Se o vagão é feminino, por que os homens continuam entrando?

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Todos os dias, para chegar à minha universidade, eu preciso pegar o metrô. Entro na estação por volta das 17:40. Sempre me posiciono atrás de uma espalhafatosa faixa rosa-choque, colocada na plataforma para indicar que o segundo vagão é feminino em horários de pico (dias de semana das 6h às 9h e das 17h às 20h). Há seis meses, não houve ainda um dia em que eu não tenha fechado a cara ao me deparar com o interior do vagão: cheio de homens, em sua maioria sentados.

Em algumas estações, normalmente no centro da cidade, os fiscais entram no vagão e soltam a frase decorada “pessoal, só para lembrar que, nesse horário, esse vagão é feminino. Vocês podem ir para todos os outros”. A maioria dos homens fica sem graça e muda de vagão, mas sempre tem aquele percentual que finge que não escuta e continua onde está. E ainda os que escutam e optam por descumprir a lei de forma deliberada mesmo.

Na semana passada, uma moça entrou falando bem alto “Vagão de mulher, vagão de mulher. Por favor, gente, a essa hora esse vagão é de mulher”. Um cara se levantou e ofereceu seu lugar. Ela agradeceu, mas disse que não queria sentar, só desejava que os homens fossem para outro vagão. O cara olhou-a de cima a baixo, sentou novamente e retomou a conversa com o amigo.

wp-1465300308226.jpgSei que alguns homens entram sem nem perceber. Mas outros, muitas vezes encaram os adesivos cor de rosa no interior do vagão e escolhem ignorar, voltando a atenção para seus celulares. Muitos utilizam do mesmo argumento: “Mas eu não sou o único homem aqui”. Querido, se você não aprendeu até hoje, deixa eu te ensinar: o erro dos outros não é justificativa para o seu.

Você pode pensar “mas qual o problema se você pega o sentido em que o metrô nem está tão cheio?”. O problema é que há dez anos e dois meses foi sancionada uma lei estadual aqui no Rio de Janeiro que, em seu artigo segundo, dava 30 dias como tempo de adaptação. Veja bem, TRINTA DIAS, e há DEZ ANOS ainda tem (MUITA) gente que não respeita essa lei. Às vezes os homens acham que sair do vagão feminino é fazer um favor às mulheres. Aprendam: NÃO é favor, é uma questão de respeito à lei. Nós temos o direito de andar no metrô cheio sem precisarmos nos preocupar com assédio.wp-1465300301719.png

O que eu vejo todos os dias no metrô é o retrato das faltas da nossa sociedade. Falta de educação, falta de respeito ao próximo, e, não dá para deixar de citar a falta de luta pelos nossos direitos.

No dia em que aquela moça pediu que os homens se retirassem, só eu e mais duas mulheres manifestamos apoio a ela. E, confesso, se ela não tivesse falado nada, eu teria continuado calada, com coragem apenas para encarar os homens com cara feia e desviar o olhar logo que eles percebessem.

Todos os dias o cenário é o mesmo e o incômodo também. Dá para sentir como várias mulheres ficam irritadas, assim como eu, quando o vagão está cheio de homens. Mas ninguém fala nada. A gente não se pronuncia por medo, covardia ou mesmo por pensar que “se eu falar não vai mudar nada”. Mas se a gente resolver se unir para reivindicar um direito que é nosso, te garanto que muda.

Se você é mulher e se incomoda com os homens no vagão feminino, reclame. Fale com os fiscais que ficam na plataforma. Mande mensagens para o metrô Rio, o twitter deles é @Metro_Rio, enche o saco deles, fala o número do carro e a estação, eles respondem. E pra quem anda de trem, pode mandar para a  Supervia: @SuperVia_trens. Peça, educadamente, para os homens se retirarem do vagão. Se manifeste na internet. Faça a sua parte. Só não fique muda, porque aí, minha amiga, realmente nada muda.

Bruna Paiva

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“A vida só é boa quando a gente faz as coisas com o coração…”

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“Boa tarde, gente. Eu vou tocar uma musiquinha. Se alguém se sentir incomodado é só falar que eu paro.”  O garoto que entrou no metrô devia ter uns 22 anos. Tímido e magrelo, trazia um sorriso no rosto e nas mãos um Ukulelê. Apoiou as costas na porta fechada do vagão e começou os primeiros acordes no pequeno instrumento.

Já no fim de uma semana cansativa, eu estava esgotada, com dor de cabeça, estressada, de saco cheio daquele dia, torcendo para que a sexta-feira acabasse logo. Quando começou a cantar, o som daquela voz me fez olhar novamente para seu dono. Ironicamente, aquele garoto franzino tinha uma voz maior que três dele. A batida gostosa e tranquila da música que ele tocava, junto com aquela voz tão incrível, me fez fechar os olhos e encostar a cabeça.

A letra que ele cantava, falava sobre acreditar em seus sonhos e não se deixar abalar pelas coisas pequenas. O refrão da música que eu não consegui encontrar em lugar nenhum vai e volta, martelando em minha cabeça, mesmo depois de alguns dias. “Filho, não se estresse/A vida só é boa quando a gente faz as coisas com o coração”.

Escutei a música inteira com os olhos fechados, porém cheios de lágrimas. Quando ele terminou, contou que era do interior do Ceará. Que chegara ao Rio de Janeiro havia pouco tempo com um único objetivo: seguir e viver de seu sonho que é cantar.  Percebi que não havia sido a única a ser tocada pela música. Dentro do vagão, várias pessoas, que antes estavam com cara de paisagem, sorriam olhando para o garoto.

Juntei todas as moedas que havia recebido de troco naquele dia, e jogado negligentemente no bolso da mochila, sem paciência para colocar no devido lugar. Dei na mão dele com um sorriso no rosto. Ele sorriu de volta e agradeceu.

O garoto desembarcou na estação seguinte. Ainda sentada, assisti a ele sumindo na multidão antes de o trem sair da estação. Não consigo me lembrar seu nome. Mas aquele garoto mudou o meu dia. Talvez por minha sensibilidade aos mais diversos tipos de artistas de rua. Talvez por ter me mostrado o quão idiota estava sendo por reclamar de uma semana rotineira ao invés de fazer mais as coisas com o coração. Saí daquele vagão me sentindo mais leve. O estresse, cansaço, aquela dor de cabeça de que eu reclamava, tudo acabou virando um sorriso.

Aquele garoto entrou no metrô no meio da tarde dizendo que tocaria uma musiquinha. Pediu para que, se alguém se sentisse incomodado, dissesse. Provavelmente um discurso repetido o dia inteiro. Quem sabe o que ele já não escutou por aí? Provavelmente, para ele, aquele era só mais um vagão. Eu, só mais uma garota no meio de mais um grupo de pessoas. Mais meia dúzia de moedas que nem ajudam tanto assim.

Mas para mim, naquela tarde, ele definitivamente não foi só mais um cara no metrô. Ainda hoje, semanas depois, a cada vez que me percebo reclamando, estressada por motivos bobos, fecho os olhos e faço aquele refrão voltar em minha cabeça. Respiro fundo e me obrigo a sorrir.

Bruna Paiva

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