Démodé

Acende a tela. 125 mensagens. Por grupo. Em vinte minutos.

Notificação, Lembrete, e-mail, te seguiu, curtida, comentário, discórdia, notícia falsa, esquerda, direita, tragédia, briga, tendência, influencer, fulano falou, ciclano mentiu, beltrano roubou, Trending Topics, carência, todo mundo é dono da sua vida, “por que você não respondeu?”, “onde está?”, “fazendo o quê?”, “com quem?”

A hora passa e você pouco respira. Olhos fixos, dedos ágeis e mente atribulada. Mal se dá conta de que o mundo não repousa na palma de suas mãos.

O aparelho não tem cheiro, vento batendo na cara, gosto, frio na barriga no toque. Te priva de estar só.

Respirar fundo e observar as pequenas particularidades do mundo, prestar atenção de verdade, sem desfoque, pensar no aqui, no agora, esse único segundo que realmente importa: isso é démodé.

Bruna Paiva

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Existe vida sem Whatsapp?

whatsappOntem, ao chegar da minha colação de grau, abri o Facebook e me deparei com o assunto do momento: a pausa no Whatsapp. Não fazia ideia do porquê do alvoroço que se estendia ao Twitter e todos os sites de notícia. Foi um dia corrido e não tive tempo de abrir a internet antes. Em cinco minutos descobri o que causava tanto reboliço nas redes sociais. Por uma ação judicial, o Whatsapp seria bloqueado durante 48h em todo o Brasil (o que não se concretizou, a agitação foi tanta, que em 12 o aplicativo já havia sido liberado).

Quero deixar bem claro que não concordo com a “punição” determinada pela justiça brasileira. Até porque, o bloqueio do aplicativo, às vésperas da minha festa de formatura, quando ainda preciso resolver algumas coisas à distância, também me prejudicou. Por mais que fosse uma investigação importante, é de praxe para a empresa não quebrar o sigilo de seus clientes. Não acho correto os usuários, que nada têm a ver com a questão política, saírem no prejuízo. Entretanto, fiquei realmente assustada com o completo desespero que vi entre meus amigos e dentro de minha casa.

Para começar, há três anos ninguém usava Whatsapp. Não seria tão difícil assim voltar para o SMS ou o Messenger do Facebook, que é mega funcional; ou mesmo o extinto MSN, que eu amava e ainda acho um crime que tenhamos abandonado. Ah, existe uma coisa chamada telefone, a principal função do seu celular inclusive, dá para se comunicar por lá também. E outra: seriam só 48 horas. Talvez seja difícil de aceitar, mas acreditem, existe vida além da tela do celular.

Será que realmente é preciso tamanha inquietação por dois dias sem um aplicativo que nem estava em nossas vidas há quatro anos? Depois de algumas horas sem nenhuma notificação de Whatsapp, alguns pensamentos me vieram.

Lembrei que, quando eu era pequena, fazia minha mãe comprar cartões de Natal para entregar aos meus amigos, e sempre recebia um monte deles também. Sinceramente, não me lembro do último cartão de “Feliz Natal e um próspero Ano Novo” que recebi. Tenho esses papeis guardados e sinto falta desse carinho físico. O contato virtual é legal, mas não se compara a uma cartinha com a letra da pessoa. Ou a um abraço daquele amigo que você não vê há tempos.

O mesmo acontece no seu aniversário. Quantas pessoas te mandam cartões desejando coisas boas no seu aniversário? Nenhuma? Bem-vindo ao time. Hoje em dia, poucas pessoas me ligam no meu aniversário. Mas é claro que chovem “Parabéééns, tudo de melhor na sua vida. Bjs”. É claro que eu amo receber recadinhos de aniversário no Facebook, Whatsapp, Twitter, mas nem se compara a emoção de atender o telefone e ouvir a voz de alguém especial te desejando os parabéns.

É engraçado como os grupos estão sempre lotados de mensagens, mas quando é para se reunir na vida real, criamos mil dificuldades. Parem e pensem, pessoal, será que 48 horas sem esse aplicativo seriam realmente tão sacrificantes? E se o Whatsapp ou as redes sociais acabassem pra sempre, sua vida iria junto? Será que realmente precisamos de tanto desespero por um recurso que, repito, há quatro anos não nos fazia falta?

Se as coisas continuarem nesse rumo, eu realmente tenho medo do que pode acontecer se um dia essa “vida” virtual vier abaixo…

Bruna Paiva

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