Meta sua colher

 

“Em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Eu tinha uns oito anos, ou menos, quando ouvi essa frase pela primeira vez. Os vizinhos gritavam desesperados, e os barulhos de vidro se quebrando denunciavam que a louça da casa não sobreviveria àquela briga. 

A curiosidade infantil colou nossos ouvidos à parede. As mães se apressaram para recolher suas crianças e, em segundos, a rua estava vazia. Num horário em que o comum era o ruído dos chinelo batendo no chão, e a gritaria do pique-esconde, a única coisa que se ouvia eram os berros na casa ao lado da minha, e no fundo um choro de criança.

“Não é melhor chamar a polícia?”, alguém chegou a perguntar antes da fatídica frase ser dita e cada um entrar de volta para sua bolha existencial. Até hoje, eu não sei o que aconteceu com aquele casal. Nunca mais vi, nunca mais ouvi. Mais de dez anos depois, eu revisito essa memória e me sinto angustiada. Qual era o motivo da briga? Será que ele machucou ela? Será que ela machucou ele? E a criança? 

“Casais brigam, isso é normal”, pode ser que você pense. Mas aquilo não era normal. Não foi uma discussão rotineira de um casal desgastado. Eram berros, vidro sendo estilhaçado, desespero, e em algum momento até pedidos de socorro. E ninguém fez nada. Naquela noite, entramos para jantar mais cedo. 

Entendo que as mães, inclusive a minha, agiram por instinto de proteção e medo. A coisa estava descontrolada. Não era bom ter as crianças na rua. Mas daí a ignorar completamente a realidade caótica ao lado, eu me pergunto, não era um exemplo egoísta a se dar para as crianças? Qual terá sido o desfecho da briga? E não seria diferente caso os vizinhos tivessem intervindo? 

Naquele dia eu e minhas amigas aprendemos um discurso, que eu só passei a questionar depois de uma década! Ali aprendemos a fingir que não vemos, a virar para o outro lado, a nem questionar determinadas situações. E numa ânsia de proteção, acabamos sendo ensinadas a acatar, a acreditar naquele discurso e, o pior, reproduzi-lo… 

Já ouvi dizer que, se uma mulher precisa de ajuda na rua, é melhor gritar “fogo”, já que “socorro” ninguém atende, principalmente se a briga for com o cônjuge. A nossa sociedade é tão doente assim? Não se mete a colher? Que ideia louca é essa de não poder prestar socorro a quem precisa, ou pior, a quem implora por ele? Pois meta, sim, sua colher. Porque a falta dela pode ajudar a tirar a vida de alguém. 

Eu queria ter um desfecho para a história dos meus vizinhos. Mas acho que a questão está justamente em não saber o que se deu. Em perceber a força das coisas que a gente cresce escutando e quando vira adulto tem a chance de repensar. E, principalmente, esperar que o incômodo gerado por essa lembrança se reflita numa postura diferente da que me foi ensinada. 

Bruna Paiva

 

Gostou do post? Então, comente, compartilhe e não se esqueça de me seguir nas redes sociais!

Siga @ADemaisblog e @BruPaivac no Twitter

Curta a fanpage do Adolescente Demais no Facebook

Siga @ademaisblog e @BrunaPaivaC no Instagram