Nada é por acaso

Eu sempre gostei de acreditar que algumas coisas não acontecem por mera coincidência. Tudo na vida se explica em algum momento. Mais de uma vez o universo já me apresentou a pessoa certa no momento em que eu mais precisava.

Em abril de 2016, num dia em que a paciência me faltava e sobravam pretextos para reclamar de tudo, a caminho da faculdade cruzei com um menino no metrô. Ele entrou no vagão e tocou uma música que mexeu comigo. Abriu meus olhos e mudou meu dia. “Filho, não se estresse. A vida só é boa quando você faz as coisas com o coração”, dizia o refrão que ficou na minha cabeça por tanto tempo que eu precisei escrever sobre ele. Não consegui encontrar nada na internet e não lembrava o nome do menino. Ainda assim, eu quis contar aquela história. 

Eu lembro de estar numa festa de Halloween quando recebi uma notificação estranha no Instagram. Alguém publicando meu texto, agradecendo por ele. Foi só quando cheguei em casa, de madrugada, que consegui entender o que estava acontecendo. O menino do metrô havia esbarrado com o meu texto na internet do mesmo jeito que esbarrara na minha rotina meses antes.

Ele me agradeceu pelo texto e disse que estava pensando em desistir de tudo antes de ler o que eu escrevi. Que minhas palavras o fizeram perceber que ele realmente podia tocar as pessoas com suas músicas. O que ele não sabia era o quanto me fez bem perceber que, por meio da minha arte, eu consegui encontrá-lo e emocioná-lo de volta. Lino Lírio. Procurem por ele e sigam nas redes sociais, as músicas são lindas e estão todas no YouTube (é só clicar aqui).

Na tarde de ontem, finalmente nos conhecemos. Ele veio passar mais um tempo no Rio e fizemos questão de nos encontrar. Arrastei a família inteira para assistir à apresentação e saí de lá encantada. Pelo que assisti, é claro, porque ele conseguiu me emocionar mais uma vez. Pelo lugar onde aconteceu o show; 57 casa aberta é um espaço cultural novo e uma iniciativa sensacional. Pela cantora que se apresentou depois dele, Carol Dall, que é simplesmente sem igual.

E, mais do que nunca, encantada com essa história que eu me recuso a acreditar que seja mera coincidência.

Bruna Paiva

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Último Porre

Então vamos brindar! Um brinde à minha solidão e à falta que eu ainda sinto de você. Uma dose pela dor e outra pela sua nova felicidade. Brindemos à mensagem que eu juro que foi o álcool quem te mandou há pouco. E à maquiagem agora rolando pelo meu rosto.

Garçom, mais uma garrafa, por favor. E traz com dois copos que é para brindar comigo mesma. Brindar às suas fotos que ainda estão na minha parede, mesmo que suas gavetas estejam vazias, e à sua boca que não beija mais a minha. Brindar à roupa de cama que ainda tem o seu cheiro e à minha cabeça que faz questão de repassar cada momento nosso. Um brinde à sua irmã que trabalha comigo e vai me fazer lembrar de você todos os dias.

Só mais essa, eu prometo. Talvez mais uma, duas ou três. Só para a bebida quente abraçar meu coração. Vamos brindar à minha casa bagunçada e à geladeira vazia, que eu não tenho vontade de encher. Meu trabalho pela metade, à academia que eu paguei e não fui, o encontro com meus amigos que eu faltei e tudo o que eu não tenho conseguido fazer porque você segue sendo só o que se passa na minha cabeça.

Moço, traz mais uma dose enquanto eu enxugo a cara suja de rímel na blusa branca que foi ele que me deu. Me dá mais tequila porque eu ainda lembro de tudo. De cada beijo, cada palavra e cada vergonha que eu já passei desde que ele me deixou. Pode trazer mais uma pra ver se eu esqueço, se eu consigo, com álcool, apagar toda essa dor.

Um brinde ao cara ali do lado que não para de olhar para mim e um outro para você que me obrigou a encher a cara para te esquecer. Esse é o último. O último, eu juro. Como jurei no anterior e vou acabar jurando no próximo. Mas enquanto não aprendo a cumprir o que prometo, vou tomando alguns últimos porres até que não precise mais jogar a culpa em você.

Bruna Paiva

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O palco salvou a minha vida

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No palco eu me sinto livre. Não me importa se atuo, danço ou faço os dois ao mesmo tempo. Ao colocar os pés num palco, sinto uma energia que refresca o rosto e deixa a boca doce. O cheiro de laqué e cortina velha revigora a alma de um jeito que só os artistas entendem. Felicidade que vem de dentro. Felicidade que vem da arte.

Sinto-me à vontade para ser quem sou. E experimentar tudo aquilo que nunca fui. A vibração que vem da plateia e a luz esquentando o meu rosto me encorajam a transformar arte em vida. É onde me sinto mais viva do que o normal. Brilho nos olhos, coração sambando, estômago frio e a adrenalina brincando da cabeça aos pés. Arte correndo nas veias.

Alguns dizem que fui picada pelos “bichinhos do teatro”. Eu prefiro acreditar que já tinha isso na alma. Adormecido, o amor pela arte sempre esteve ali. Até o momento em que, de fato, pisei num palco e experimentei a intensidade de ser artista.

O teatro mudou a minha vida. A dança mudou a minha vida. Libertou-me das vergonhas de ser exatamente quem eu quero ser. De ficar presa e conformada com o mundo; de afogar em minhas próprias mágoas. Livrou-me da condenação de ser igual a todos os outros.

Bruna Paiva

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O amor não vê idade

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Ele tem 36, eu tenho 22. Ele tem um filho de 8 anos e eu não penso em engravidar tão cedo. Ele tem pós-doutorado e é bem-sucedido na profissão. Eu estou terminando a faculdade e torcendo para conseguir um estágio. Ele tem uma ex-mulher e eu uns dois ex-namorados. Ele conhece oito países e eu nunca saí do Sudeste. Ele comprou uma casa para os pais e eu ainda dependo dos meus para pagar a faculdade.

Estamos em fases diferentes da vida e somos extremamente felizes assim. Ele me ensinou a gostar de ler e aprendeu comigo a amar o Twitter. Ele passou a curtir Beyoncé e me levou para conhecer lugares incríveis. Ele faz um bife à parmegiana maravilhoso e ama meu pudim de leite.

Fiz ele voltar a curtir o Carnaval e, com ele, criei a tradição de assistir a todos os filmes indicados ao Oscar antes da premiação. Ele ficou muito interessado em aprender sobre moda e desenvolveu um estilo incrível que até combina com o meu. Ele diz que adora o jeito com que eu cuido do filho dele e eu realmente amo aquela criança. A ex dele me pediu ajuda para organizar a festinha de aniversário do menino e como a gente se divertiu!

Ele nunca tinha feito uma tatuagem e minhas sete acabaram o inspirando. Eu fiz ele assistir Gossip Girl e até ele se apaixonou por Chuck Bass. Ele me ensinou a usar post its para organizar meus cadernos e a casa dele é tão arrumada que eu passei a atender quando, na dela, minha mãe me manda arrumar o meu quarto.

A diferença de idade é grande, a gente ouve o tempo inteiro. Mas é exatamente o que faz nossa relação ser tão especial. A gente se completa. Um está sempre muito interessado no que pode aprender com o outro. Eu nunca estive me sentindo tão viva e madura. Nunca tive tanta certeza do meu sentimento por alguém. Contrariando todas as fofocas e pitacos sobre nossa vida, a gente se ama. E não são 14 anos que vão me impedir de me permitir ser feliz como nunca fui.

Bruna Paiva

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Necessidade de amar

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Aos 13 anos, eu tinha certeza de que precisava de alguém comigo para ser feliz. Essa ideia insistente na cabeça me fazia acabar apaixonada por qualquer um. O garoto mais velho que me dava atenção, o que nem olhava pra mim, o príncipe dos 15 anos da irmã da minha amiga. O colega de sala que perguntava a data, o primo da amiga, o amigo do primo, o professor bonito, o garoto da escola que parecia aquele ator de malhação. O vizinho, o namorado da garota lá da sala, o assistente do professor de luta do meu irmão, o amigo que não tinha nada a ver.

Estava sempre apaixonada por alguém, ou me convencendo de que precisava estar. De que aquele, sim, era o amor da minha vida. Vivia fantasiando as histórias mais loucas de amor com cada um que eu conhecia. E a pior parte disso é que eu sofria. Porque, é claro, a ideia de que eu, na adolescência, tinha a missão de encontrar o amor da minha vida era extremamente desgastante. E quanto mais o tempo passava, mais eu tinha certeza de que acabaria sozinha e abandonada no mundo.

Passei tanto tempo emendando uma paixão na outra, que não me lembro de uma fase daquela época que tenha passado sem gostar de ninguém. Acreditei tanto que precisava encontrar o amor que acabei banalizando o sentimento. Estava tão focada em amar e ser amada que acabei não conseguindo nenhum dos dois. A única coisa que meus “amores” de adolescência me trouxeram foi amadurecimento. E ainda bem que eu cresci para perceber que aquele sofrimento todo, as decepções, as horas trancada no quarto chorando ao som de Simple Plan não eram sinônimo de amor.

É bem verdade que, hoje, tenho certa preguiça de relacionamentos. Se me interesso por alguém, falo, corro atrás, mas se é muito complicado acabo perdendo o interesse mais rápido do que imaginava. Já a criatividade para as loucas fantasias de amor eu deixo para as personagens das histórias que escrevo. Depois de muito analisar minha adolescência, percebi que nunca precisei de um amor para viver com amor. Eu invejava os personagens dos livros e filmes que gostava e não prestava atenção em mim mesma.

E é tão mais fácil ser feliz quando se está bem com quem você é… Mas com 13, 14, e todas as outras idades dessa fase louca que é a adolescência, era aquilo que fazia sentido na minha cabeça. Não dava para ser feliz se eu não estivesse apaixonada. Mais uma vez, ainda bem que eu cresci! Todo o esforço que eu dedicava a me apaixonar e induzir um sofrimento sem sentido, hoje eu focalizo para as coisas que eu amo de verdade.

Eu amo passar horas cuidando do meu cabelo e pesquisando quais os melhores produtos para os tratamentos de que ele precisa. Amo assistir séries junto com o meu irmão, ainda que a gente nunca entre em acordo sobre a quantidade de episódios que vamos assistir por dia. Eu amo a sensação de liberdade de andar sozinha por aí. Amo sair com a minha família e bater papo com os amigos. Amo conhecer lugares diferentes e assistir a vídeos idiotas no YouTube. Amo dançar, fazer teatro e escrever.   Amo passar o dia de pijama assistindo de tudo na Netflix. Estudo o que amo e trabalho com isso também

Não, eu não desisti daquele amor que tanto procurei, nem deixei de acreditar que um dia a gente vai se esbarrar por aí. Mas a pressão que eu fazia sobre mim mesma para isso eu resolvi deixar de lado. Eu não preciso e nem quero um relacionamento nesse momento da minha vida. Se acontecer, ótimo, mas se não, é ainda melhor. Finalmente aprendi a ser feliz solteira. A me permitir ser livre e dizer sim ou não para o que eu bem entender.

Gostaria de ter descoberto essa paz antes. Que minha adolescência não tivesse sido tão conturbada em relação a isso. Mas só encontrei essa folga da necessidade de amar agora. E a sensação é maravilhosa.

Bruna Paiva

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2016: um ano de aprendizados…

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2016 foi um ano intenso. Não foi o melhor da minha vida, longe disso. Mas seria injusto dizer que foi o pior. Foi um ano de aprendizados, de experiências enriquecedoras. Ano de finalizar ciclos, começar novos. Um ano que me ensinou muito sobra a vida. Nos mais diversos aspectos e, às vezes de maneira dura.

2016 começou me mostrando que, sim, eu era capaz. Apesar de todo o desgaste emocional do ano anterior, eu consegui passar para a universidade pública que eu queria. Me mostrou como é bom conhecer gente nova e realidades diferentes; como faz bem abrir a cabeça. Mas também me mostrou que é bom manter as pessoas antigas. Que ninguém faz nada sozinho e é importante conservar aqueles que estiveram sempre com você.

Um ano que me mostrou que a vida adulta é complicada e que se a gente não corre atrás do que quer, se não arruma tempo, nada acontece. 2016 me ensinou que é difícil lidar com as pessoas e, realmente, às vezes é melhor ser feliz e aproveitar o momento do que ter razão e se estressar. Me mostrou que, em algumas situações, gente que você nem imaginava pode se tornar essencial para o seu bem-estar.

2016 levou para longe uma parte fundamental da minha família e eu não sei como ainda não morri de tanta saudade. Foi o ano da minha formatura na escola de dança e da consequente despedida do lugar que era minha segunda casa. Um ano que me fez quebrar preconceitos e me proporcionou experiências incríveis. O ano em que eu aprendi a esfregar os limões na cara da vida em vez de viver conformada.

Foi um ano em que percebi o quanto as pessoas são cruéis e não se preocupam umas com as outras, a empatia está em extinção. O preconceito e a intolerância ainda são protagonistas em todo o mundo. E a falta de respeito, falta de vergonha está disseminada pelo meu amado país. Tanto na política, quanto fora dela.

Mas acredito que a maior e mais forte lição que levo de 2016 é sobre a brevidade da vida. A fragilidade da nossa existência na Terra. Um ano repleto das tragédias mais absurdas e inimagináveis. Serviu para esfregar na minha cara que nós não somos melhores que nada. E que precisamos viver no presente. Somos um sopro, um suspiro. A expressão “para morrer basta estar vivo” nunca fez tanto sentido quanto em 2016.

Um banho de rio para relaxar no fim do expediente; a volta de carro, mais rápida que o necessário, depois de deixar a namorada em casa; o ataque inesperado numa boate divertida ou no feriado na praia; a falha humana no avião que te levava para realizar um sonho. A vida vai embora de repente, sem dar chance de uma última espiada no mundo.

A vida está aqui, agora. Daqui a dois segundos, ninguém sabe. O importante é se permitir viver, ser feliz. Apesar da rotina, do cansaço e dos problemas. Dar valor para o que temos hoje. E parar de deixar tudo para depois… Essa é a maior lição que levo de 2016.

Que ano pesado! Que ano louco. Que ano doído… Mas que ano de aprendizado… Um ano que me trouxe coisas boas, é verdade. Mas que trouxe muita dor e tragédia junto. 2016 foi complicado e ainda bem que acabou. Que 2017 seja um ano em que consigamos respirar. Que o mundo se acalme e que fiquemos mais em paz. Que seja um ano de conquistas e, principalmente, que possamos ser felizes a cada dia.

Feliz ano novo para todos nós!

Bruna Paiva

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Dona de si

woman-1208328_640.jpgEla anda descalça pelos corredores da faculdade e não se incomoda se a blusa estiver amarrotada. Ela ama moda e veste tudo o que acha bonito, mas, quando a preguiça é maior, ela corre para as combinações de sempre. Ela usa tênis com qualquer meia e só passa maquiagem quando está com paciência.

Ela dá um nó no cabelo bagunçado, sem pentear, e sai de casa numa boa. No fone de ouvido, escuta de Beatles a Molejo. Adora livros densos, mas se derrete com os romances adolescentes. Ela come de tudo o que gosta e uma vez por dia dá uma volta no quarteirão com o cachorro. De vez em quando ela pega a bicicleta e pedala pela cidade. Ela assiste a filmes de ação, comédia, romance e terror.

Ela não bota dificuldade em nada. Não se priva do que quer. Se está louca para ir à praia, dá um jeito e vai. Quer sair para beber? Chama as amigas. E, se ninguém for, ela vai sozinha mesmo. Ela sai com quem tiver vontade e faz o que estiver a fim. Até sonha em encontrar um amor, mas não se prende a ninguém por pura carência.

Paga as próprias contas e ama viajar. Ela não tem vergonha de nada. Faz tudo o que quer na vida e não esconde isso de ninguém. Não dá a mínima atenção aos julgamentos vindos de gente que no fundo queria ser como ela.

Ela é livre, dona de si. É quem manda no próprio corpo, nas próprias vontades, na própria vida. Ela queria que todas as outras mulheres pudessem sentir a liberdade de ser assim: escritora do próprio destino.

Bruna Paiva

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A juventude “perdida” que ainda vai mudar o mundo

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“Essa sociedade está muito alienada!”

“Demais! Fora que as pessoas não conseguem ter empatia umas pelas outras. Sabe? Ninguém se coloca no lugar do outro.”

Foi esse primeiro diálogo que me fez levantar os olhos do livro que estava lendo. Numa das estações de metrô do Centro do Rio de Janeiro, entrou um trio de meninas, com no máximo 14 anos cada uma. As três vestiam calças jeans e a camisa de um colégio de Ensino Médio técnico e público. Mochilas, aparentemente pesadas, nos ombros e cansaço estampado nos rostos.

As três estavam numa discussão política super engajada. Defendiam o direito de cada um ser o que quiser e o dever de respeitar os outros. Discutiam um caso de injustiça que acontecera na escola com algum professor. Não entendi direito o problema, algo sobre a facilidade que as pessoas têm de julgar os outros de forma precipitada, baseadas em boatos sem se aprofundarem no assunto. Mas não consegui mais voltar para minha leitura.

Prestei atenção à conversa mesmo, mania feia, eu sei, mas não consigo viver sem observar tudo à minha volta. Não consegui parar de sorrir enquanto elas permaneceram ali dentro. Em tempos de um mundo tão louco e cruel, talvez a juventude não esteja perdida como muito se pensa e se fala por aí. As novas gerações se mostram cada vez mais engajadas, mais preocupadas em se colocar no lugar do outro e lutar por seus direitos.

É lindo ver meninas tão jovens já tão conscientes e discutindo assuntos importantes. Saí do metrô, naquele dia, feliz. Sorrindo e com uma esperança batendo forte no peito. Todo mundo tem o direito de ser e acreditar naquilo que quiser. E eu acredito, com todo o coração, que os jovens são capazes de mudar o mundo. Que a minha geração e as mais novas estão a cada dia mais conscientes, mais preocupadas em concertar o que está errado para que esse planeta vire, sim, um lugar melhor a cada segundo.

Bruna Paiva

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Você paga pela arte que consome?

wp-1476189581117.jpg“Vocês já viram aquela comédia romântica linda?”

“Eu queria ter visto, mas acho que já saiu de cartaz.”

“Ah, não tem problema! Já tem pra baixar na internet.”

“É que eu não baixo filme”

“Você não sabe? É fácil! Tem vários programas, e tem sites para ver online também”

“Não, é que eu não assisto filmes sem pagar por eles”

É nesse momento que recebo olhares claramente questionando de que planeta eu venho. É uma questão simples na minha cabeça, um princípio que respeito muito: eu pago pela arte que consumo. Seja ela cinema, teatro, literatura, música, ou qualquer outro tipo de manifestação cultural. Se há um custo para que eu possa usufruir dela, eu faço questão de não o driblar.

“Você paga para escutar música?” Sempre que é preciso.

“E se você quiser assistir a um filme que não está disponível na Netflix, ou outras redes pagas?” Eu não assisto. Ou compro o DVD.

“Mas e livro? Você adora ler, impossível nunca ter baixado um pdf. Livro é caro!” Só baixo o que é de Domínio Público. O resto eu compro, quando tenho dinheiro para isso.

Toda vez em que eu entro numa discussão sobre a importância de respeitar os direitos autorais da arte, acabo saindo como a anormal do grupo, ou “a maluca que tem dinheiro pra rasgar”. É engraçado como esse é uma visão completamente distorcida da realidade.

“Então, você acha que, se eu não tenho dinheiro para acessar uma arte eu não posso tentar outros meios de chegar até ela? ” Eu ouvi uma vez. Sinceramente? Se seus “outros meios” forem ilegais, eu realmente acho que você não pode. Existem diversas maneiras de chegar à arte sem precisar roubar. E, como roubo, leia de DVD pirata no Camelódromo às músicas que você baixa no 4shared.

Quando eu gosto de um artista eu quero que, mais do que sucesso, ele receba o merecido retorno por seu trabalho. Chegar à arte dele de maneira ilegal só contribui para seu fracasso. Não quer pagar pelo livro? Peça emprestado a um amigo, vá a uma biblioteca. Filmes? Eu acho que a Netflix tem um preço justo se considerarmos a quantidade de conteúdo disponível. E existem outras plataformas para isso também. Música? O Spotify custa 15 reais e dá direito a 5 contas. Se dividir com a família ou amigos, dá 3 reais para cada um, para ouvir quanta música você quiser. E o serviço gratuito também é bem funcional, se você ignora os anúncios.

Mas as pessoas acham que não precisam pagar por arte. Que é obrigação do artista disponibilizar seu conteúdo gratuitamente para quem “não tem dinheiro para gastar nisso”. O que todo mundo esquece é que o artista também precisa pagar as contas. Se você for à sorveteria e disser que gosta muito do sorvete deles, “mas não tem dinheiro para gastar nisso” o sorveteiro vai dizer “sinto muito”. Ele não vai te dar o sorvete de graça. Porque o mundo não é assim.

A gente precisa, sim, pagar pelo que consome. E a arte, diferente do que muitos pensam, não tem que ser gratuita. “Mas quando eu pago pelo filme eu estou enriquecendo a produtora, e não o artista”. E quando você não paga por ele, o artista não recebe nem o percentual que lhe é de direito.

Há quem diga que esse discurso exclui socialmente aqueles que “não têm dinheiro para gastar com isso”. Eu ainda acho uma conscientização importante para uma sociedade mal-acostumada. Assim como o sorveteiro, o artista não tem obrigação alguma de te dar de graça um produto que é fruto de muito trabalho.

Bruna Paiva

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Mania de inventar histórias

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Eu tenho essa mania estranha de querer deduzir a história por trás de pessoas que eu nem conheço. A menina descendo a ladeira com um cachorrinho enrolado numa toalha no colo. Provavelmente indo até o veterinário. Talvez tenha o encontrado no dia anterior e, finalmente, convenceu a mãe a deixá-lo ficar.

O casal discutindo discretamente no metrô. Talvez por causa das finanças. Ou talvez ele queira mais um filho e ela não queira de maneira alguma. A garota toda arrumada na porta do cinema. A senhora sozinha, cheia de compras pesadas no ponto de ônibus. O cara tatuado, que encara o celular, do outro lado da rua. Uma dessas histórias que eu crio na minha cabeça já até virou motivo de texto e vídeo: A menina da mesa ao lado.

Gosto de imaginar o que levou cada pessoa ao lugar em que está. Talvez porque eu goste de ouvir histórias. Por trás de cada rosto, de cada atitude, há uma coleção de acontecimentos que fez aquela pessoa ser quem é. Algumas histórias mais interessantes, outras só os clichês de sempre. Mas todas definem quem cada ser humano se torna, o porquê de seu modo de ser e a maneira como ele encara a vida.

Não dá para dizer que uma mulher aparentemente fria, desconfiada e que não se entrega tenha sido assim a vida inteira. Quem sabe ela já não foi doce e inocente? A vida nos leva a tantos lugares… A verdade é que não se conhece ninguém apenas pela convivência. Todo mundo possui traumas. Não há ninguém que não colecione segredos, mesmo que sejam coisas pequenas.

Nossas memórias constroem a pessoa que seremos. As experiências boas e as ruins se aliam para formar nossa personalidade. E esta, é extremamente mutante. A menina doce, que se entrega aos sentimentos hoje, pode crescer e se tornar uma mulher fria, que vive na defensiva.

Cada trauma, conquista, problema, realização, tudo o que vivemos funciona para nossa personalidade como tijolos em uma construção. De um em um, vão construindo aquilo em que nos tornaremos. A diferença é que essa construção não para nunca. Sempre há mais um capítulo de história para adicionar à coleção.

Bruna Paiva

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