Tudo mudou, nada mudou…

Eu me lembro de estar nessa estrada com a mesma criança deitada nas coxas. A cabeça recostada no vidro e observando essas mesmas árvores. Tudo numa versão em miniatura, menos a confusão em minha mente.

Lembro dessa exata sensação de que a vida deu errado; da impotência diante de mim mesma, causada pela mesmíssima frustração por amar sem ser amada. Me lembro desse afundamento na espiral se afunilando dentro da minha cabeça. O mesmo olhar perdido focado em algum ponto, sem forças para voltar a tentar se encontrar.

Na época, o escape era escrever, escutar emorock no último volume e tentar me afundar em algum universo literário. Tanto tempo depois, o livro de fantasia repousa na mochila a meus pés; nos fones de ouvido, Panic! At The Disco; e, com, cá estou apelando para o papel e a caneta de sempre. Tudo mudou, nada mudou…

O motivo agora é outro. Muda o nome e o endereço (e, pensando bem, nem isso).

É bem verdade que apesar do Déjà vu, e talvez justamente por ele, hoje eu sei que o mundo não vai acabar. Em algum momento passa. Sempre passa… Porque, por mais doloroso que o processo seja, e ainda que eu acabe lidando com todos da mesma maneira, eu aprendi que a vida segue; tão ligeira quando o carro nessa rodovia.

Bruna Paiva

 

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Papel

Permita que eu abuse de sua boa vontade.

Que eu derrame sobre ti toda a angústia de ser quem sou

E a impotência de amar quem amo.

 

Me conceda essa sua paciência

Que me é assustadoramente necessária.

Porque no fundo sou eu a tua escrava,

“meu tão certo secretário”.

Sou eu quem te preciso e não você quem me serve.

Te atormento com a minha agonia

Que é para não terminar afogada.

E não há remédio mais eficaz para o vazio estranho que me consome.

 

Desafogo a caneta e deixo a marca da minha dor

Porque sei que, enquanto houver tinta, você me permitirá.

Sempre em branco, paciente, à disposição.

 

Bruna Paiva

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