Somos todos adolescentes demais

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Imagem:reprodução web

Sonhei ser rock star, engenheiro, atleta, ator, dono de restaurante, empresário, poeta. Vendi roupa, chocolate erótico, dei aulas particulares. Levei bomba no primeiro vestibular e sofri para escapar do Exército. Entrei na faculdade para fazer um curso e acabei me formando em outro. Perdi a conta das vezes que me apaixonei e que não fui correspondido. Quando parei de procurar acabei esbarrando com o amor da minha vida. Casei aos 23 e alguns dizem que não aproveitei a vida. Eu discordo. Ao meu modo, também fui Adolescente Demais.

Talvez por isso tenha tomado coragem para pedir à patroa Bruna Paiva, minha filha e dona deste blog, um espacinho como colaborador. Na verdade sempre estive por aqui, mas nos bastidores. Lendo originais, sugerindo temas, comprando livros, comparecendo a eventos, me dividindo entre os papéis de fã e incentivador de uma menina que ora me surpreende, ora me emociona com seus escritos.

Tenho que admitir que escrever no Adolescente Demais dá um certo frio na barriga. Será que a garotada vai me comparar ao “tio Sukita”? (quem não entendeu corre no google!). Afinal de contas, o que um coroa de 42 anos tem de interessante para postar em um blog lido predominantemente por jovens? Não tenho qualquer pretensão de ser professoral, até porque nessa convivência com vocês aprendo mais do que ensino. Quero apenas compartilhar experiências e a forma como um ex-adolescente enxerga o mundo.

Nessa minha estreia aqui divido com vocês o meu sentimento de dever cumprido no que diz respeito ao papel de pai de fã da Restart. A sensação veio depois de ler o texto “Eu vou levar comigo” publicado pela Bruna há pouco mais de uma semana, quando a banda anunciou o seu fim. Mesmo que para mim eles jamais tenham ido além do status de “viadinhos coloridos” (definição da própria fã!), nunca censurei minha filha em seus momentos de completa ausência de lucidez.

Nem mesmo quando ela chegou em casa toda lanhada depois de sair no tapa com outras meninas em um show. O motivo justificava os meios, contou-me vitoriosa ao exibir em seu quarto, entre hematomas e arranhões, um pedaço de toalha suada que um dos integrantes jogou na pista (ela tem essa coisa nojenta até hoje guardada em uma caixa!). Ou quando tive que desatracá-la do guitarrista e ordenar, em tom ameaçador, que ela desistisse da invasão que havia comandado à van da banda na saída de um show.

Ao longo de cinco anos eu e minha mulher nos dividimos no staff de equipe de apoio de fã enlouquecida. Enquanto eu levava e buscava nos eventos, a pobre da mãe acompanhava a louca da Bruna. Perdi a conta das filas quilométricas, pedidos para ir para aeroporto e porta de hotel, das roupas coloridas, faixas , cartinhas, camisetas, encontros de fã clubes e gritos, muitos gritos. Meu Deus…. Como elas gritavam.

Querem saber? Nunca achei que fosse dizer isso, mas valeu muito a pena. Uma das vantagens de se ter filhos adolescentes é poder reviver a intensidade dessa fase mágica. É ter o privilégio de conviver com gente que não tem medo de se jogar de cabeça em busca de sua felicidade. Gente com fome de vida e que nos ensina a lembrar que um dia também fomos Adolescentes Demais.

J.M. Costa

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Ex-adolescente fala sobre dificuldades na escolha de uma profissão

  

reprodução web

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Olá. Sou um ex-adolescente de 41 anos e vim aqui  contar um pouco da minha experiência  no processo de escolha da  minha profissão.  Aos 16 eu vivia cantando, estudava violão clássico, tocava guitarra, programava  jogos  no meu computador , era atleta de Tae Kwon Do, gostava muito de ler, escrever,  fazia teatro e o cinema era minha segunda casa. Imaginem  como era minha cabeça em meio a essa sopa de atividades…

Para tumultuar ainda mais, eu era tímido, um tanto inseguro,  ainda virgem (pra mim era um problemão), sem grana e digamos que não me enquadrava entre os mais belos da minha rua.  A adolescência é dura, particularmente com os homens. Enquanto as meninas florescem, lindas, repletas de curvas e olhares sedutores, nós, meninos, crescemos de forma desproporcional, desajeitada e infantil.

Mas voltando à escolha profissional, as carreiras que naquela época eu achava que se enquadravam em meu mundo eram Educação Física, Música, Computação, Letras, Artes Cênicas e Cinema. A vocação para as artes  falava alto,  mas ainda mais alto falava a vontade de ter uma vida financeira estável. Cresci  em um cenário de hiperinflação vendo minha mãe se desesperar cada vez que o aluguel aumentava, ou que a prestação da escola subia.  Não queria passar pelas mesmas dificuldades com minha futura família.

Lembro bem de um episódio marcante que, na minha  ingenuidade adolescente, pesou  bastante na decisão de desconsiderar qualquer possibilidade de uma carreira artística. Fazia curso de canto, teatro e oficina de poesia no Galpão das Artes, uma espécie de mutirão  artístico que funcionava colado ao MAM do Rio, onde  hoje funciona a casa de espetáculos Vivo Rio.  Um dia, depois da aula, fui embora andando com o professor, um grande poeta.  Em um dado momento ele catou umas moedas na bolsa, despediu-se  de mim e saiu correndo para pegar um ônibus lotado que chegava no ponto.

Um ônibus?! Me indignei ao ver como a sociedade tratava um renomado  artista, com vários livros publicados, vários prêmios no currículo. Na minha cabeça aquele homem tinha que ter um bom carro, uma vida confortável que recompensasse seu talento.  Como eu não tinha vocação pra hippie, decidi que meus talentos artísticos ficariam relegados à categoria de hobby. Precisava escolher uma profissão rápido e não estava disposto a passar as privações impostas à maioria dos  músicos, poetas, escritores e atores.

De repente a  informática já não me atraia tanto e eu  estava perdido, não sabia mais para onde ir. Não Lembro bem em que momento , mas  houve um ponto em que a  Comunicação me pareceu uma  boa alternativa.  Não fazia a menor ideia do que era o curso ou o mercado de Comunicação, mas  imaginei que poderia ser um caminho para unir  a música, o cinema, a literatura, o teatro e até o esporte em uma única carreira.  Dentro da Comunicação, estudei  Publicidade. Mas quando estagiava em uma agência vi que aquilo não me realizaria. Troquei de curso e tive a sorte de me tornar jornalista.

Em 22 anos de carreira já perdi a conta de quantas histórias ajudei a contar. E de quantas pessoas consegui ajudar com as histórias que contei.  Me arrisquei, experimentei , acertei mais do que errei. Vivo fazendo o que gosto. Voltei a arranhar o violão, a treinar Tae Kwon Do, me reaproximei do teatro e da literatura.  Aprendi a saborear a vida sem abrir mão das coisas que me dão prazer.

Hoje olho para trás e percebo que poderia estar feliz em qualquer carreira que tivesse abraçado. Porque não é a profissão que você exerce que  vai determinar o seu grau de sucesso e realização profissional. A  forma como você se relaciona com a profissão que escolheu e com as pessoas ao seu redor é que será determinante.  É claro que uns têm mais sorte, para outros as oportunidades aparecem mais facilmente, mas quem acredita, trabalha direito e persiste chega lá. Independente da profissão, é a forma como você encara os obstáculos, e como trabalha para superá-los ,que irá determinar o tamanho do seu grau de satisfação em relação à vida.

Tenho amigos que tocam suas vidas de forma digna, alguns até com boa dose de conforto, na música, nas artes e na Educação Física. Hoje tenho meu carro, minha casa, minha família, mas às vezes uso transporte público.  E quer saber, cada vez que preciso fazer sinal para pegar um ônibus lembro daquele velho poeta… E de como nós adolescentes  muitas vezes tomamos decisões importantes sem o devido cuidado.

Portanto, se você está em dúvida sobre qual carreira seguir, converse com profissionais da área, informe-se sobre o mercado, pesquise na internet, procure conhecer antes de se definir. E se,no meio do caminho, perceber que fez a escolha errada, não tenha medo ou vergonha de mudar. É o seu futuro que está em jogo.

Por JMC para Adolescente Demais