. As primeiras notas já a levaram para longe dali. When I was a young boy / My father took me into the city/ To see a marching band. Sorriu com o coração aquecido pela grata escolha da ordem aleatória.

A via expressa, vista pela janela, naquele dia frio, parecia se colorir em melancolia. O cara de verde sentado a seu lado era um borrão. Os outros passageiros, nem isso. A música estava tão alta quanto possível e os ouvidos até reclamavam, mas o sangue pulsava no ritmo que escutava.  One day I’ll leave you/ a phanton to lead you in the summer/ to join the black parade.

Parou o ônibus no ponto. Sobe, desce, roda roleta, dança das cadeiras. Gente pedindo licença, colocando as mochilas na frente dos corpos. Son when you grow up would you be the savior of the broken? Voltou a andar o ônibus, devagar saindo do ponto e então mais rápido, de volta à velocidade da via.

Há certo movimento no fundo. Todos se viram para olhar. Caras assustadas, crianças chorando, passageiros revirando as próprias bolsas. Sometimes I get the feeling she’s watching over me.

Três homens armados, gritando, batendo nas cadeiras, fazendo alarde. Ela não os escuta, mas balança a cabeça no ritmo da música. And through it all, the rise and fall, the bodies in the street. Os homens andam até a frente do ônibus. Donos da cena. Armas apontadas e batendo nos balaústres. We’ll carry on, we’ll carry on.

Pertences recolhidos. A mochila passando como um chapéu de artista depois do show. Terror. Your memory will carry on. Gente encolhida, batendo nas janelas. Do lado de fora, a via expressa mais melancólica que nunca. Dentro do ônibus, a realidade destacada apresentava o caos completo. Your misery and hate will kill us all. Ela toca bateria no ar. A histeria coletiva aumenta. Há pânico, gritos. Ela assiste a tudo como um filme mudo. We’ll carry on/ And though you’re dead and gone, believe me.

Chega sua vez. A mochila estendida. O assaltante de cara fechada, a todo custo transmitindo o ódio que trazia no olhar. Tensão. Ela balança a cabeça olhando para frente. Disappointed faces of your peers, oh, oh, oh. O cara ao lado entrega tudo e a encara. Take a look at me cause I could not care at all.

Como é que é? Sacode a mochila. Do or die, you’ll never make me.  Ela o encara se sacudindo no ritmo da música. You can try, you’ll never break me.

O homem se irrita, grita para o outro, que se aproxima. Qual foi? Won’t explain or say I’m sorry. Ela sacode o cabelo. Ele se irrita e chama o terceiro, que chega agressivo, empurrando o braço dela com a arma. Give a cheer for all the broken. Nem sinal de entregar o telefone. Tá maluca? Just a boy who had to sing this song.

Ele atira na janela, gritando. Vidro estilhaçado. Gritaria generalizada. Ela não se move. A arma apontada em sua direção. I’m just a man, I’m not a hero. O cano frio na testa, esquentando a pele de terror. Ela fecha os olhos enquanto sente o gosto amargo do medo. O assaltante invocado falando sem que ela escutasse. I. Don’t. Care. Gatilho puxado. Entendeu sua sentença. Mas morreria ouvindo a música preferida.

WE’LL CARRY ON, CARRY ON…

Bruna Paiva

 

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