Lembrança

Fim de manhã.

Arrumo os papéis espalhados na mesa da cozinha enquanto tento te expulsar da minha mente. Nunca mais te disse uma palavra.

Mas as que eu deveria ter dito ecoam na minha cabeça dia sim, dia não.

 

Me encosto na parede e choro até o chão, feito cena de novela.

Na lembrança, tua boca roça meu pescoço

sem que eu desconfie das mentiras que ela me conta.

 

Saio dali e pego um táxi até a praia.

Sento na areia, fecho os olhos deixando que o sol me cegue

e me livre dessa mania de me torturar

com a vaga lembrança do sabor do teu amor.

 

Bruna Paiva

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Papel

Permita que eu abuse de sua boa vontade.

Que eu derrame sobre ti toda a angústia de ser quem sou

E a impotência de amar quem amo.

 

Me conceda essa sua paciência

Que me é assustadoramente necessária.

Porque no fundo sou eu a tua escrava,

“meu tão certo secretário”.

Sou eu quem te preciso e não você quem me serve.

Te atormento com a minha agonia

Que é para não terminar afogada.

E não há remédio mais eficaz para o vazio estranho que me consome.

 

Desafogo a caneta e deixo a marca da minha dor

Porque sei que, enquanto houver tinta, você me permitirá.

Sempre em branco, paciente, à disposição.

 

Bruna Paiva

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A menina no espelho

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O coração cogita ceder

Mas o reflexo implora

Que é isso, menina,

Respira, segura, controla e não chora

A garota sorridente

Que me olha confiante

E passa batom vermelho

Aquela, logo ali,

Do outro lado do espelho

Não reflete a verdade do que sente

Ela finge que é forte

E, com um pouco de sorte, você acredita

Mas por trás do sorriso

Da maquiagem no olhar

Por dentro, o mundo parece ruir

E o coração

Sozinho, decepcionado e cansado de sofrer

Não aguenta a pressão e chora

Enquanto ela vive

Sorrindo por fora

Bruna Paiva

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