A última vez

Quando me sentei naquele viaduto, não achei que fosse realmente pular. É verdade que o ambiente só me permitia pensar naquilo. Sempre foi assim. Pontes, montanhas, passarelas, prédios altos, toda vez a mesma divagação: morrer é fácil se eu pular daqui.

Pensar em morrer era tão frequente quanto sentir fome. E involuntário. Sem que eu me desse conta, lá estava a ideia novamente. Uma tendência suicida que nunca entendi bem. Mas também nunca fui capaz de controlar. Ainda assim não imaginava que algum dia realmente cederia.

Sentei no viaduto da rua de trás da minha casa cansada da vida, é verdade. Mas não era a primeira vez. Pelo menos um dia por quinzena e, nos últimos tempos, a cada semana, eu seguia a mesma rotina. Às sete da noite, depois da escola, antes de voltar para casa, eu parava por ali. Sempre do mesmo jeito: coração apertado, angústia corroendo de dentro pra fora, começando no estômago, misturada com a fome, e então fervendo o sangue e girando a cabeça. Enjoada, tonta, impaciente, sem a menor urgência de continuar vivendo.

Entretanto, eu sempre voltava pra casa. Recolhia a mochila, limpava o rosto, respirava fundo e voltava para casa. Especialista em me recompor depois do choro compulsivo, ninguém percebia um vestígio da crise tão recente. Levantava como se nada ali fosse fora do normal (e era?).

Talvez eu nunca tenha chegado a me levar a sério. Sempre imaginei um suicida como alguém fora de suas faculdades, alguém completamente transtornado, fora de si. Mas eu estava sóbria. Tinha completa noção do que acontecia, das coisas que passavam na minha cabeça, nunca estive tão consciente. Na minha lógica, isso tirava toda a credibilidade das ideias destrutivas em minha mente. E se eu mesma desconsiderava o que sentia, como exigir dos outros qualquer tipo de compreensão?

A acusação de “drama” de fato me convencia. “Existem problemas de verdade no mundo”, eu pensava, ecoando o que já me fora dito. E cada vez mais cansada eu voltava para a rotina condenando cada sofrimento, sabotando cada parte de mim. Colocava os outros como prioridade e diminuía as minhas próprias dores tendo a certeza de que eu aguentava, afinal, eu sempre aguentei.

No fim de mais uma semana comum, lá estava eu novamente; as pernas balançando num dos viadutos mais altos da cidade, os olhos tão molhados que só enxergavam as luzes correndo na pista lá embaixo. Toda disposição corroída pela dor acumulada. Um vazio profundo preenchendo todo meu espaço interno. Uma falta de vida apenas existindo num corpo inerte. Talvez antes me faltasse coragem por ainda existir alguma força pulsando de dentro pra fora. Esperança? Um vestígio dela, quem sabe… Dessa vez o corpo foi mais forte, a angústia falou mais alto, o peso finalmente me deixou cair.

Bruna Paiva

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DESILUSÃO NO PRIMEIRO AMOR – VIDEO NOVO NO AR!

Quem nunca teve um amor não correspondido? Quem já se deixou iludir em nome de uma grande paixão? Pois é, gente. Comigo aconteceu pela primeira vez aos 13 anos e é sobre isso que falo no vídeo desta semana. O tema gira em torno do texto “Obrigada por quebrar meu coração”, que escrevi e publiquei aqui no blog em 2014.

Aproveito pra convidar todo mundo a  participar do projeto do livro Adolescente Demais assistindo ao vídeo de apresentação e  me visitando na plataforma Wattpad. Não se esqueçam de divulgar para os amigos e de deixar a opinião de vocês. É a partir da participação do público que irei selecionar os textos e temas que farão parte da edição física do livro Adolescente Demais.
Ansiosa pelos comentários, visita e likes de todos vcs por lá!
Bjs da Bru!

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Lembranças do nosso fim

Sentada na praia em um dia de mar gelado demais para mim. Preferi ficar aqui no sol mesmo. Estava lendo meu livro, mas não consegui mais me concentrar depois que um jovem casal passou por mim.

Eles brincavam pela areia. Ele implicava com ela enquanto corriam até o mar. Ele jogou água nela, que ficou braba de início, mas acabou amolecendo com um beijo apaixonado em meio às ondas. Do mesmo jeito que fazíamos até o último verão. E então as cenas que vivemos na praia da casa do seu tio vieram todas à minha cabeça. Os beijos apaixonados, as tardes no mar, as juras de amor eterno. A ilusão de que éramos para sempre…

Fiquei me perguntando se aquele casal, que devia ter a mesma idade que tínhamos quando ainda estávamos juntos, acabaria como a gente. Se teriam o nosso fim. É, eu sei que já tinha me prometido nunca mais pensar no nosso fim, nem em você, mas eles me remeteram tanto a nós dois que ficou meio difícil manter a promessa.

Só consigo esperar que ele não se canse dela. Que não decida se divertir com outras enquanto a ilude. Espero de coração que ela seja feliz e não sofra como eu sofri — ou será que ainda sofro?

Não desejo o nosso fim para ninguém. Só não sei se estou dizendo isso porque realmente não o desejo a ninguém ou se é só porque queria que até o nosso fim fosse só nosso…

Bruna Paiva

O velório do amor da minha vida

3944988O silêncio era adequado à situação. O clima daquele lugar estava pesado, eu não conseguia me decidir se estava abafado só por causa do calor ou se era aquela cena que me deixava sem ar.

Algumas lágrimas caem lá e cá. Algumas pessoas que não deveriam estar aqui vieram só para fazer uma média.  E eu me pergunto de que adianta fazer média com alguém nessa situação?

Ainda não tive coragem de andar até o principal motivo de eu estar aqui. Sei que quando chegar perto meu mundo vai cair. Mais do que caiu ontem, quando a minha mãe me deu a notícia. Mas é melhor parar de adiar, afinal não tenho mais muito tempo para me despedir.

Tomei coragem, respirei fundo e comecei a andar. Algumas pessoas se afastaram para que eu passasse e pude ver o olhar dos meus amigos para mim. Parecia que estavam com pena.

Andei pouco até conseguir avistá-lo. De terno e gravata, ele ia odiar se pudesse ver aquilo, deitado de olhos fechados e um semblante cansado num caixão preto estava o amor da minha vida.

O ar me faltou e uma lágrima simplesmente pulou de meu olho esquerdo. Cheguei mais perto já com mais uma lágrima escorrendo por minhas bochechas. Passei a mão por seus cabelos castanhos e outra lágrima minha caiu sobre sua boca. Aquela boca que tanto me fez sorrir, que tanto sorriu para mim e me beijou tão fervorosamente estava agora imóvel em uma expressão que em nada se parecia com seu lindo sorriso.

Toda a angústia que eu sentia naquele momento saía de meu peito e se transformava em soluços. Os últimos soluços ao lado dele.

Ah meu amor, por que foi que você se meteu com aquela gente? Eu te pedi tanto pra se afastar daquele mundo… Agora olha só o que te fizeram. Nunca mais vou poder te abraçar… E o nosso casamento? O que faço com os nossos planos? Jogo tudo fora e sigo minha vida? Eu não consigo fazer isso. Não sei mais viver sem você…

Suas mãos que sempre me aqueceram agora estavam duras e geladas. O peito que me acolhia agora não tem mais o movimento da respiração dele. E as batidas de seu coração nunca mais vão tocar para mim…

Alguns olhares de piedade me fazem ter a certeza de que nada vai me ajudar neste momento. Tudo de que eu precisava é a única coisa que infelizmente eu nunca mais terei: um abraço apertado dele.

Bruna Paiva

Meu nome é Valente

valenteMuito prazer meu nome é Valente, sempre estou certo e ai de quem discorde de mim. Meu nome é Valente e sou o centro do universo. Todos amam o que falo e faço e é evidente que não podia ser diferente. Meu nome é Valente e comigo só andam aqueles que me aplaudem. Meu nome é Valente e comigo os mais fracos não têm vez. Aquele que a mim se opõe é otário, idiota e errado.

Meu nome é Valente e não dou a mínima para os estudos. Pra mim, respeito é coisa que só eu mesmo mereço. Meu nome é Valente e tenho sempre uma resposta, não me importa se ela ferirá quem a escuta. Aquele que tenta me educar é alvo do meu deboche. Meu nome é Valente e sou muito engraçado. Afinal não sou só eu quem digo… Meu nome é Valente e o que eu quero é curtir, não me interessa se estou prejudicando alguém, eu só penso em mim mesmo.

Meu nome é Valente mas na verdade sou covarde, egoísta e fraco. Meu nome é Valente mas no fundo sou inseguro. Tenho medo de rejeição e vivo em cima de um muro. Meu nome é Valente mas nem sempre sou valente. Se longe das minhas pequenas marionetes, Valente não consigo ser.

Meu nome é Valente, é o que sempre digo, mas de verdade, quem sou eu quando não sou Valente?

Bruna Paiva