O palco salvou a minha vida

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No palco eu me sinto livre. Não me importa se atuo, danço ou faço os dois ao mesmo tempo. Ao colocar os pés num palco, sinto uma energia que refresca o rosto e deixa a boca doce. O cheiro de laqué e cortina velha revigora a alma de um jeito que só os artistas entendem. Felicidade que vem de dentro. Felicidade que vem da arte.

Sinto-me à vontade para ser quem sou. E experimentar tudo aquilo que nunca fui. A vibração que vem da plateia e a luz esquentando o meu rosto me encorajam a transformar arte em vida. É onde me sinto mais viva do que o normal. Brilho nos olhos, coração sambando, estômago frio e a adrenalina brincando da cabeça aos pés. Arte correndo nas veias.

Alguns dizem que fui picada pelos “bichinhos do teatro”. Eu prefiro acreditar que já tinha isso na alma. Adormecido, o amor pela arte sempre esteve ali. Até o momento em que, de fato, pisei num palco e experimentei a intensidade de ser artista.

O teatro mudou a minha vida. A dança mudou a minha vida. Libertou-me das vergonhas de ser exatamente quem eu quero ser. De ficar presa e conformada com o mundo; de afogar em minhas próprias mágoas. Livrou-me da condenação de ser igual a todos os outros.

Bruna Paiva

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O amor não vê idade

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Ele tem 36, eu tenho 22. Ele tem um filho de 8 anos e eu não penso em engravidar tão cedo. Ele tem pós-doutorado e é bem-sucedido na profissão. Eu estou terminando a faculdade e torcendo para conseguir um estágio. Ele tem uma ex-mulher e eu uns dois ex-namorados. Ele conhece oito países e eu nunca saí do Sudeste. Ele comprou uma casa para os pais e eu ainda dependo dos meus para pagar a faculdade.

Estamos em fases diferentes da vida e somos extremamente felizes assim. Ele me ensinou a gostar de ler e aprendeu comigo a amar o Twitter. Ele passou a curtir Beyoncé e me levou para conhecer lugares incríveis. Ele faz um bife à parmegiana maravilhoso e ama meu pudim de leite.

Fiz ele voltar a curtir o Carnaval e, com ele, criei a tradição de assistir a todos os filmes indicados ao Oscar antes da premiação. Ele ficou muito interessado em aprender sobre moda e desenvolveu um estilo incrível que até combina com o meu. Ele diz que adora o jeito com que eu cuido do filho dele e eu realmente amo aquela criança. A ex dele me pediu ajuda para organizar a festinha de aniversário do menino e como a gente se divertiu!

Ele nunca tinha feito uma tatuagem e minhas sete acabaram o inspirando. Eu fiz ele assistir Gossip Girl e até ele se apaixonou por Chuck Bass. Ele me ensinou a usar post its para organizar meus cadernos e a casa dele é tão arrumada que eu passei a atender quando, na dela, minha mãe me manda arrumar o meu quarto.

A diferença de idade é grande, a gente ouve o tempo inteiro. Mas é exatamente o que faz nossa relação ser tão especial. A gente se completa. Um está sempre muito interessado no que pode aprender com o outro. Eu nunca estive me sentindo tão viva e madura. Nunca tive tanta certeza do meu sentimento por alguém. Contrariando todas as fofocas e pitacos sobre nossa vida, a gente se ama. E não são 14 anos que vão me impedir de me permitir ser feliz como nunca fui.

Bruna Paiva

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Dona de si

woman-1208328_640.jpgEla anda descalça pelos corredores da faculdade e não se incomoda se a blusa estiver amarrotada. Ela ama moda e veste tudo o que acha bonito, mas, quando a preguiça é maior, ela corre para as combinações de sempre. Ela usa tênis com qualquer meia e só passa maquiagem quando está com paciência.

Ela dá um nó no cabelo bagunçado, sem pentear, e sai de casa numa boa. No fone de ouvido, escuta de Beatles a Molejo. Adora livros densos, mas se derrete com os romances adolescentes. Ela come de tudo o que gosta e uma vez por dia dá uma volta no quarteirão com o cachorro. De vez em quando ela pega a bicicleta e pedala pela cidade. Ela assiste a filmes de ação, comédia, romance e terror.

Ela não bota dificuldade em nada. Não se priva do que quer. Se está louca para ir à praia, dá um jeito e vai. Quer sair para beber? Chama as amigas. E, se ninguém for, ela vai sozinha mesmo. Ela sai com quem tiver vontade e faz o que estiver a fim. Até sonha em encontrar um amor, mas não se prende a ninguém por pura carência.

Paga as próprias contas e ama viajar. Ela não tem vergonha de nada. Faz tudo o que quer na vida e não esconde isso de ninguém. Não dá a mínima atenção aos julgamentos vindos de gente que no fundo queria ser como ela.

Ela é livre, dona de si. É quem manda no próprio corpo, nas próprias vontades, na própria vida. Ela queria que todas as outras mulheres pudessem sentir a liberdade de ser assim: escritora do próprio destino.

Bruna Paiva

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A juventude “perdida” que ainda vai mudar o mundo

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“Essa sociedade está muito alienada!”

“Demais! Fora que as pessoas não conseguem ter empatia umas pelas outras. Sabe? Ninguém se coloca no lugar do outro.”

Foi esse primeiro diálogo que me fez levantar os olhos do livro que estava lendo. Numa das estações de metrô do Centro do Rio de Janeiro, entrou um trio de meninas, com no máximo 14 anos cada uma. As três vestiam calças jeans e a camisa de um colégio de Ensino Médio técnico e público. Mochilas, aparentemente pesadas, nos ombros e cansaço estampado nos rostos.

As três estavam numa discussão política super engajada. Defendiam o direito de cada um ser o que quiser e o dever de respeitar os outros. Discutiam um caso de injustiça que acontecera na escola com algum professor. Não entendi direito o problema, algo sobre a facilidade que as pessoas têm de julgar os outros de forma precipitada, baseadas em boatos sem se aprofundarem no assunto. Mas não consegui mais voltar para minha leitura.

Prestei atenção à conversa mesmo, mania feia, eu sei, mas não consigo viver sem observar tudo à minha volta. Não consegui parar de sorrir enquanto elas permaneceram ali dentro. Em tempos de um mundo tão louco e cruel, talvez a juventude não esteja perdida como muito se pensa e se fala por aí. As novas gerações se mostram cada vez mais engajadas, mais preocupadas em se colocar no lugar do outro e lutar por seus direitos.

É lindo ver meninas tão jovens já tão conscientes e discutindo assuntos importantes. Saí do metrô, naquele dia, feliz. Sorrindo e com uma esperança batendo forte no peito. Todo mundo tem o direito de ser e acreditar naquilo que quiser. E eu acredito, com todo o coração, que os jovens são capazes de mudar o mundo. Que a minha geração e as mais novas estão a cada dia mais conscientes, mais preocupadas em concertar o que está errado para que esse planeta vire, sim, um lugar melhor a cada segundo.

Bruna Paiva

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Você paga pela arte que consome?

wp-1476189581117.jpg“Vocês já viram aquela comédia romântica linda?”

“Eu queria ter visto, mas acho que já saiu de cartaz.”

“Ah, não tem problema! Já tem pra baixar na internet.”

“É que eu não baixo filme”

“Você não sabe? É fácil! Tem vários programas, e tem sites para ver online também”

“Não, é que eu não assisto filmes sem pagar por eles”

É nesse momento que recebo olhares claramente questionando de que planeta eu venho. É uma questão simples na minha cabeça, um princípio que respeito muito: eu pago pela arte que consumo. Seja ela cinema, teatro, literatura, música, ou qualquer outro tipo de manifestação cultural. Se há um custo para que eu possa usufruir dela, eu faço questão de não o driblar.

“Você paga para escutar música?” Sempre que é preciso.

“E se você quiser assistir a um filme que não está disponível na Netflix, ou outras redes pagas?” Eu não assisto. Ou compro o DVD.

“Mas e livro? Você adora ler, impossível nunca ter baixado um pdf. Livro é caro!” Só baixo o que é de Domínio Público. O resto eu compro, quando tenho dinheiro para isso.

Toda vez em que eu entro numa discussão sobre a importância de respeitar os direitos autorais da arte, acabo saindo como a anormal do grupo, ou “a maluca que tem dinheiro pra rasgar”. É engraçado como esse é uma visão completamente distorcida da realidade.

“Então, você acha que, se eu não tenho dinheiro para acessar uma arte eu não posso tentar outros meios de chegar até ela? ” Eu ouvi uma vez. Sinceramente? Se seus “outros meios” forem ilegais, eu realmente acho que você não pode. Existem diversas maneiras de chegar à arte sem precisar roubar. E, como roubo, leia de DVD pirata no Camelódromo às músicas que você baixa no 4shared.

Quando eu gosto de um artista eu quero que, mais do que sucesso, ele receba o merecido retorno por seu trabalho. Chegar à arte dele de maneira ilegal só contribui para seu fracasso. Não quer pagar pelo livro? Peça emprestado a um amigo, vá a uma biblioteca. Filmes? Eu acho que a Netflix tem um preço justo se considerarmos a quantidade de conteúdo disponível. E existem outras plataformas para isso também. Música? O Spotify custa 15 reais e dá direito a 5 contas. Se dividir com a família ou amigos, dá 3 reais para cada um, para ouvir quanta música você quiser. E o serviço gratuito também é bem funcional, se você ignora os anúncios.

Mas as pessoas acham que não precisam pagar por arte. Que é obrigação do artista disponibilizar seu conteúdo gratuitamente para quem “não tem dinheiro para gastar nisso”. O que todo mundo esquece é que o artista também precisa pagar as contas. Se você for à sorveteria e disser que gosta muito do sorvete deles, “mas não tem dinheiro para gastar nisso” o sorveteiro vai dizer “sinto muito”. Ele não vai te dar o sorvete de graça. Porque o mundo não é assim.

A gente precisa, sim, pagar pelo que consome. E a arte, diferente do que muitos pensam, não tem que ser gratuita. “Mas quando eu pago pelo filme eu estou enriquecendo a produtora, e não o artista”. E quando você não paga por ele, o artista não recebe nem o percentual que lhe é de direito.

Há quem diga que esse discurso exclui socialmente aqueles que “não têm dinheiro para gastar com isso”. Eu ainda acho uma conscientização importante para uma sociedade mal-acostumada. Assim como o sorveteiro, o artista não tem obrigação alguma de te dar de graça um produto que é fruto de muito trabalho.

Bruna Paiva

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Mania de inventar histórias

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Eu tenho essa mania estranha de querer deduzir a história por trás de pessoas que eu nem conheço. A menina descendo a ladeira com um cachorrinho enrolado numa toalha no colo. Provavelmente indo até o veterinário. Talvez tenha o encontrado no dia anterior e, finalmente, convenceu a mãe a deixá-lo ficar.

O casal discutindo discretamente no metrô. Talvez por causa das finanças. Ou talvez ele queira mais um filho e ela não queira de maneira alguma. A garota toda arrumada na porta do cinema. A senhora sozinha, cheia de compras pesadas no ponto de ônibus. O cara tatuado, que encara o celular, do outro lado da rua. Uma dessas histórias que eu crio na minha cabeça já até virou motivo de texto e vídeo: A menina da mesa ao lado.

Gosto de imaginar o que levou cada pessoa ao lugar em que está. Talvez porque eu goste de ouvir histórias. Por trás de cada rosto, de cada atitude, há uma coleção de acontecimentos que fez aquela pessoa ser quem é. Algumas histórias mais interessantes, outras só os clichês de sempre. Mas todas definem quem cada ser humano se torna, o porquê de seu modo de ser e a maneira como ele encara a vida.

Não dá para dizer que uma mulher aparentemente fria, desconfiada e que não se entrega tenha sido assim a vida inteira. Quem sabe ela já não foi doce e inocente? A vida nos leva a tantos lugares… A verdade é que não se conhece ninguém apenas pela convivência. Todo mundo possui traumas. Não há ninguém que não colecione segredos, mesmo que sejam coisas pequenas.

Nossas memórias constroem a pessoa que seremos. As experiências boas e as ruins se aliam para formar nossa personalidade. E esta, é extremamente mutante. A menina doce, que se entrega aos sentimentos hoje, pode crescer e se tornar uma mulher fria, que vive na defensiva.

Cada trauma, conquista, problema, realização, tudo o que vivemos funciona para nossa personalidade como tijolos em uma construção. De um em um, vão construindo aquilo em que nos tornaremos. A diferença é que essa construção não para nunca. Sempre há mais um capítulo de história para adicionar à coleção.

Bruna Paiva

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O mural da minha vida

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Há cinco anos eu mantenho um mural na parede do meu quarto. Ele é rosa pink, metálico e fica atrás da porta, no lugar onde eu costumava pendurar os pôsteres dos meus ídolos. Um dia, me irritei com os papéis grudados na parede, arranquei tudo e comprei o mural. Nele, presas por ímãs decorativos, coloco fotos com pessoas importantes, além de uma listinha dos livros que li no ano.

Hoje foi um dos dias chatos em que eu olho para a estrutura de metal repleta de fotos e percebo que preciso tirar algumas pessoas dali. Isso acontece de vez em quando, de acordo com as idas, vindas e decepções da vida. Guardei as fotos e continuei encarando o mural, em parte tentado encontrar uma maneira de arrumar as fotos restantes e cobrir os espaços agora em branco. Foi então que eu percebi.

Em cinco anos, passaram pelo meu mural fotos minhas com variadas amigas que, com o tempo, se mostraram não tão amigas assim. Com garotos de quem eu realmente gostei, e com quem acabei me decepcionando. Com amigos que eu acabei perdendo por falta de contato, tempo e interesse. Com um namorado que não durou nem dois meses e com pessoas que eu nunca nem considerei amigas de verdade.

Mas também há fotos e pessoas que nunca deixaram de estar no meu mural. São poucas, é verdade. Menos ainda se desconsiderarmos as fotos com meus ídolos (que, só para constar, são muito mais importantes na minha vida que toda essa gente passageira).  Minha família, algumas amigas de infância, meu melhor amigo há anos e outra grande amiga de bastante tempo. Todos bem presos pelos ímãs, sem nenhuma perspectiva de serem tirados de lá.

Apesar de o meu mural estar realmente fixado atrás da porta do meu quarto, percebi que  ele é um grande reflexo da minha vida. Pessoas entram e saem da nossa vida o tempo todo. Poucas são aquelas que ficam por mais tempo, as que têm a foto cheia de marcas de ferrugem porque o ímã ficou por muitos anos no mesmo lugar. A maioria acaba só passando. As fotos que eu guardo na gaveta até fazem falta nos primeiros dias. Mas acabam esquecidas lá no fundo, principalmente quando revelo novas.

A questão é que, com o tempo, aprendi que é muito melhor ter poucas fotos com marcas de ferrugem do que um mural cheio de imagens impecáveis em alta rotatividade.

Bruna Paiva

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Medo de ser humano

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Tenho medo de sentar no ônibus que preciso pegar todos os dias e ser assaltada. Tenho medo de estar voltando para casa de noite, sozinha, e ser estuprada. Tenho medo enquanto me divirto. Medo de não conseguir proteger quem eu amo numa situação extrema. De estar dormindo e não ouvir alguém invadir a casa.

Tenho medo de brigas no trânsito, e de desentendimentos bobos com qualquer um que eu não conheça bem. Medo de que meu pai não volte para casa quando sai para passear com o cachorro. De que alguém cisme com meu ídolo ao ponto de atacá-lo. Tenho medo de engarrafamentos em vias expressas sem policiamento. Tenho medo de passar perto da própria polícia. Medo de deixar o medo de lado por cinco minutos. De piscar e o mundo desabar.

 Tenho medo quando o metrô lotado para antes da estação. Tenho medo de estar me divertindo no meio de uma multidão. De que alguém ache uma boa ideia estourar uma bomba, ou abrir fogo contra as pessoas, enquanto curto o show do artista que eu gosto, ou enquanto estou na sala de aula. Procuro distância de tudo o que me parece ameaçador. Medo de cada um que cruze o meu caminho. E apesar de abominá-los, eu tenho medos xenofóbicos e preconceituosos.

Tenho medo de um mundo ameaçado pelo ódio, caos e terror. Medo da minha impotência, da minha insignificância. Tenho medo de não ter controle, medo do inesperado. Tenho medo de morrer, ou perder quem eu amo. O tempo inteiro. Tenho medo por ser mulher, medo por ser jovem, medo de ser quem eu sou e de ser mal interpretada. Tenho medo de ser humana. Medo dos seres humanos.

Bruna Paiva

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Cheirinho de passado

wp-1467116707675.jpgEu tenho essa sina com troca de perfumes. Não consigo usar o mesmo aroma em épocas distintas da minha vida. E isso se aplica a qualquer produto com cheiro: shampoo, condicionador, desodorante, perfume, hidratante, sabonete… Parece que junto com a fragrância vem uma carga do passado, uma quantidade sem fim de lembranças que têm aquele mesmo cheirinho no fundo.

É uma das primeiras características que eu gravo sobre qualquer pessoa na minha vida. Desde pequena, pessoas e lugares me remetem aos cheiros que por eles me foram apresentados. Hoje reconheço que aromas são capazes de mexer comigo de forma profunda. Despertam borboletas que para mim já estavam mortas no meu estômago. Memórias que eu nem sabia que ainda existiam em alguma gaveta do meu cérebro.

A sina de não repetir um perfume em momentos distintos é para não me decepcionar. Ainda que eu remonte aquele antigo cenário, com aquele mesmo perfume, a sensação, o sentimento, as borboletas, vão ter para sempre aquele cheirinho de passado. Por vezes ainda, o cheiro retoma momentos que eu não quero que voltem, e aí, o vai e vem de memórias dá vontade de inspirar menos e expirar mais.

Por isso eu vou trocando de perfume. Para o meu cheiro ser sempre o do presente. E o passado ser lembrado apenas em breves momentos, quando um cheirinho conhecido cruzar o meu caminho por aí.

Bruna Paiva

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A novela da rua

night-690182_1280Até agora, não sei bem o que me tocou naquela cena. Talvez a simplicidade da situação, que era ao mesmo tempo muito mais profunda do que aparentava. Mas também pode ter sido o sorriso estampado no rosto de cada um daqueles dois homens.

 Ambos se encontravam extremamente à vontade. O primeiro, deitado de lado com o cotovelo flexionado e a mão servindo de apoio para a cabeça. Jogado sobre suas pernas, até a altura da cintura, um pedaço de pano fazia as vezes de cobertor. Ao seu lado, o segundo homem estava sentado. Sem camisa, com uma postura relaxada e uma garrafa de cerveja na mão.

Os dois homens, que não aparentavam menos de 50 anos, comentavam, riam e pareciam se divertir com aquilo a que assistiam. Na hora, a cena me pareceu quase cotidiana: dois amigos jogados num sofá, assistindo a algum programa de televisão. Cheguei a olhar melhor, procurando a TV. Mas não havia aparelho algum.

O sofá dos dois homens era uma mureta na pracinha de uma das áreas mais nobres do Rio de Janeiro. Sua televisão, o movimento da rua. O entretenimento deles era rir daquele mundo do qual são meros espectadores.

Os moradores de rua assistiam ao fluxo de automóveis que volta e meia engarrafava, deixando motoristas estressados. Observavam o entra e sai dos estudantes desgastados na universidade do outro lado da rua. Prestavam atenção aos pedestres que passavam, por vezes, com certo medo, na avenida mal iluminada. E às crianças que, acompanhadas por mães e babás, brincavam na pracinha depois da tarde na escola.

Me pareceu uma espécie de ritual. Como se todo dia, àquele mesmo horário, ambos se posicionassem à mureta para assistir à novela da rua. Uma novela que não se repete, e em que a cada dia os personagens são distintos. O que nunca muda nessa novela são as gargalhadas dos espectadores. Esses se divertem com o nosso ridículo, a nossa prepotência e a nossa indiferença.

Bruna Paiva

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