Síndrome de Branca de Neve

 

Dia desses lembrei de um episódio da minha infância que me fez pensar muito sobre a forma como a sociedade cria suas meninas. Mais de uma década atrás eu passava por isso, mas só hoje a lembrança me fez refletir de maneira crítica sobre o significado daquilo.

Eu não tinha mais de dez anos de idade quando fui a uma festa de quinze anos pela primeira vez. O aniversário era da irmã de uma amiguinha minha, nossas famílias eram próximas, então o convite foi natural. Lembro da roupa que estava vestindo, um vestido cinza com a saia super rodada e um bolerinho branco (sim, o bolerinho estava na moda. Estou cada vez mais velha.), uma gracinha de criança, parecia uma princesa.

A festa era no Alto da Boa Vista, um bairro caríssimo no Rio de Janeiro, cheio de mansões que funcionam como casas de festa. Lembro de uma festa extremamente produzida, com várias estações e um roteiro super ensaiado. Na primeira estação da festa, houve uma cerimônia religiosa. E é aqui que começa esse episódio que foi tão marcante na minha infância, mas que até hoje eu nunca compartilhei com ninguém.

Logo atrás de mim e minha família estava um menino que, na minha memória, me parece um homem bem crescido, mas, como os fatos a seguir mostrarão, devia ter entre 14 e 17 anos. O menino vestia um terno simples e tinha ares de príncipe encantado. Tinha um cabelo brilhante, um sorriso bonito e, de acordo com a visão da Bruna de 9 ou 10 anos, um charme incomparável. Ali, naquele momento, me apaixonei perdidamente e, como não o conhecia, na minha cabeça seu nome passou a ser: meu príncipe.

Durante todo o resto da festa, acompanhei cada movimento do meu príncipe pelo salão. Observei-o de longe, sonhando, criando expectativas e alimentando a certeza de que aquele menino era minha suposta alma gêmea. Em momento nenhum externei isso para ninguém que me acompanhava na festa. Aquele foi um episódio silencioso da minha infância. Uma experiência de paixão platônica repentina que pareceu muito clara na minha cabeça durante aquela noite. E talvez nem tivesse me marcado tanto se o desenrolar da história não fosse tão traumático:

Em determinado momento da festa, perdi meu príncipe de vista. Não conseguia encontrá-lo em nenhum canto do salão. E então começou o cerimonial. Homenagem vai, homenagem vem, foi chegada a hora da valsa da debutante. E o que aconteceu a partir daqui acabou com a minha noite. Anunciado pela cerimonialista com toda a pompa e circunstância, desce de uma escada que dava para a pista de dança o príncipe da debutante (não lembro mais o nome, mas chamaremos de Felipe). O príncipe Felipe agora vestia um smoking e trazia um buquê de rosas vermelhas para a aniversariante, que aceitou e dançou uma valsa com o menino que até aquele momento era o MEU príncipe encantado. Meu mundo caiu e a festa deixou de ser tão divertida.

Apesar de hoje achar essa história engraçada, revisitar essa memória me fez querer entender de onde vem isso. De onde vem esse impulso que faz uma criança de dez anos olhar para o primeiro garoto bonito e mais velho que vê pela frente e decidir que ele é seu príncipe encantado? De que forma essa cultura impacta a vida das pessoas e, principalmente, das mulheres em formação? Porque eu pelo menos posso garantir que, na minha vida, esse não foi o último episódio de endeusamento de um homem que eu mal conhecia seguido por uma decepção cortante.

Por mais que eu me esforce, não consigo encontrar, pelo menos em mim, uma fonte específica para essa questão. Me parece algo tão bem formulado que se entranha na gente e nos faz acreditar que é um instinto natural. Mas será? Porque eu sempre assisti aos filmes de princesas, mas também sempre achei o Peter Pan mais legal. Eu sempre vi Sítio do Pica Pau Amarelo e gostava mais da atrevida Emília que da romântica Narizinho, mas também sempre tive uma queda pelo Pedrinho. E de onde veio isso?

Meus pais nunca me negaram um brinquedo “de menino”, mas eu tinha vergonha de pedir o lava-jato da hot wheels. E de onde vem isso? Na minha infância as leis contra publicidade infantil não eram ainda tão rígidas, mas será que é só isso? Será que é possível rastrear verdadeiramente o que faz com que mulheres (crianças, adolescentes e adultas) acabem depositando em homens a esperança de um salvamento? Essa síndrome de Branca de Neve é implantada na gente tão cedo que eu, aos 22 anos, ainda não entendo bem  que me levou ao episódio daquela noite e tantos outros dali em diante.

 

Bruna Paiva

 

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O que deu errado no mundo?

Quando uma pessoa resolve se matar, algo está errado no mundo. Tão errado que fez alguém se convencer de que o mais acertado a fazer era tirar a própria vida. Triste. Devastador.

Quando alguém decide que no momento de seu suicídio vai levar outras pessoas, desavisadas, consigo, algo está muito errado no mundo. Egoísta. Imperdoável. Calamitoso. A prova de que a raça humana não entendeu nada sobre a vida, que nossa racionalidade é absolutamente questionável.

Quando uma pessoa resolve explodir uma bomba num estádio lotado de crianças e adolescentes sonhadores, que contaram os dias para assistir à apresentação da artista que admiram, algo está catastroficamente errado no mundo.

Se a parcela mais sonhadora da humanidade tem sua esperança surrupiada, que fazemos nós que já estávamos enojados há tempos? Se não se pode ser criança em paz, se divertir num evento com que tanto se sonhou, se não podemos acordar sem medo do que nos espera, sair na rua sem a tensão de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento, para onde mais se anda? O que esperar de um futuro sem refúgio?

Se vinte e duas vidas roubadas num momento de lazer, se um ataque terrorista num estádio lotado de crianças é só mais uma tragédia para a estatística. Se o mal está tão banalizado que perdemos a capacidade de reagir a esse tipo de fatalidade, de ir além do simplesmente se chocar e passar à próxima notícia, algo está terrível e, quiçá, irremediavelmente errado no mundo.

Bruna Paiva

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Vazio Literário no Salão de Livros para Crianças e Jovens FNLIJ 2015

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De um lado, cerca de 10 jovens leitores acompanhavam a narração de Alice no Pais das Maravilhas, conduzida pelo jornalista Pedro Bial. Na outra extremidade do evento, o incansável Ziraldo contava as aventuras de seus personagens para pouco mais de 15 crianças. E essas foram as duas maiores concentrações de pessoas que vi no último domingo (21/06), ao visitar o 17º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro. Um cenário triste que me deixou com um vazio literário no peito pelo resto do meu dia de folga.

Vazio porque sei que a geração de jovens de hoje lê muito mais do que a minha. Vazio porque vi nos olhos de meus filhos a mesma decepção que eu não consegui disfarçar. Vazio porque, pelo desânimo que percebi nos livreiros, distribuidores e editores que participavam do evento, fiquei com receio de não haver uma 18ª edição. E vazio ainda maior porque ao meu lado estava uma adolescente, dona deste blog, que sonha em viver profissionalmente de literatura.

Lembro-me de ter levado meus dois filhos ainda bebês aos seus primeiros salões de livros. Eles não sabiam ler, mas se encantavam com as cores, com os formatos e desenhos dos livros infantis. Nós nos amontoávamos nas almofadas, nos pufes dos espaços de leituras e eu e a minha mulher  contávamos histórias. Interpretávamos, gesticulávamos e fazíamos vozes de vários personagens para eles. Deixávamos que segurassem os livros, que sentissem aquele universo. Acreditávamos e acreditamos ser importante para as crianças fantasiar, viajar por estórias e histórias.

Mas aquele ainda era o maravilhoso e exclusivo mundo dos livros impressos. Crianças não nasciam com tablets e smart phones em punho. Os tempos mudaram e as feiras literárias precisam se atualizar também. Um salão literário para crianças e adolescentes não pode ignorar novos autores, os blogueiros e os youtubers. São essas as novas referências  que têm arrebanhado cada vez mais a atenção dos nossos jovens e ajudado a formar novos leitores e formadores de opinião.

Alguém duvida que a presença de fenômenos jovens como Bruna Vieira, Felipe Neto ou Christian Figueiredo (todos tb autores de livros) arrebanharia muito mais jovens leitores do que eventos como 150 anos de Alice no Pais das Maravilhas ou 120 anos de Maba Tahan? Não defendo de forma alguma que não se cultuem ou valorizem os clássicos. Mas é preciso mesclar o tradicional com o novo para se atingir as novas gerações. Você atrai oferecendo o que eles gostam e aí aproveita a presença deles para  apresentar-lhes  um cardápio mais amplo.

Ao lado da feira de livros havia um encontro de Anime e Cosplay. Estava lotado de jovens e seus pais. E olha que a entrada custava R$ 25, enquanto a da feira literária custava apenas R$ 5. Será então que os jovens não querem mesmo mais saber de livros? Sinceramente não acredito nisso. Basta olhar para o crescimento da Amazon Brasil e de sites de leituras como Wattpad e Widbook. Basta ver a multidão que a Bienal do livro atrai ao mesclar os clássicos com as novas tendências, o analógico com o digital.

O que parece estar mais do que provado depois deste 17º Salão FNLIJ é que não há mais espaço para a velha fórmula de se expor os livros em uma estante e esperar que os leitores simplesmente apareçam. Vivemos no mundo dos mil estímulos. Os livros estáticos mantêm seu charme, mas nunca sofreram tanta concorrência. E para captarmos a atenção dos leitores é preciso interagir com esse novo mundo e sus novos estímulos.

Portanto, para o próximo salão, convidem os autores queridinhos dos adolescentes, convidem blogueiros, youtubers, viners…Coloquem uma bandinha jovem tocando e personagens andando pelos corredores…Convoquem os estudantes dentro das escolas (as pariculares tb) para concursos, antologias. Instalem uma espaçonave na entrada do salão, deixem os cosplayers entrarem… Façam alguma coisa ou tudo isso ao mesmo tempo. Mas pelo amor de Deus não me deixem sentir esse vazio literário mais uma vez.

JM Costa

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A lição que vem das crianças

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“Agora, bata nela”. Como você reagiria a uma ordem dessas? Bom, um vídeo gravado na Itália mostrou a reação de alguns meninos à essa frase.

A cada um dos meninos é apresentada a mesma garota, e no meio de várias ordens como “faça carinho nela” ou “faça uma careta” as crianças são surpreendidas por um “agora, bata nela”. A reação deles é unânime e faz a gente realmente parar pra refletir. Todos os meninos se recusam a cumprir a ordem com uma indignação no olhar.

O vídeo é uma campanha contra a violência à mulher e foi viralizado nos últimos meses. O que é mais legal ainda é que uma empresa de entretenimento indiana resolveu fazer uma resposta à ele.

No vídeo indiano, a situação é invertida. Meninas recebem a ordem de bater em um garoto. E o resultado é parecido com o primeiro vídeo. As crianças são unânimes contra a agressão.

A moral da história é que, no mundo das crianças, ninguém quer bater em ninguém. A violência gratuita não é algo normal para elas. E isso me fez realmente refletir sobre por que a violência está tão presente no nosso mundo… Por que ela foi tão naturalizada?

Por que é que as pessoas se matam por brigas de trânsito? Ciúmes, mal entendidos, dinheiro, tudo tem virado “motivo” para violência. Mas será que ela realmente tem motivo?

A pureza e inocência dessas crianças provam que o mundo podia ser um lugar bem melhor do que é hoje em dia. E assistindo a esse tipo de coisa eu só tenho mais certeza de que  subestimamos o quanto temos a aprender com as crianças.

Assistam aos vídeos aqui e tirem suas próprias conclusões:

 

 

Bruna Paiva

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Príncipe dos Porquês: uma peça fofa que incentiva a leitura

Foto: Aline Ourique / Divulgação

Foto: Aline Ourique / Divulgação

Sabe aquela fase chata que toda criança tem de querer saber o porquê de tudo? A peça infantil “O Príncipe dos Porquês” aborda exatamente esse tema. Achei muito legal ver as crianças na plateia se identificando com os milhões de porquês do pequeno Lucas.

Com um that Dany Stenzel interpreta um respostalita

Com  Dany Stenzel , que interpreta a Respostalita

A peça é superinteressante e bem divertida, não só para os pequenos. Quem tem criança em casa  vai rir muito e com certeza  se identificar com algumas das situações apresentadas no palco. O cenário é bem colorido e o elenco, afinado, prende a atenção do início ao fim. E, além de divertir, o espetáculo aborda, de forma descontraída, algumas regrinhas da Língua Portuguesa.

O Mundo dos Porquês é um planeta habitado por seres mágicos da nossa língua. Porém, esse mundo está desaparecendo aos poucos por causa do famoso “porque não”. Cada vez que um adulto responde “porque não” para uma criança na Terra, um pouco do planeta mágico  desaparece.  A única esperança do Mundo dos Porquês é que o menino Lucas, que tem uma curiosidade interminável, seja capaz de ajudar a salvar o planeta.

A história, muito original, é a primeira obra infantil da escritora e produtora cultural Letícia Dal-Ri. Rendeu um belo espetáculo e também um livro de mesmo nome inspirado na peça. Quem quiser pode comprar o livro, com direito a autógrafo da autora no próprio teatro.

Com a Letícia Dal-Ri, autora da peça e do livro

Com a Letícia Dal-Ri, autora da peça e do livro

Se você tem um filho, sobrinho, primo ou irmão pequeno, já  não lhe falta um belo pretexto para aparecer no Teatro Leblon no próximo fim de semana. Vale e muito assistir à peça e levar o livro, que também é muito legal para as crianças. É bom incentivar a leitura desde cedo…

Bruna Paiva

SERVIÇO:

O Príncipe dos Porquês

Teatro Leblon – Sala Marília Pera

Sábados e Domingos às 17h (até dia 16 de março)

Sessão especial com audiodescrição e libras no dia 8 de março.