O monstro

Eu tenho um monstro que vive comigo. Um monstro enorme que nunca me deixa. Me segue a cada passo que eu dou. Dorme comigo, come comigo, brinca comigo. Ele vai comigo à escola, ao parquinho, à casa da vovó e até à natação, embora seja difícil flutuar na água. Às vezes fica pesado demais já que ele monta em cima de mim e eu sou obrigado a carregar o peso de nós dois juntos. 

Mamãe e papai dizem que o monstro é meu amigo imaginário e sempre perguntam pelo nome dele. Eu digo que não sei. Ele nunca me disse. Mas acho difícil que ele seja meu amigo. Amigos têm brincadeiras e conversas divertidas, mas as do monstro me deixam tão triste… Porque ele sempre parece estar certo. 

 Um dia, meu monstro me disse que eu nunca ia conseguir nadar bem como o Arthur. E, no fundo, eu sei que é verdade. Eu sou muito magrelo e o Arthur sempre nada mais rápido. O monstro também me mostrou que a Verinha não gosta de mim. Ela só brincava comigo porque a mãe dela era amiga da minha. E, depois que ele me contou, ofereci um biscoito pra ela e ela realmente não quis. Desde então parei de brincar com a Verinha. Ela deve estar bem mais feliz agora que não precisa fingir que gosta de brincar com  um pateta como eu.

Um dia, no parque, me perdi da mamãe, enquanto andava de bicicleta. Procurei por ela por muito tempo, e já estava muito nervoso quando o monstro me contou que achava que ela tinha feito de propósito. Que às vezes percebia que eu atrapalhava muito a mamãe, com toda a bagunça que fazia em casa e por isso ela tinha decidido me abandonar. Quando achei a mamãe, ela estava chorando e o monstro disse que era porque ela não queria que eu voltasse a fazer bagunça na casa. Depois daquele dia eu parei de espalhar meus brinquedos e prefiro ficar quietinho no meu quarto. 

Mamãe às vezes me pergunta se eu não quero chamar meus amigos para brincar. Mas o monstro sempre fala que eles não sentem minha falta e que eu sempre vou sobrar nas brincadeiras porque eles preferem brincar sem mim. Eles já brincavam sem mim antes de eu chegar nessa escola. Então, só passaram a brincar comigo por educação. Prefiro não atrapalhar a brincadeira deles. Levo o celular que o papai me deu para o recreio e brinco com vários joguinhos. 

Outro dia o João Pedro me chamou para jogar bola com ele e o Bernardo. Eu até gosto de jogar bola. Mas tenho andado tão cansado de carregar o monstro… O monstro diz que eu só tenho a ele. Mas às vezes eu sinto que ele pega pra ele toda a minha energia. 

Eu não gosto do monstro. Mas também não sei como mandar ele embora. Sempre que eu tento ignorá-lo, ele grita mais alto, ele mostra que sempre tem razão e que ninguém além dele está comigo, que se com ele eu já sou ruim, sem ele, pior ainda. 

Desde que ele chegou, e eu não lembro quando foi, tudo começou a ficar esquisito. Todas as coisas que eu gostava de fazer ficaram difíceis e penosas. Todas as pessoas que eu amava ter por perto passaram a parecer incomodadas com a minha presença. E até eu passei a me sentir esquisito, pesado, feio e incapaz de tudo. 

Às vezes eu só queria que o monstro fosse embora da mesma forma que chegou, sem que eu percebesse. Mas, quanto mais eu penso nisso, mais ele se afunda em  mim. O monstro diz que agora somos um só. Eu sinto saudade de quando eu era só eu. 

 

Bruna Paiva

 

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Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

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Escritores Anônimos em bloqueio criativo

O salão é maior do que o necessário, mas o ambiente é agradável. Sentamos numa roda de
cadeiras plásticas e todos se olham nos olhos. Alguns trazem bloquinhos e caneta, outros se
renderam à tecnologia. Uma parte parece animada. A outra, abatida pelos truques da própria
mente.
— Eu sou D. M. Ramalho e há 27 dias eu não consigo passar nada para o papel.
— Meu nome é Beatriz Coelho e eu estou há 301 dias sem conseguir escrever sobre o amor.
— Meu nome é Mauro Toledo e faz 94 dias que eu deixei de ser poeta.
— Por vontade própria? — Pergunta o mediador.
—Por bloqueio. —Mauro responde. — Não sai nada.— O círculo se encara, tenso. Uma gota
de suor escorre pelo rosto de Maria.
— Isso não quer dizer que você deixou de ser poeta. Todo bom escritor passa por isso. — A
tensão se afrouxa levemente até que alguém diga:
— Eu li sobre uma escritora que teve um bloqueio de 50 anos.
— Eu conheço um que ficou 10. — o autor ao lado se manifesta.
— Imagina, 50 anos sem escrever? — um desesperado se se altera, no extremo oposto do
círculo.
—Eu vou morrer de fome… — Maria choraminga na cadeira, entortando a coluna.
O burburinho começa. 50 anos sem escrever. É possível passar 50 anos sem que a mente faça
aquilo que ela decidiu que queria fazer para o resto da vida? 50 anos falhando em algo antes
tão simples.
—Vocês já tentaram escrever sobre isso? — Alguém levanta a voz em meio às conversas
paralelas.
— Sobre não conseguir escrever? — Mauro se interessa. Como não pensara nisso antes? O
bloqueio era tão forte que nem mesmo a solução mais fácil lhe passava pela cabeça.
— O último dos recursos. — Um impressionado profetiza.
—Eu tenho 7 textos sobre isso. Todos uma merda. — Lopes cruza as pernas.
— Sabe o meu maior problema? — Valéria toma a palavra. — Não é a questão do não
conseguir escrever. Eu escrevo — Ela folheia o caderno, cheio de anotações. — Mas eu não
acho nada bom. Já achei um dia. Mas, hoje, tudo que eu passo para o papel me parece
imaturo, pobre, indigno da leitura de qualquer um.

—Por que não traz aqui para lermos?
Valéria os encara, muda. Tem vergonha. De uma hora para outra, passou a se sentir exposta
pelo que escreve. A dar importância maior ao que é possível que o outro fosse pensar sobre
ela, caso lesse seus escritos. E, por isso, aprisionou cada um deles naquele pequeno caderno
em que não era capaz de terminar nenhuma linha iniciada.
— Melhor não. — Ela olha para chão.
— Vocês sabem que ao fim de cada reunião eu trago um prompt. — O mediador volta a falar.
—Eu nunca entendi essa palavra. — Alguém murmura.
—Eu também não. — Um sussurro responde.
O mediador faz uma careta. É complicado lidar com um coletivo de egos frustrados.
— Uma sugestão, dears. Um tema para instigar vocês a voltarem a escrever. É esse o objetivo
maior de nossa troca. Que um incentive o outro a partir de sua própria experiência.
— Eu não me sinto incentivado por um monte de gente que não consegue mais escrever. —
Fabrício debocha e logo recebe olhares revoltados.
— O que faz aqui então? — Alguém grita.
—Se é tão superior porque não senta e escreve? —Outro revoltado se altera e então começa o
burburinho.
— O prompt de hoje é Desejo e Dilema! — O mediador sobe o tom, mas dessa vez a discussão
não cessa.
E voltamos ao caos que encerra cada reunião. Afinal, é ele o que de fato motiva cada um que
volta, a cada quinta-feira, na vã esperança de que esse encontro magicamente o faça voltar a
saber escrever.

Bruna Paiva

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A fonte dos desejos

 

Liana segurou a moedinha entre os dedos, pressionando com força a pele contra o metal. Talvez dessa forma sua energia fosse telepaticamente depositada nos cinquenta centavos recém tirados da carteira. A mulher apertava os olhos e franzia a testa na mesma intensidade com que estrangulava a moeda nos dedos.

 

Há duas décadas e meia era assim. Ao fim da primeira semana de janeiro, Liana ia até o centro da cidade, na Praça das Garças fazer um pedido para o ano que começava.  Um hábito que herdou da avó Jurema que a levava até aquela fonte desde a infância. Dizia a avó que o imponente chafariz localizado no meio da praça era uma fonte dos desejos. Tudo o que se pedia para a fonte era realizado ao longo do ano, desde que se deixasse uma moeda como pagamento.

 

A pequena Liana sempre apertou os olhinhos, e os dedos em volta da moedinha cedida pela avó materna antes de jogar o dinheiro na fonte e fazer um pedido. Vó Jurema já se fora há cinco anos, mas Liana seguia mantendo a superstição que lhe fora ensinada. É verdade que os desejos não se realizavam tanto quanto na infância. Mas Liana voltava, todos os anos, adaptando os pedidos, na esperança de que dessa vez funcionaria. E lá estava, em mais uma tentativa.

 

Virou de costas para a fonte no centro da praça, prendeu a respiração, beijou a moeda e antes de jogá-la para trás disse baixinho para que só ela mesma, a moedinha e a fonte pudessem ouvir: “eu quero ser feliz”.

 

Mal Liana abriu os olhos, antes que pudesse se virar de volta para a fonte, foi surpreendida com algo duro que lhe atingira na cabeça e um barulho de metal batendo no chão. Olhou para baixo e deparou-se com uma gorda moeda de cinquenta centavos, tal qual a que acabara de jogar no chafariz.

 

Liana olhou em volta procurando quem poderia ser o autor daquela gracinha. Entretanto, estava sozinha na praça. A mulher abaixou e apanhou a moeda, que estava úmida e gelada. Olhou em volta mais uma vez e  para a moedinha em sua mão. Questionando a própria sanidade, Liana repetiu o processo. Apertou a moeda entre os dedos, fechou os olhos com força, sussurrou seu desejo e jogou o dinheiro na fonte.

 

Dessa vez o reflexo foi ainda mais rápido e além da moeda, Liana recebeu um jato d’água na cabeça.

 

– Quem está aí? – Liana perguntou apanhando o dinheiro e olhando em volta apreensiva.

 

– Não há ninguém além de nós, Liana.  – A voz grave veio da direção da fonte. Liana deu um pulo ao ouvir a resposta.

 

– N-Nós quem?

 

– Você e eu.

 

– E quem é você ?- Liana lançou a pergunta no ar ainda sem entender o que se passava.

 

– Mas você vem aqui há tantos anos e não sabe quem sou? Eu sou a fonte dos desejos, ora!

 

–  A fonte? A fonte está falando comigo? Como isso é possível?

 

– E você não fala comigo todo ano? Vem aqui, feito uma pateta, quase entorta as moedas de tanta força que faz nas coitadas e me dá de presente depois de pedir alguma coisa…

 

– Mas eu achei que… Os desejos nem se realizam, então eu pensei que…

 

– É você pensou, você achou… Eu sei. Pois é por isso mesmo que seus desejos não se realizam. 

 

– Como assim?

 

– Se não acredita em mim, por que todo ano insiste em vir aqui me pedir as coisas mais absurdas?

 

– Ei! Eu te pago por cada pedido!

 

– E daí? Você me pede coisas estapafúrdias, volta pra casa e senta no sofá esperando que eu faça suas vontades caírem do céu.

 

– Você é uma fonte dos desejos, ora!

 

– Uma fonte dos desejos, muito bem. Não uma fonte dos milagres! Eu não dou nada de mão beijada a ninguém. A ninguém, minha filha! Tudo o que eu faço é dar uma forcinha  aos acasos para que as coisas se realizem. Mas sem força de vontade? Pois, me economize!

 

– A senhora está me ofendendo!

 

– Minha querida, não adianta você vir aqui, me jogar um dinheirinho, dizer que quer casar e não procurar nem um namorado. Você achou o quê? Que eu mandaria o homem dos sonhos bater na sua porta num dia de chuva?!

 

  Esse foi meu desejo de dois anos atrás! E eu não consegui nem um namorado!

 

– Claro que não! Você nem mesmo se esforçou para dar uma chance a nenhum dos homens que se interessaram por você. Ou para procurar alguém que te interessasse.

 

– Mas a minha avó sempre disse que os desejos dela eram atendidos…

 

– Sua avó foi uma das minhas clientes mais fiéis. Mas ela nunca deixou de correr atrás do que queria esperando que eu resolvesse seus problemas. Qual foi mesmo seu pedido do ano passado? “Eu quero ser rica”. O que você fez de diferente para que isso acontecesse? Nenhuma fonte de renda extra, nenhum corte de gastos…. Desse jeito, realmente, fica difícil te ajudar…

 

– Mas esse ano  eu não pedi nada material e você me devolveu a moeda. De uma forma bem mal educada, diga-se de passagem.

 

– Ser feliz… Nós duas sabemos que isso eu não posso te dar… Você não sabe ser grata por aquilo que possui. Não se esforça nem um pouco para mudar o que te incomoda na sua vida. Em vez de aproveitar os momentos e pensar em soluções, vive reclamando e criando obstáculos para tudo. Eu te conheço o suficiente para saber que não quero perder meu tempo contigo este ano! Pode levar sua moeda. Tenho muitos clientes que merecem minha intervenção no destino, mas você, Liana, enquanto não mudar esse seu jeito acomodado, não faz mais parte dessa lista…

 

Bruna Paiva

 

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O esquizofrênico flerte contemporâneo

Postou uma piada. Vou curtir. Mas eu já curti as duas últimas, além do comentário sugestivo naquela publicação. Melhor não, ou vai parecer que eu estou dando muito mole. Mas não estou? Não é exatamente minha intenção que ele entenda que estou interessada?

Sim, mas não posso deixar muito na cara. O que ele vai pensar de mim? De certo vai me achar desesperada e fugir da maluca. Então é isso. Vou maneirar as curtidas, não vou falar nada e ainda vou desviar o olhar quando ele tentar contato visual. Provavelmente já percebeu uma nuance do meu interesse pela indireta que postei semana passada. Preciso me fazer de desentendida.

Mas, dessa forma, não estaria eu mostrando desinteresse e fazendo o rapaz acreditar que qualquer traço interessado que ele tenha percebido é apenas imaginação? Ah, mas ele sabe muito bem o que eu quero… Fui a única a curtir aquele comentário que deixava muito claras minhas intenções. Curtir, não, eu dei amei ainda por cima! Não tem como ser mais direta.

Mas e se a obviedade funcionar apenas na minha cabeça? Claro que não… Todo mundo sabe que, em 2018, curtida é demonstração clara de interesse.  Mas será que é mesmo? Se parar pra pensar, eu curto tudo de todo mundo. Mas só tô dando mole pra ele, mesmo.

Já sei! Vou seguir em outra rede social, assim não tem como ele não entender. Não entendeu. Meu Deus, o que eu faço? O cara não percebe o que eu quero, e está tudo tão claro…

Claro? Na minha cabeça talvez já que o interesse é meu e eu venho prestando atenção em tudo e superinterpretando interações online. Meu Deus! É óbvio que não tem nada claro. Senhor, o que eu me tornei? Completamente louca, achando que meia dúzia de curtidas abrem portas para telepatia.

Logo eu que sempre abominei joguinhos de desinteresse… Eu tenho o telefone do cara, qual a dificuldade? Mas e se ele não quiser nada comigo e todo o interesse que eu percebi for puro egocentrismo da minha mente?

Bom, aí paciência, minha filha. Abrindo o Facebook a cada 5 minutos, feito geladeira é que você não vai conseguir nada, mesmo.

“Alô? Fulaninho? Tudo bem? Então, tô a fim de você. E aí, vamos fechar?”

Bruna Paiva

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A bailarina

“Você é bailarina?”

Fernanda tirou os olhos do livro ao ouvir a pergunta. A plataforma pouco movimentada à espera do metrô não deixava muita dúvida de que era com ela que falavam. Sem tirar as costas da parede, olhou para baixo e logo encontrou a dona daquela voz delicada a encarando, esperando uma resposta.

“Já fui”, respondeu confusa observando a garotinha. Corpinho franzino que parecia começar agora o processo de puberdade. Vestida com o uniforme de uma das maiores escolas de dança da cidade, ela trazia os cabelos bem presos num coque amarrado por fita azul e as mãos segurando as alças da mochila. Uma mulher de meia idade observava a cena de não muito longe.

“Dá pra ver”, a menina falou apontando com a cabeça para os pés de Fernanda, que riu ao perceber as próprias pernas em primeira posição. Hábito involuntário. Uma vez bailarina, sempre bailarina.

“Você não dança mais?”

“Tive que parar”, respondeu fechando o livro e desmanchando a posição dos pés. Se escorou de lado na parede, passando o peso para uma perna só. “E você? Essa escola aí é boa, hein…” , falou apontando para a camisa da menina.

“É! A melhor da cidade! Estou começando a subir na ponta!” A menina sorriu empolgada, fazendo Fernanda sorrir de volta.

“Que legal! Esse é um momento importante, né? Tem que se dedicar muito.”

“É… É difícil. Dói muito. Você subia na ponta?”

“Subia. Subia, sim.”, Fernanda respondeu com um suspiro e a criança a encarou na espera da explicação que não veio.

“Por que você não dança mais?”

Fernanda mordeu o lábio e desviou os olhos pro trilho vazio antes de responder.

“Eu me machuquei… Aí não pude continuar.”

“Se machucou dançando?”

“Foi.”, respondeu com a cabeça fora dali. O trabalho, os ensaios, as conquistas. O palco, o solo, a variação tão desejada. A temporada dos sonhos, a vida como sempre quis. O salto, a queda, o silêncio, o público, o alvoroço. A dor, o desespero, a correria, os rostos assustados. O socorro, o hospital, os médicos, a cirurgia, o pavor. As sequelas, a negação, a fisioterapia, a insistência, o veredito: sonho destruído.

“Eu não quero parar. Eu amo dançar. Quero dançar a vida inteira.”

A menina recomeçou a falar obrigando-a a voltar para o presente. Fernanda sorriu não podendo evitar que seus olhos enchessem de lágrimas. Se reconheceu na pequena.

“Então se dedique muito. E se cuide direitinho…”

A mulher que até então apenas observava a cena finalmente se aproximou, colocando o braço em volta da criança

“Filha, chega de perturbar a moça.”

“Não, imagina… Uma graça a sua filha.”

“Obrigada.”

“Mãe, ela é bailarina. Quer dizer, era. Aí a gente está aqui conversando coisas de ballet”

Fernanda riu ainda tentando disfarçar os olhos molhados. Antes que pudesse responder, um metrô apareceu na plataforma.

“É o nosso.”, falou a mãe da criança. Era o dela também, mas Fernanda preferiu fingir que não, esperaria sozinha pelo próximo carro.

“Qual o seu nome?”, perguntou antes que a criança fosse embora.

“Fernanda!” Riu da coincidência, guardando-a para si mesma e falou:

“Boa aula, Fernanda. Não desista dos seus sonhos” a menina agradeceu alegre e Fernanda sorriu de volta, murmurando um “boa sorte”, enquanto o vagão ia embora.

Bruna Paiva

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Muito do que sei sobre empatia eu aprendi sendo fã

Pensar no outro, ajudar alguém sem querer nada em troca, se colocar no lugar da outra pessoa, compartilhar e ficar feliz pela felicidade de alguém. Muito do que eu sei sobre empatia eu aprendi sendo fã.

A amiga que mora no outro canto do país e nem te conhece pessoalmente, mas liga quando descobre que seu ídolo está indo pra sua cidade e ainda dá um jeito de te botar pra falar com ele. O celular emprestado pra fazer uma foto, na correria, seguido de “qual seu nome? Me passa seu número que eu te mando a foto.” O pedir pro ídolo mandar um áudio pro grupo das amigas que não puderam ir até lá. A menina que nunca te viu, mas fala “você não tem pôster para eles autografarem? Eu tenho dois, toma”. A que te procura na internet só pra dizer que fez um vídeo do teu ídolo te dando um autógrafo. Fazer campanha na internet pro ídolo seguir a coleguinha que está no Fandom há anos mas nunca foi notada. O “vai você primeiro que não vê ele há mais tempo” de quem só sabe disso porque você falou no início do dia.

Essas pequenas coisinhas que não mudam nada na vida de quem faz, mas que, a gente sabe, significam TANTO pra quem recebe… Eu sempre digo: “amor de fã só entende quem também sente” e acho que talvez por isso a gente acabe se ajudando tanto. Quem é fã sabe o quanto é importante aquela foto com o ídolo, e o quanto um “Menina, cê tá tremendo, deixa que eu tiro pra você” salva na hora do nervosismo.

A questão é que ninguém precisa fazer nada disso. Podia ser só um monte de gente no “cada um por si” e sem nenhum tipo de empatia por ninguém. Cada um ali tem seu próprio amor pelo ídolo, seu próprio sentimento, suas próprias motivações para admirar tanto determinada pessoa, independente das outras fãs. Mas nesses anos todos enfrentando fila e fazendo loucuras pelos artistas que admiro, eu aprendi que quando estamos na mesma situação é melhor agir em conjunto.

“Vai lá comer que eu guardo teu lugar na fila”, “cadê a menina que tava sem caneta pro autógrafo? Usa a minha”, “Tô com sede, mas ele pode aparecer a qualquer momento se eu for até a lanchonete da outra rua” “Eu tenho água aqui” e assim se inicia uma conversa que, além de matar o tédio, te faz conhecer gente que entende exatamente por que você resolveu passar o seu feriado com sol na cabeça, na calçada esperando uns caras descerem de um hotel.

É claro que tem aquelas que escondem informação, que se dizem amigas, mas quando descobrem o nome do hotel te olham como “nunca nem vi”; as que te veem ali no sol, na fila e não contam que quem você espera acabou de sair e não vai voltar tão cedo. Tem umas que mentem horários de voos, que te mandam para um hotel a bairros de distância do lugar certo, ou que continuam na frente depois de já ter falado com o ídolo, em vez de dar lugar pra próxima pessoa. Mas gente idiota tem em todo canto. Na faculdade, na vizinhança, na academia, na polícia, no Planalto… Eles estão por toda parte.

Ainda assim, quando eu me vejo sentada na calçada dividindo comida com gente que eu nunca vi na vida, virando intérprete pra que a pessoa que eu conheci duas horas atrás consiga “conversar” com o ídolo, mesmo sem falar inglês, eu percebo o quanto a gente se ajuda nessas situações… Todas as minhas experiências nesse sentido são incríveis. Algumas amizades de show eu tenho até hoje.

Quando está todo mundo ali no mesmo barco, na espera interminável em porta de hotel, em fila de show, em desembarque de aeroporto, um acaba ajudando o outro sem nem pensar que nunca viu (e que provavelmente nem vai voltar a ver) aquela pessoa na vida. E essa é das coisas mais bonitas que ser fã já me ensinou…

Bruna Paiva

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Frenesi

Escrevi até o mínimo e o anelar perderem a liberdade do movimento. Anotei a aula inteira. O que o professor dizia e os devaneios da minha cabeça. Aquele cara que fuma despreocupado, a minha janela no fim do corredor, a lista de tudo que ainda não fiz nessa semana… Textos curtos, tentativa de qualquer coisa que no fim virou nada com nada.

Agora escrevo isso aqui. Mais um amontoado de palavras que na realidade dizem coisa nenhuma. Resistência contra a dor que já queima minha mão e agora se estende para um pouco depois do punho. Sem propósito. Só o fluxo. O rio de palavras que vai fluindo ao mesmo tempo que penso em não pensar.

A letra já péssima e a caneta dando de lado. Meu braço desistirá a qualquer momento. As pessoas no metrô me encaram. A menina sozinha, no chão, escrevendo freneticamente num caderno sem pauta. Em transe. Mal sabem que o movimento robótico talvez me custe uma tendinite.

Bruna Paiva

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Tudo mudou, nada mudou…

Eu me lembro de estar nessa estrada com a mesma criança deitada nas coxas. A cabeça recostada no vidro e observando essas mesmas árvores. Tudo numa versão em miniatura, menos a confusão em minha mente.

Lembro dessa exata sensação de que a vida deu errado; da impotência diante de mim mesma, causada pela mesmíssima frustração por amar sem ser amada. Me lembro desse afundamento na espiral se afunilando dentro da minha cabeça. O mesmo olhar perdido focado em algum ponto, sem forças para voltar a tentar se encontrar.

Na época, o escape era escrever, escutar emorock no último volume e tentar me afundar em algum universo literário. Tanto tempo depois, o livro de fantasia repousa na mochila a meus pés; nos fones de ouvido, Panic! At The Disco; e, com, cá estou apelando para o papel e a caneta de sempre. Tudo mudou, nada mudou…

O motivo agora é outro. Muda o nome e o endereço (e, pensando bem, nem isso).

É bem verdade que apesar do Déjà vu, e talvez justamente por ele, hoje eu sei que o mundo não vai acabar. Em algum momento passa. Sempre passa… Porque, por mais doloroso que o processo seja, e ainda que eu acabe lidando com todos da mesma maneira, eu aprendi que a vida segue; tão ligeira quando o carro nessa rodovia.

Bruna Paiva

 

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Fala sério, mãe: o livro da minha adolescência na tela dos cinemas!

Thalita Rebouças foi figura importantíssima na minha adolescência. Uma das minhas escritoras favoritas daquela fase, por quem eu ainda tenho um carinho imenso e, sim, ainda dou uma leve surtada toda vez que encontro. Meu coração adolescente demais não aguenta.

Eu cresci lendo Thalita e a trajetória dela é uma das que me inspiram nesse sonho de ser escritora. Eu li tanto e com tanto fervor os livros dessa mulher… Era um Fala Sério atrás do outro, filas e mais filas pra conseguir um autógrafo, indicava para todas as amigas, no fundo, só pra ter alguém para conversar sobre as histórias de que eu tanto gostava.

Os livros da Thalita foram tão marcantes que, de um tempo para cá, têm sido adaptados para outros formatos e eu, tiete como sou, vivo correndo atrás de todos. Quando Tudo Por Um Popstar virou peça de teatro, eu era A PRÓPRIA Slavabody Disco Discozete. Fui assistir aquilo diversas vezes, conhecia o elenco e, ai meu Deus, que saudade daquela época… Depois veio “É Fada!”, primeira adaptação para o cinema. O filme tinha um apelo maior pela Kéfera como protagonista, mas eu estava lá muito mais pela empolgação de que finalmente um livro da Thalita estava nas telonas, para essa nova geração também se encantar pelos livros de quem marcou a minha adolescência.

Na última semana eu finalmente fui conferir o mais novo filme, baseado num dos livros que mais me marcou “Fala Sério, mãe”. Fui com a minha mãe, obviamente, e saímos de lá às lágrimas, as duas. O filme protagonizado por Ingrid Guimarães e Larissa Manoela me trouxe aquela nostalgia gostosa daquela história que eu já conhecia. Mas também fez com que eu me enxergasse de tantas formas… Não tem como não se identificar com a relação entre Malu e Angela Cristina. As situações clássicas que toda mãe passa com os filhos, os dilemas que todo filho passa em relação aos pais… No meu caso, até o ídolo da mãe é o mesmo. Morremos de rir com o fanatismo de Angela pelo meu digníssimo sogrão Fábio Jr. já que lá em casa não é muito diferente.

As duas atrizes deram vida às personagens de maneira tão verdadeira e representativa que é impossível não se emocionar. Cheguei ao cinema achando que tenderiam mais para a comédia pastelão, mas conseguiram equilibrar drama e cômico na medida certa. Um filme delicioso, para todas as idades e perfeito para assistir em família. Arrastem suas mães para o cinema, não tem como se arrepender.

Bruna Paiva

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