Sozinha na Guatemala: um relato

Em 2017 li um livro chamado “O país das mulheres” e ele marcou o que seria uma grande mudança na minha vida. Era o início do meu interesse pelo feminismo, talvez do meu próprio entendimento como mulher na sociedade. O livro, que é ótimo e foi resenhado aqui no blog, citava brevemente uma poeta da Guatemala a quem eu resolvi procurar e transformei numa pequena obsessão que, mais tarde, virou objeto de pesquisa quando decidi fazer mestrado.

Foi assim que, em julho de 2022, eu fui parar sozinha na Guatemala. Desde o início da pesquisa eu sabia que, se quisesse encontrar boa parte do que precisava para o trabalho, seria necessário viajar para aquele pequeno país da América Central. Isso porque, além de não existirem traduções da obra de Ana María Rodas no Brasil, eu sou a primeira brasileira pesquisando a autora. Por isso, é muito difícil encontrar material crítico e jornalístico por aqui.

No fim do ano passado, conversando com a minha orientadora e tentando entender como se daria essa viagem, surgiu a oportunidade de um congresso internacional de literatura latina bem na Cidade da Guatemala. Juntamos o útil ao agradável.

Planejar a viagem foi gostoso, mas também tenso. Eu viajaria sozinha para fora do país pela primeira vez na vida. Um milhão de medos passaram na minha cabeça. A maioria deles envolviam o fato de ser uma mulher viajando sozinha. A gente precisa de coragem para se enfiar numa dessas…

Fui com medo (vários deles), mas fui. Na semana anterior à viagem, tive a notícia de que muito provavelmente não conseguiria contato com a autora que pesquiso. Aquilo me desanimou de cara. Querendo ou não, era o meu maior objetivo pessoal com a viagem. Eu podia seguir a pesquisa sem aquela entrevista, mas eu sei que pessoalmente voltaria frustrada.

Foram horas de avião e aeroportos para chegar lá já passando perrengue com a imigração e mal-entendidos no hotel. No primeiro dia fui dormir chorando e morrendo de fome e saudade de casa.  Mas passou. Fiz o que precisava fazer e segui para a semana mais intensa do meu ano.

Conheci uma cidade colonial que foi destruída por um terremoto no século XVIII, vi um vulcão, visitei bibliotecas, livrarias, arquivos de jornais, museus… Em alguns momentos, me sentia muito sozinha, tinha pena de estar vivendo tudo aquilo sem compartilhar com meu namorado, minha mãe, uma amiga, ou seja lá quem fosse. Mas no fim do dia eu sempre ligava para casa, contava tudo o que estava vivendo e isso amenizava a saudade.

Não consegui entrar no fuso e acabava indo dormir junto com o Brasil, o que fazia com que eu acordasse com o céu ainda escuro e dormisse muito mal. Também tive problemas com a comida que, além de diferente, era muito cara. O custo de vida na Guatemala não é barato e muitas vezes a estudante aqui precisava se contentar com um big mac (sem batata e refri) que por si só já era um absurdo. É claro que em algum momento da semana a conta da má alimentação chegou pesada, fazendo eu passar muito mal.

Viajar sozinha tem suas dificuldades, mas também faz a gente se sentir o máximo. Faz a gente perceber que se basta e que consegue tomar conta de si mesma por mais que os obstáculos apareçam de vez em quando. Também faz a gente dar mais valor para as companhias que temos sempre do nosso lado, para os momentos bobos com as pessoas que a gente ama.

O congresso em si não foi lá essas coisas. É irônico ter sido vítima de machismo enquanto apresentava um trabalho essencialmente feminista. É claro que isso dá uma abalada, mas no fim o sentimento se transformou em gás para mostrar que meu trabalho é necessário, que é preciso que cada vez mais mulheres se coloquem em posições importantes para falar de outras mulheres e levantar as bandeiras de feminismos diversos. Toda mulher passa por isso, e não vai ser a última vez. É aprendizado também.

Entrevistar as críticas especialistas na poeta que estudo foi providencial, me deu certeza de que o trabalho é relevante e de que há muito a ser dito. E quando um colega querido, que já muito me havia ajudado, conseguiu marcar meu encontro com Ana María Rodas, eu senti que voltaria para casa com a missão cumprida. E foi o que aconteceu.

Ana María Rodas e eu

Na quinta-feira (21/07), passei a tarde na casa de Ana María Rodas e fui recebida da melhor maneira possível. Ela me contou sobre sua infância com o incentivo à leitura da mãe, que lia diversos livros para ela e os irmãos. E também das peripécias de uma menina que já pequena se deu conta da diferença com que os meninos e meninas eram tratados e guardou aquele sentimento esquisito até que transbordasse em um livro de “Poemas de la Izquierda Erótica”.

Quando cheguei ao hotel naquele dia, com o sentimento de que havia conseguido fazer tudo a que me propus quando saí do meu país, estava extremamente feliz, apesar do cansaço que, depois de tudo, chegava com violência.

A sexta-feira, último dia de viagem, foi o meu dia compensatório. Fui a um bairro chiquérrimo (e caríssimo) e me permiti apenas passear, sentar em um restaurante, aproveitar uma refeição gostosa e fazer fotos belíssimas. Passei também em um mercado de artesanatos e trouxe presentes para a família. Terminei aquele dia arrumando minha mala e assistindo a Turma da Mônica no hotel.  

A volta foi muito cansativa, com uma maratona de aviões e 8 horas intermináveis no aeroporto da Colômbia. Mas no fim valeu à pena.

Essa viagem foi a maior aventura da minha vida antes mesmo da decolagem. Mas eu faria tudo de novo, apesar de cada percalço. Foi uma semana completamente transformadora e eu acredito que é uma experiência pela qual todas nós deveríamos passar um dia. Se você é mulher e tem medo de viajar por si só, acredite, é algo que muda sua visão sobre você mesma. Junte os caquinhos do seu medo, agarre-os e vá com eles mesmo…

Guatemala, muito obrigada por essa semana.

Bruna Paiva

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