O menino do sinal

Como cresceu aquela criança… As feições já não são as mesmas e o olhar tem uma luz diferente (ou a falta dela). Os ombros alargaram e não tem mais aquela aura de criança engraçadinha. Acredito que a voz também deve ter mudado.

Mas o que me choca não é a puberdade inevitável do garoto. O que me fez começar a escrever foram as circunstâncias em que acompanhei esse crescimento.

No caminho diário da rotina incansável, do passeio de feriado, do encontro do fim de semana: obstáculo obrigatório. Ao lado do viaduto, debaixo do mesmo sinal de trânsito o garoto joga bolas de tênis para o alto.

Já ganhou uma batata frita que eu comprei no impulso e não consegui comer. Eu o conheço, ele me conhece. Não sei seu nome, sua história, nem o que o leva a estar sempre ali, tarde da noite com as fiéis bolinhas surradas.

Estranho esse impasse entre querer descer do carro e saber que não posso fazer muito. Observar ou intervir? A pergunta que volta diariamente. Questão que com o tempo acabou sendo respondida pelo sempre pensar e nunca fazer.

Dia após dia, mês após mês, ano após ano, eu vejo o garoto crescer. Debaixo daquele sinal.

 

Bruna Paiva

 

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Sobre marcas profundas e aceitação do meu corpo

Eu tinha 12 anos quando deixei de ser convidada para uma festa por não ser tão “gostosa” quanto as outras meninas da turma. Estávamos todas entrando na mesma puberdade, em fase de desenvolvimento dos nossos corpos, mas as diferenças genéticas já começavam a nos segregar. Àquela altura, já havia escutado apelidos como “esqueleto”, “vareta” e todas as suas variações. Nunca foi bacana, mas nada doeu tanto quanto naquele não-convite. Crianças podem ser cruéis. Em grupo, piores.

Cabisbaixa por não ter sido chamada para a festinha, fui aconselhada, por uma colega, a passar a usar sutiãs de enchimento. Eles aumentavam os seios que a gente não tinha e atraíam olhares dos meninos. Hoje, voltando a olhar para esse cenário, me choco com o comportamento machista a que nos prestávamos. O objetivo era agradar aos homens da sala.

Daquele episódio em diante, meu complexo de inferioridade e a insegurança com meu próprio corpo entraram numa crescente desenfreada. Eu odiava meus membros magrelos, abominava meus seios pequenos, detestava meu cabelo e, em resumo, não gostava muito de mim.

No Ensino Médio, resolvi levar o ballet a sério. O sonho era de ser bailarina profissional e trabalhei para isso. Muita gente sofre nas mãos da dança pela ditadura dos padrões corporais. Mas, por incrível que pareça, foi ela que revolucionou minha autoestima. O ballet me fez olhar pro meu corpo de um jeito diferente, e todos os “defeitos” passaram a ser menos criticados por mim mesma.

Enquanto na escola eu ouvia que era magrela demais e nem um pouco atraente para os meninos (mais uma vez a tal da prioridade deturpada), no ballet eu era linda e arrumei até um namorado. Na escola de dança, eu tinha um corpo perfeito e era elogiada o tempo inteiro nesse sentido. E ali eu comecei a gostar mais de mim.

O meu corpo nunca foi tenebroso como eu sentia. Mas me fizeram acreditar que sim. É claro que, quando voltava para a escola aqueles julgamentos ainda me incomodavam. Mas minha mudança de postura em relação ao meu corpo foi tão importante que eu deixei de ser “a magrela” e passei a ser “a bailarina”. Quando eu comecei a me gostar, o olhar das pessoas também mudou um pouco, mas continuava doloroso.

Hoje, formada, eu não quero mais a dança como profissão. Mas toda vez que tiro a roupa e me olho no espelho, tenho uma luta interna entre a Bruna que não foi convidada para a festa dos meninos e a bailarina que me ensinou a gostar dos meus seios pequenos.

A Bruna de 20 anos se matriculou na academia para tentar aumentar a bunda e já considerou, mais de uma vez, a opção de colocar silicone nos seios, no futuro. Eu ainda tenho problemas com meu corpo, como todo mundo nessa sociedade cheia de padrões. Aquele ódio desenfreado eu tento reprimir, focando nas coisas que gosto em mim, olhando meu corpo de forma amiga. Mas tem dias em que a pressão pesa e é difícil me amar, mesmo com a autoestima trabalhada.

Esse texto não é sobre a decisão entre se manter com o corpo natural ou fazer intervenções estéticas. É sobre marcas. Palavras marcam, atitudes marcam. Essas marcas podem parecer bobas, mas também podem causar danos profundos. Se tivessem me convidado para aquela festa, ou dado uma justificativa menos cruel para a falta do convite, talvez eu, oito anos depois, fosse menos insegura com meu próprio corpo; e a personagem confiante que encarno socialmente fosse menos quem eu gostaria de ser do que quem realmente sou.

Bruna Paiva

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Venho em paz

Por que a gente se detesta? Venho pensando nisso há dois dias e não consegui chegar a uma conclusão concreta. Nunca troquei uma palavra contigo. Não sei nada além de seu primeiro nome e sempre evitei ficar mais de 15 segundos no mesmo ambiente que você. Nosso único ponto de interseção é, de fato, ele.

E não é bizarro que nós duas nutramos um ódio recíproco simplesmente porque ambas já amaram um mesmo cara? Relendo a frase, chega a ser patético. Até porque, veja bem, temos uma experiência em comum. Eu vivi uma história bacana com ele e no fim acreditei que não valia mais a pena. Pelo que eu soube, você chegou à mesma conclusão. Já parou para pensar em como seria se a gente resolvesse marcar um café?

Você provavelmente passou por situações parecidas com as minhas, ouviu frases que também foram ditas para mim e já até dormiu na mesma cama que eu. A conversa está pronta e com assunto por horas… Ainda assim, a gente só se esbarra com cara de nojo e revirada de olho. Não faz o menor sentido.

Por isso esse é um texto em missão de paz. Trouxe minha bandeirinha branca, você pega se quiser. Não quero mais te odiar em vão. Você nunca me fez nada e, na real, a gente nem se conhece. Para falar a verdade, gosto muito do jeito que você se veste. Aí mais um tópico praquela nossa conversa…

Fique bem, fique em paz e saiba que, na próxima vez em me encontrar, minha revirada de olho vai ter se transformado num sorriso com a guarda baixa. Se quiser aproveitar para dar um oi, será bem-vindo. A vida é muito curta pra detestar cada uma com quem se compartilha um ex-amor…

Bruna Paiva

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Diário de uma entediada

137. Acabo de contar as 137 viradas do ventilador no chão de um lado para o outro, nos últimos minutos. Já lavei a louça. Três vezes. Fiz comida, fui malhar, voltei e tomei um banho. Cá estou terminando mais uma temporada de Friends. A penúltima. Fiz pipoca, bolo e mousse de maracujá. MEU DEUS, ainda são três e meia da tarde.

Não, eu não aguento mais essa casa. Não aguento mais esse ócio em que fui obrigada a entrar pelos últimos três meses.

Li tantas coisas que não tenho mais ânimo para continuar o livro que comecei ontem, os projetos estão em dia e literalmente não tenho mais nada para fazer. Já limpei meu quarto, arrumei minha estante, montei um caderno de planejamento da minha vida financeira, tirei todas as roupas do armário e separei o que eu não uso para doar, arrumei as gavetas e o armário de maquiagem e traduzi poemas de uma autora guatemalteca.

Assisti a toda sorte de filme clichê adolescente, de Lindsay Lohan a Larissa Manoela, tirei todas as roupas do armário de novo e montei looks que não vou usar tão cedo, desenterrei um livro de matemática para tentar resolver funções que só me estressaram porque não lembro mais como lidar com elas. Fiz todo tipo de receita caseira para esfoliação da pele e hidratação do cabelo. Montei dezenas de playlists parecidas, reassisti aos dvds ao vivo de Restart e RBD e varri até o quarto do meu irmão. Firmei compromisso com a Netflix, mas, por mais que eu ame, EU NÃO AGUENTO MAIS ASSISTIR FRIENDS.

O tédio tomou conta de mim de uma maneira tão intensa que ontem me vi obrigada a baixar o tinder para tentar ter conversas empolgantes. Tudo que consegui foi lembrar por que havia excluído o aplicativo da última vez. Meus dias têm terminado em conversas com amigos que se sentem da mesma forma e assistindo ao Big Brother com um grande interesse nas festas e intrigas dos outros.

Caras férias, com todo o respeito, eu não aguento mais vocês. Como medida preventiva contra meu enlouquecimento, eu suplico: me devolvam a minha rotina corrida.

Bruna Paiva

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Realidade destacada

No acostamento da via expressa, esdrúxulo e insignificante, um braço repousa estendido. Mal percebido por quem passa em alta velocidade, um universo dentro de outro.

Os dedos tocando o chão pareceriam descansar despretensiosos, não fosse o osso quebrando a barreira da pele no topo do antebraço. Esquecido o contexto absurdo, era uma mão bonita. Mãos de baixista? Quem sabe?

Ao redor, nada que justifique aquela imagem. Só um braço, esquecido no acostamento. Apenas um pedaço destacado de alguma realidade que não nos pertence e para a qual não temos tempo.

Então seguimos em frente. Mais preocupados com a lentidão do motorista do ônibus prestes a nos atrasar para o que quer que tenhamos que fazer.

Bruna Paiva

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Ciúmes

Coisa estranha no peito

Gosto amargo na boca

Sangue que esquenta e bagunça tudo na cabeça.

Raiva sem motivo

Olho revirado e suspiro que não se controla.

 

“Eu não sinto nada”

“Não me incomoda!”

Cruza os braços apertando forte para o coração não fugir em protesto.

Vira o rosto e encara o outro lado

Mas espia de rabo de olho.

 

Infantil

Mas não sabe escapar.

Autoconfiança forjada se esvai em um piscar

De repente, sozinha

Derrotada

Impotente.

 

Bruna Paiva

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Me perdoe

Com toda a sinceridade que posso, eu peço que você me perdoe. Perdão por despertar em você um sentimento que não sou capaz de retribuir. Por ter assistido você se apaixonar, fingindo não perceber e não ter feito nada. Egoísta, narcisa. Nunca quis te perder da maneira que tinha e talvez por isso tenha deixado tudo acontecer dessa forma.

Ninguém nunca se apaixonou por mim com o fervor e a intensidade que você o fez. E, quando eu percebi isso, quando finalmente desisti de me enganar, eu era só frustração. Frustrada por esse sentimento todo não vir de quem eu realmente queria, pela peça que o universo me pregava e, principalmente, por não conseguir retribuir o que alguém tão especial sentia. E como eu tentei obrigar minha cabeça a se apaixonar por você… Seria tão mais fácil…

Eu sei bem o que é se apaixonar por quem não te quer. Você conhece minhas histórias… Nunca fui correspondida, nunca capaz de viver o amor com que sonhava na adolescência. E, quando alguém finalmente me enxerga com outros olhos, consegue ver o melhor em mim, sem maldade, se apaixona conhecendo meus defeitos, eu me vi do outro lado da moeda. Eu conheço a sua dor. E, acredite, me dói demais ser a causadora do seu sofrimento.

Ah, se eu pudesse escolher… Se eu tivesse algum controle sobre esse coração imbecil… Seria você. Sem pensar duas vezes. Ele nem passaria pela minha cabeça. Seria você a todo instante. Mas o idiota no meu peito resolveu desconcertar-se por quem não me quer. E eu não posso ser injusta comigo, nem com você. Não dá para abraçar teu sentimento se quando eu me deito é com ele que eu sonho.

Mesmo assim, obrigada por, apesar de tudo, entender, continuar comigo e não me condenar. E, ainda que você odeie me ouvir pedindo desculpas, é só o que me resta fazer. E eu sei que não é o suficiente…

Bruna Paiva

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Mudanças

Arrumando as gavetas do quarto, acabei me deparando com um vidro de esmalte. Não qualquer um. Esmalte antigo, bastante usado, quase nada de tinta lá dentro. Era o preferido da minha versão de 16 anos.  Um rosa bem escuro, quase virando roxo. Uma cor que eu colocava nas unhas quase toda semana, porque gostava, me identificava, fazia com que me sentisse eu mesma. Fazia parte de quem eu era. A cor que todo mundo olhava e dizia “é a sua cara”.

Aquela foi uma fase tão gostosa da minha vida que demorei um certo tempo com o vidrinho gasto na mão. Uma nostalgia engraçada. Abri e descobri que o esmalte ainda estava bom. Meu primeiro impulso foi pintar as unhas.

Passei por todo o ritual de lixa, alicate, base e esmalte. Não sei bem o que estava esperando, às vezes nossas memórias nos pregam peças, mas, ao encarar minhas unhas pintadas com aquela cor que me era tão especial, não me reconheci da forma que imaginei.

Foi então que eu percebi o quanto mudei nos últimos anos. Não por algo tão trivial quanto a cor dos meus esmaltes; ainda que minha manicure usual, hoje, não saia muito da escala preto-nude-vermelho, vez ou outra eu vario um pouco. Mas a forma como aquela cor não era mais “a minha cara” me botou para pensar.

Eu não me reconheci porque realmente não sou mais a mesma pessoa. A Bruna de 16 viveu três anos, quase quatro, a menos do que eu. E anos em que minha vida mudou aos poucos, porém radicalmente.

Nós não temos gostos tão parecidos porque o tempo muda as pessoas. Talvez não completamente, já que a Bruna de 16 ficaria enlouquecida ao saber que, semanas atrás, estive com o Fiuk comemorando seu aniversário (inclusive usando o esmalte que ela tanto gostava). Mas o tempo me fez uma pessoa diferente. Não melhor ou pior, apenas diferente. Com dramas diferentes e com a cabeça modificada, mais madura, eu diria.

Eu só não havia percebido o tamanho da mudança. A Bruna de 16 não é mais tão próxima de mim quanto eu pensava. Mas algo dela segue vivendo aqui dentro. Ainda assim, guardei de volta o esmalte na gaveta, com carinho pelas lembranças que ele me trouxe, é claro. Mas, com toda certeza, na próxima semana eu volto para o meu pretinho de sempre…

Bruna Paiva

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Eu estive com outro

Eu estive com outro depois de você. Uma pessoa nova, diferente, sem as suas complicações, alguém que fazia tudo parecer tão fácil quanto deveria. Não imaginei que isso ainda fosse possível, mas com ele eu voltei a sentir. Dei risada, agi por impulso, aproveitei cada segundo e me entreguei por completo. Enquanto você nem me passava pela cabeça.

Com as mãos dele passeando por mim, me dei conta de que, pela primeira vez em tanto tempo eu estava com outro. Alguém que me desejou, que me despertou coisas incríveis, que me fez sentir mulher. Uma pessoa que fez a melhor versão de mim dar as caras novamente.

Isso tudo depois de você. Depois de eu ter certeza de que nada me faria capaz de sentir tudo aquilo de novo. Depois de me conformar com o fato de que você era a única pessoa a quem eu conseguiria amar em toda a minha vida. Depois da segurança em dizer que era impossível ter um relacionamento tranquilo, porque isso não existe fora das telas de cinema.

Eu finalmente estive com outro. E foi bom como nunca. Então eu entendi: o problema não é o mundo, os homens, os relacionamentos ou a utopia do amor hollywoodiano. Meu único problema era você. E, meu caro, ninguém nessa vida é insubstituível.

Bruna Paiva

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Démodé

Acende a tela. 125 mensagens. Por grupo. Em vinte minutos.

Notificação, Lembrete, e-mail, te seguiu, curtida, comentário, discórdia, notícia falsa, esquerda, direita, tragédia, briga, tendência, influencer, fulano falou, ciclano mentiu, beltrano roubou, Trending Topics, carência, todo mundo é dono da sua vida, “por que você não respondeu?”, “onde está?”, “fazendo o quê?”, “com quem?”

A hora passa e você pouco respira. Olhos fixos, dedos ágeis e mente atribulada. Mal se dá conta de que o mundo não repousa na palma de suas mãos.

O aparelho não tem cheiro, vento batendo na cara, gosto, frio na barriga no toque. Te priva de estar só.

Respirar fundo e observar as pequenas particularidades do mundo, prestar atenção de verdade, sem desfoque, pensar no aqui, no agora, esse único segundo que realmente importa: isso é démodé.

Bruna Paiva

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